CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – MARIA CONSTANTINA FOI PRESA…

Maria Constantina. Constantina porque era filha do Constantino. Em verdade, Maria Augusta Martins. Ou, a minha avó materna. Nasceu em 1888. Teve dois irmãos, um deles era o Francisco, o tio Francisco. No Verão construía veículos de madeira para mim, à base de tábuas das caixas de sabão, sabão azul em barra. Eram veículos de brincar, imitando carroças, galeras ou mesmo carroçarias de camionetas de carga. Vinha do Vale, subia a encosta a pé, pelo carreiro, com as viaturas às costas, a cheirarem a sabão. Chegava a nossa casa, saudava todos e sorria ao ver-me sorrir com o seu aparecimento. Umas vezes a mulher vinha com ele, outras vezes ela, a tia Luciana, vinha só, pela tardinha. Depois ficava em nossa casa até quase ao anoitecer, só partia depois de ter saboreado café de chicória, que dizia a avó Constantina não fazer mal a ninguém, só bem. A tia Luciana despedia-se então, lenta, carinhosa, e tomava o carreiro até ao Vale, pelo lusco-fusco. A tia Luciana e o tio Francisco moravam perto do pinheiro das areias, numa casinha bonita, entre flores, cercada por árvores e pelo quintal onde cultivavam tudo. A tia Luciana. Pequena, roliça, serena, doce, sorridente, tão bonita no modo de ser que apetecia aconchegar-me nela e dar-lhe muitos beijos nas bochechas cor de mel. Trazia-nos rebuçados, por vezes bolos ou frutas mimosas. Olhava-nos devagar, como se descansasse os olhos e a alma em nós e, sedutora e seduzida, continuava a sorrir.

Ana, a tia Anica, era a outra filha do Constantino. A mais nova dos três. Olho verde-azul, salpicado de pintinhas castanhas brilhantes, quase purpurina, era elegante, de cintura fina, radiosa, graciosa no andar e no conversar. Aparecia quase sempre de surpresa. Vinha da Póvoa da Isenta, onde vivia um segundo casamento por morte do primeiro marido, ainda muito jovem, vitimado por uma faísca numa grande trovoada, quando andava a trabalhar nos campos de Póvoa de Santa Iria, nas terras do termo de Lisboa, assim se dizia. Estiveram casados dois anos. Mas a tia Anica era como uma estrela. Gostávamos de a ver e ouvir brilhar, mesmo que dissesse coisas inesperadas, menos convenientes, sob o olhar crítico da irmã Maria. Ríamo-nos, cúmplices, e fazíamos votos para que não parasse de falar, de gesticular, de dizer coisas engraçadas. Tinha uma filha, a prima Irene, nascida de sete meses e dizia-se que, por isso, quando pequena era enfermiça, porém, apesar de baixinha, fez-se rija, despachada, casou, teve um filho, trabalhou toda a vida, continuou a fazer pão caseiro e arroz-doce sem igual, enquanto mantinha o prazer de comer couves cozidas com chouriço, farinheiro e toucinho e ainda bacalhau seco com pão, o seu petisco preferido, até perto dos noventa, quando partiu.

Em 1928 a avó Constantina tinha 40 anos. Casada com António Pereira da Velha, mas “da Velha” era alcunha. Eram três irmãos e todos “da Velha”, conheciam-nos assim. Contava-se que um dia, numa corrida a pé na Póvoa da Isenta, o vencedor teria sido um tal Manuel Pereira, neto de uma mulher velha, muito conhecida. Então, as pessoas diziam: quem ganhou a corrida foi o neto da velha. A alcunha terá começado aí. O Manuel Pereira “da Velha” foi o pai de António, meu avô, que em documentos oficiais já aparece com “da Velha” integrado no nome, como apelido. Quando a avó Constantina e o avô António casaram foram viver para um bocado de terra ao cimo de uma das encostas do Vale. Dali podiam olhar o longe e, lá em baixo, ver a igreja e o casario da Torre, que foi ali que nasceu o primeiro núcleo de população do Vale de Santarém, quando a terra ainda não tinha esse nome, mas Vale de Soeiro Tição, ou coisa assim. O bocado que compraram era um pinhal, qualquer coisa como um hectare, fazendo extrema com a Quinta da Fonte Boa. Foi preciso cortar pinheiros e sobreiros, roçar matos, limpar e endireitar a terra. Plantaram vinha, oliveiras e árvores de fruto e ainda reservaram um pouco para a horta, que havia água suficiente, vinha de uma nascente fértil, corria todo o ano. Depois foi o tempo de viverem mesmo ali, primeiro numa barraquinha de madeira, revestida de cana seca no interior, enquanto a casa de adobes era erguida logo ao lado, com suor e sonhos. Nasceu-lhes um filho, que uma doença súbita levou, muito cedo. A avó Constantina ficou consumida, varada pela morte do seu primeiro filho. Durante anos não pensaram em filhos, até que Emília veio ao mundo, no dia 3 de Junho de 1921, era sexta-feira. Emília Martins Pereira, minha mãe.

Em 1928 começou no Vale de Santarém a construção do mercado da aldeia. Antes disso foi preciso fazer peditórios para arranjar o dinheiro para as obras e o povo foi chamado a participar. Era assim, para as coisas que interessavam a todos, até nos casamentos, nos funerais ou qualquer desgraça ia alguém, de saco na mão, de porta em porta, a fazer o peditório. Então, a avó Constantina falou com algumas amigas e combinaram o que cada uma iria dar. Chegado o dia, foi entregar o dinheiro a um dos senhores da comissão, que era um dos lavradores mais conhecidos da terra. Desceu pelo carreiro, foi ao Vale, entregou o dinheiro e aguardou que o contassem. Fica em nome de António Pereira da Velha, disse ela, que ler e escrever não sabia. As obras haviam começado. A praça foi-se erguendo, ia ficando mais perto o dia em que o povo passaria a ter a sua praça pública para compra de peixe, carne, animais de criação e legumes. Porém, a certa altura começou a constar que era preciso mais dinheiro e que a comissão iria voltar a pedir ao povo que contribuísse. Esta situação gerou surpresa e descontentamento, até começou a dizer-se que alguém teria feito desaparecer parte do dinheiro. Nas lojas, nas tabernas, nas ruas, nas hortas, nos campos, por todo o lado, as pessoas falavam do caso, à boca pequena, que a comissão era formada por gente de poder. Foi numa loja que a avó Constantina disse: eu já não dou mais dinheiro, se querem mais vão pedir aos ricos. O que a avó Constantina disse ali passou a ser repetido noutros pontos do Vale. Alguns dias depois a avó foi presa. Levada para Santarém, entre dois guardas, fizeram a caminhada a pé, atravessando a aldeia, num dia frio, de nevoeiro e chuva miudinha. A avó Constantina só levou consigo o que tinha no corpo e um xaile. Foi posta numa cela no comando da guarda, pela noite deram-lhe uma malga com sopa, em que não se atreveu a tocar. Mal dormiu. Tinha frio e sentia-se como num palheiro, o colchão, sob a laje, cheirava a urina. Pela manhã foi interrogada. Acusavam-na de ter ateado uma revolta no Vale e de ter faltado ao respeito à comissão. A avó Constantina só respondia que não ia dar mais dinheiro, que não podia dar, mas o interrogatório continuou, até lhe arrancarem o pedido de perdão, ia a tarde adiantada. Porém, continuava presa quando a cunhada Maria da Velha a foi visitar, acompanhada da sua filha Emília. Foram a pé, ida e volta. Levavam comida, roupa para o frio, mas só a roupa pôde entrar na cela. Não deixaram que a vissem. Voltaram muito tristes a casa.  

No dia seguinte, a tia Maria da Velha e outras mulheres começaram a movimentar-se. Foram falar com o chefe da comissão de fundos, que disse que não gostava de ser desautorizado, que tinha sido enxovalhado, que a avó Constantina tinha levantado o povo contra a comissão e contra ele em especial. Saíram dali e foram falar com outros dois lavradores. Um deles disse que não sabia o que se passava mas que ia inteirar-se. O outro disse que a questão era muito delicada, que se a avó Constantina estava presa era porque tinha sido desbocada, que tinha ofendido o chefe da comissão, pessoa muito respeitável… Lembraram-se então as mulheres, com a tia Maria da Velha à cabeça, que a avó Constantina tinha trabalhado como cozinheira vários anos, antes de casar, numa casa de grandes proprietários que tinham três filhos, que muito gostavam dela. Foram lá. A senhora lamentou não ter sabido de nada antes, que estava muito admirada, que a Maria, fosse o que fosse, estava a ser injustiçada, que era uma pessoa boa, disso ela não tinha dúvidas. A senhora chamou então o marido, que logo garantiu ir falar com o primo, que era major no exército e que certamente ajudaria a tirar a avó Constantina da cadeia. As mulheres ficaram com muita esperança, mas também com muitas interrogações sobre que fazer se a tentativa não resultasse, porque o avô António da Velha estava longe, no Alentejo, numa campanha de podar oliveiras, no que era um mestre, até ensinava os mais novos. Passaram mais dois dias após o senhor dizer que ia falar com o major e, ansiosa, a tia Maria da Velha foi novamente a casa deles. A senhora descansou-a, dizendo que estava tudo bem encaminhado, que o senhor major havia falado com um capitão amigo, que estava na guarda e que em breve haveria novidades. E disse também que a avó Constantina estava agora a ser tratada de outra maneira, que davam-lhe carne às refeições, que lhe faziam café, de que gostava muito, e que passara a ter cobertores na cama. E mais, que havia mudado, já estava numa cela com melhores condições.

No dia seguinte a tia Maria da Velha voltou a Santarém, com o marido, tio Manel d’Abrã e a sobrinha Emília. A tia mandou o marido meter a burra à carroça, ainda o dia não tinha clareado. Logo depois abalaram, a burra em andamento leve na descida até ao Vale, depois seguiram pela recta da ponte de Asseca, a vala a transbordar, daí a nada haveria cheia, certo e sabido. A meio do caminho iam encontrar uma pequena subida e, mais perto de Santarém, a maior subida, depois do Lagar das Quatro Varas, era a das Padeiras, mas a burra era valente, estava sempre a dizer o Manel d’Abrã. Levaram roupa para o frio e um chapéu-de-chuva, que o tempo estava mau. Num saco de pano a tia Maria da Velha havia posto pão, chouriço e uma botija com café quente, embrulhada numa manta, talvez a avó Constantina precisasse. Esperavam trazê-la, pois a senhora do lavrador havia mandado recado para a irem buscar. A viagem foi rápida e sem chuva, apesar das nuvens negras. Quando chegaram ao Governo Civil já a avó Constantina estava à espera, sentada num banco corrido, de ripas, logo depois da entrada, perto dos guardas. Serena, mas com lágrimas nos olhos, a avó recebeu a cunhada e a filha num abraço, enquanto um dos guardas se pôs a dizer, com ar de amigo… pronto, já pode ir embora, mais a sua filhinha.

O avô António só soube de tudo quando regressou da campanha da poda das oliveiras, duas semanas depois da libertação da avó Constantina. A inauguração do mercado veio a dar-se em 1929, para alegria do povo. Entretanto, os tempos foram passando, até que um dia, tardando muito na chegada a casa depois de sair do trabalho, no campo, o avô António da Velha haveria de ser encontrado morto pela filha, numa ribanceira entre o Vale e sua casa, numa triste madrugada de sábado, corria o ano de 1948. Nunca se soube se foi acidente ou assassínio, em muitos ficou a dúvida para sempre. Criança, algumas vezes vi a avó Constantina chorar, nas traseiras da casa, de onde podia ver o cemitério, lá ao longe, no Vale, depois ficava serena, silenciosa, apesar de profundamente triste, perante a minha inabilidade e impotência para lhe aliviar o sofrimento. Mas muitas vezes era no seu quarto que ficava a chorar, ou numa lengalenga entrecortada de suspiros e silêncios, onde aparecia o nome António… António. Também acontecia desaparecer do nosso casal, ia até ao pinhal da Fonte Boa, sobretudo no Verão. Passava lá muito tempo, sentada, encostada a um pinheiro, a olhar em frente, a falar, a falar, na conversa sem fim com o avô António, era o que me parecia. Por vezes íamos com ela ao pinhal, mas sempre que podia ia sozinha. Cheguei a ir procurá-la e lá estava, nas suas vestes negras, como negro era o seu olhar de mágoa, sentada ao pé do pinheiro do costume ou andando daqui para ali, a apanhar caruma, cavacos, pinhas, carqueja. Nunca me falou de ter sido presa, nunca. Foi a minha mãe que me contou. Um dia, velhinha, seca de carnes, olhar encovado, triste, serena, partiu. Como um passarinho. A avó Constantina. A avó da minha vida.

 Manuel João Sá

Avó Constantina
Maria Augusta Martins. A avó Constantina, a avó da minha vida.
IMG_1598
A praça/mercado do Vale de Santarém. Inaugurado em 1929. Reconstruido em 1977.

Autor: 60emais

Português.

10 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – MARIA CONSTANTINA FOI PRESA…”

  1. Esta partilha reporta-nos ao século passado e a tempos que nos parecem remotos e impossíveis de serem de novo vivenciados, não nos podemos deixar adormecer, os tempos são outros mas a repressão directa e brutal tem um precedente: a subtil manipulação que nos oprimi e nos transforma num objecto usado, “pelas pessoas muito respeitáveis – os chefes das comissões”, para alcançarem os seus fins e garantirem os interesses que representam e defendem, quando não é suficiente não se coíbem de espancar, prender, mesmo assassinar.
    Ontem como hoje: uma cidadã – a avó Constantina – avó do Manuel e de todos nós, cidadãos comuns – ousou desautorizar “o chefe da comissão, pessoas muito respeitável…” e com uma simples frase, “eu já não dou mais dinheiro, se querem mais vão pedir aos ricos”, levantou o povo contra a comissão e em especial contra o chefe da dita. Foi presa, o poder não tolera ofensas muito menos pessoas desbocadas… As ditaduras assumem muitas roupagens, consoante as circunstâncias e os contextos, observemos com toda a atenção, questionemo-nos assim como a realidade que construimos ou permitimos e sustentamos, por acção ou omissão e tiremos as devidas ilações, vamos ter que mudar de vida, para criar as condições possíveis de mudar o rumo dos acontecimentos, em memória das avós Constantinas.

  2. Companheiro

    Um encanto, esta crónica sobre a tua avó. Mas também é uma página da História (não escrita) da nossa terra.
    Parabéns!

    Reinaldo

    1. As memórias, quando têm esta força, exigem divulgação. A minha mãe, filha da Maria Constantina, além de ter parido 9!!! filhos, também deu à luz esta e outras memórias de coisas que aconteceram naqueles tempos. Algumas já as trabalhei, outras aguardam. Cá vamos, na luta, amigo de sempre. Abraço.

  3. un documentario muito rico cheio de historia et emoçao et uma grande homagen a todas as avos pois no meu caso foi ela que tudo me deu ,education ,amor ,respeito pelos outros . obrigado !!

    1. Américo, de longe o teu comentário, que sei que também ele se liga à história do nosso Vale de Santarém, da tua família, da tua avó. No teu caso, memórias muito boas, e como é bom saber isso. Abraço, amigo.

  4. Parabéns Compadre.
    Pressentia-se a sua veia. Trazer á luz do dia as raízes, que explicam o que somos e por que somos, é sempre meritório e a maneira simples como as traz para o grupo de ” valenses ” ? pondo-os a pensar como são e como têm sido nas suas vidas, e, em especial, em certos momentos principais, em que, por acção/ou/e/omissão não têm sido “Constantinos “. Será bom irmos todos pensando em darmos todos as mãos , ” que os comissários ” já andam por aí outra vez. Alerta !
    Parabéns Compadre. Abraço. Dino- 12/9/14.

    1. Grande abraço pelo comentário, pelo sentido que tem, pela força que transmite, que o presente e o futuro nos exigem união e acção. Assim queiramos e saibamos. Obrigado, com grande abraço.

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