NOME DE CÃO

O Tejo foi o primeiro cão que conheci. Era eu criança quando o meu pai o levou lá para casa. Era pequeno e muito brincalhão. Tinha o pelo para o dourado escuro, mas na barriga era um pouco mais claro. Andava sempre com o rabo em caracol, virado para cima. Foi crescendo e tornou-se um pouco redondo, de um redondo maciço. Andava como que aos pulinhos. Brincávamos muito com ele, corríamos, rolávamos na erva e ele acompanhava-nos sempre, feliz, como se fosse criança como nós. Os meus pais diziam que era muito bom de guarda, e era. De dia ou de noite, ladrava furiosamente, sem parar, contra o quer que fosse que se aproximasse da nossa casa, isolada da aldeia, no cimo do cabeço. Ladrava, ladrava, até ficar rouco. Houve vezes em que nos levantámos para ver do que se tratava e, de facto, alguém, ou algum animal, andava perto. Uma noite assaltaram o quintal das galinhas e levaram quase tudo, porque o Tejo estava doente. Foi a única vez em que falhou. Até que um dia o encontrámos agonizante, na arrecadação, a que chamávamos “casita”. Olhava para nós, triste, como que a dizer adeus, com  lamentos na voz. Partiu nessa noite, por acaso uma noite de passagem de ano, vitimado por envenenamento, viemos a descobrir depois.

Durante alguns tempos não tivemos cão. Mas um dia, apareceu no casal um cão trigueiro, esguio, focinho comprido, olhar perdido, com sinais de medo e fome. Trazia o rabo entre as pernas e as orelhas caídas, mortiças, e tão depressa fazia tenção de se aproximar como de fugir. Dava pequenas corridas desordenadas, ladrava como que em desespero, aproximava-se, voltava a afastar-se, depois aproximava-se outra vez, e assim passámos uns minutos, até que se veio chegando chegando, a ponto de poder tocar-lhe uma, duas, três vezes… e assim ficou connosco, depois de comer sofregamente tudo o que lhe arranjámos. Pusemos-lhe o nome de Perdido. Afeiçoou-se tanto a nós que quase não nos deixava caminhar a direito, roçava-se nas nossas pernas, corria à nossa frente, ou dava voltas curtas em nosso redor, regressava com uma alegria transbordante, saltava até ao nosso peito, era um autêntico redemoinho à nossa volta. O Perdido um dia desapareceu. Roubado ou por decisão própria, nunca mais voltou ao casal. Houve quem dissesse que o avistara numa estrada, a caminho da lezíria, mas as esperanças de que voltasse foram infundadas. Ficámos tristes, outra vez.

O sítio onde morávamos pedia cão de guarda, de modo que meu pai tratou de um substituto para o Perdido. O que trouxe, era um cão arraçado de perdigueiro, com as orelhas descaídas, a que pusemos o nome de Volta. O nome nasceu por duas razões. Primeira: voltámos a ter cão. Segunda: o animal era de um homem que havia tentado desfazer-se dele, abandonando-o longe diversas vezes, mas ele voltava sempre. O homem tinha outros cães, sabia que o meu pai queria um, e combinaram que o animal ia para o nosso casal, onde ficaria preso o tempo suficiente para se habituar aos novos donos e não mais voltar ao anterior. Depois de se habituar ao nosso casal, o Volta parecia não mais querer ir embora. Era um cão muito inteligente, ia esperar-nos ao caminho, na caça às perdizes portava-se como um profissional, na guarda da casa ladrava o suficiente para alertar, porém menos activo do que  o Tejo. Um dia desapareceu. Foi o meu pai falar com o antigo dono, mas não o encontrou lá. Passavam dias e dias e o Volta… não voltava. Estávamos quase a desanimar quando o Volta voltou. Esteve connosco até ao fim. Conheceu os meus pais, conheceu-nos a nós, os filhos, e conheceu também os netos. O seu último lar foi sob a larga copa de uma oliveira quase centenária, no terreno da vinha, perto da nossa casa.

Houve outros cães no nosso casal: o Hoss e o Patudo, por exemplo, assim como uma cadela, a Fineza.  O Hoss foi assim baptizado porque nos foi oferecido na altura em que passava na televisão, uma vez por semana, o Bonanza. Na série havia a personagem de Hoss, filho do rancheiro, que primava por ser grande, gordo e muito forte fisicamente. Era solidário, generoso, mas fervia em pouca água se alguém pretendia molestá-lo ou à sua família e amigos. Foi porque achámos que aquele cão poderia ser como o Hoss (acima de tudo era forte, fisicamente) que lhe pusemos aquele nome.

O Patudo era um rafeiro baixo, atarracado, com pelo manchado de castanho, amarelo e branco. Seria cruzamento de rafeiro com outra raça de porte mais baixo, daí ser atarracado. A sua característica principal estava nas patas: largas, com muito pelo até aos dedos. A Fineza era uma cadela que foi levada para nossa casa pela minha irmã Margarida, tão pequenina que viajou no bolso do casaco. Foi sempre assim, pequenina, muito peluda, arraçada de podengo. Viveu muitos anos e deu muitos filhos, que criou com grande desvelo, como uma mãe, a cem por cento.  A Fineza recebeu o nome de uma cadela que o meu pai tivera em casa, quando criança. Dela lembrava-se diversas vezes, contando-nos as peripécias da Fineza na caça, acompanhando o meu avô. Com a nova Fineza estabeleceu o meu pai uma enternecedora ligação, decerto em memória da heroína dos seus tempos de criança, quando o meu avô chegava a casa, após a caçada, cheio de coelhos à cintura. A Fineza também conviveu com meus pais e seus filhos e netos.

Foram estes os cães que marcaram a minha vida e estes foram os seus nomes. Em criança, ou mais tarde, ouvi outros nomes de cães, como Piloto, Benfica, Estrela (cadelas), Malhado, Leão, Raposa (cadelas)… Hoje em dia os cães (e outros animais) recebem nomes de pessoas. Por exemplo, há dias ouvi chamar Rodrigo! Rodrigo!… e só depois vi que não era por uma criança que chamavam, mas por um arraçado de caniche, que escapou por um triz diante de um automóvel…

Manuel João Sá.

Podengo Português
Podengo português. Era assim o primeiro cão de que me lembro. Foto da Internet, de “O Dono Cuida”.

Autor: 60emais

Português.

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