CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – GIL, O CAUTELEIRO DA SORTE GRANDE.

6 2 4 3 9 – O NÚMERO DA SORTE

O Sr. João cauteleiro tinha boné a condizer com a profissão. Era um boné com pala rija, talvez preta, no resto algumas parecenças com o boné dos taxistas de Lisboa, nesse tempo. Sempre o conheci assim, quer dizer, nunca o vi sem ser no seu papel de cauteleiro. Vivia com a família no Rio das Patas, na primeira casa, logo à entrada, do lado esquerdo. Ainda lá está a casa. Pouco o via pelo Vale a vender cautelas, é curioso, mas por vezes encontrava-o no Cartaxo, cautelas na mão, esticadas entre os dedos, e também uma pequena pasta de cabedal. Tinha voz grossa, um pouco pausada, mas não me lembro de o ouvir apregoar o jogo no Vale. Fumava. Fumava? Agora dei-me conta de que, em alguns quês, talvez tenha ficado com memórias menos seguras a respeito do Sr. João cauteleiro, o único que houve no Vale, até que…

Um dia, quase em segredo, disse-me a tia Maria da Velha “temos no Vale um novo cauteleiro… é um rapaz ceguinho, que mora lá para baixo, começou a semana passada”. Fiquei com a informação e também com algumas perguntas. A primeira era sobre o novo cauteleiro ser cego. A segunda era sobre se o Sr. João cauteleiro ia deixar de o ser. Havia ainda outra questão: eu não conhecia um rapaz cego no Vale, portanto até pensei que ele não fosse da terra. Em pouco tempo, todas as minhas perguntas tiveram resposta. Com poucos dias de intervalo vi o Sr. João cauteleiro na sua bicicleta, a caminho da venda, e também encontrei, pela primeira vez, o cauteleiro cego nas ruas do Vale a apregoar “há horas de sorte”… e pensei logo “é este”. Vendo-o com a bengala de riscas vermelhas e brancas, estava confirmado – é cego. Depois, vi as pessoas a falarem com ele como se já o conhecessem bem, pelo que concluí… é mesmo do Vale.

O Gil, assim se chamava, andava Vale abaixo Vale acima a vender as cautelas. A primeira vez que o vi foi na rua do Rio das Patas, perto da loja da Dona Georgette, mais conhecida por “Senhora Gorda”, alcunha que lhe puseram por ser de facto… muito forte. Porém, merecia muito mais outro nome, quando olhávamos o seu rosto. Deveriam chamar-lhe, por exemplo, “Senhora Linda”, pela beleza que irradiava: olhos, lábios, pele, sorriso… um encanto e uma perfeição indizíveis. Mas… ah, o Gil… o Gil, nos primeiros tempos da sua vida de cauteleiro percorria as ruas do Vale, desde o Rio das Patas à estação de comboios, de Cadima ao Cabeço do Mesquita, passando pela estrada principal, pela Torre, pelo Bairro Novo e por outras ruelas da terra. Parava nas tabernas, conversava um pouco, continuava no seu pregão, a que passou a juntar… “comprem ao ceguinho!…”. Com o tempo foi ganhando confiança e começou a estender a sua acção à Fonte Boa, à Póvoa da Isenta e a Vila Chã de Ourique, a Porto de Muge e a Valada, viajando nas camionetas de carreira ou mesmo à boleia.  Até que…

1 de Julho de 1955. Sexta-feira. Quase uma da tarde. O calor a apertar, eu à sombra, com um saco de pinhões trazido do pinhal da Fonte Boa, nessa manhã. Começara a partir os pinhões, um a um, com o martelo lá de casa, sobre uma pedra de calcário,  quando de súbito estalaram foguetes no Vale, ou era o que me parecia. A seguir, mais foguetes, e era no Vale, sim senhor, fui confirmar, até vi o fumo a subir, depois dos estoiros. Minha mãe, afadigada com o almoço, veio à porta da rua, meio intrigada, e eu disse-lhe: mãe, deve ter saído a sorte grande no Vale… estão a deitar foguetes… se calhar também saiu ao pai…

Ainda houve mais foguetes, uma, duas vezes. Voltei aos pinhões, enquanto aguardava, ansioso, que meu pai chegasse para o almoço, para lhe perguntar o que tinha acontecido no Vale. Não demorou muito. Encostou a bicicleta e, com um grande sorriso, quase gritou “saiu-me o 1º prémio!” e mais não sei quantas coisas, entre abraços e outras manifestações próprias do momento. Depois mostrou e voltou a mostrar a cautela com o número 6 2 4 3 9, que foi guardar em local seguro. O almoço e o resto do dia foram de grande excitação,  que continuou pelos dias seguintes, naquele princípio de férias da escola primária, finda a minha terceira classe, porque um futuro novo, um arco-íris abria-se inesperadamente à nossa frente.

Entretanto, soube-se depois, Gil, o cauteleiro, tendo ouvido o sorteio, como de costume através da telefonia da taberna mais próxima, haveria de vir para a rua gritar “O cego deu a sorte grande!… o Gil deu a sorte grande!”. De tal modo ficou feliz que mandou a bengala ao ar, caminhou e pulou sem ela, até que houve depois alguém que lha foi pôr na mão, para prosseguir o seu caminho, num dia que marcou também a sua  vida.

O nº 6 2 4 3 9 foi o número da sorte para diversas pessoas e famílias do Vale de Santarém, nesse histórico dia 1 de Julho de 1955. Gil, o cauteleiro, ficou ligado a esse dia de sorte, na nossa terra. Para sempre.

Manuel João Sá.

Autor: 60emais

Português.

4 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – GIL, O CAUTELEIRO DA SORTE GRANDE.”

  1. Companheiro

    Foi mais um agradável regresso inesperado ao passado, à infância, e aos protagonistas que dela fizeram parte.

    Reinaldo

    P.S. – O meu pai não comprou a cautela. Azar!

  2. lembro_me perfeitamente dessas grandes personagens da nossa terra et obrigado a todos aqueles qeue as fazem reviver pois venho a minha infancia !!! que tao depressa passou !obrigado !

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.