CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – VÊM AÍ OS CORREDORES!!!

MEMÓRIAS DA VOLTA A PORTUGAL EM BICICLETA.

Ia-se para a beira da estrada e esperava-se. Havia quem chegasse muito cedo, caminhando Vale abaixo Vale acima, outros escolhiam logo um poiso, mais metro menos metro, de preferência perto de uma taberna. Os corredores haviam de passar por ali, talvez uma hora depois, ou mais, quem podia adivinhar? Cumprir a média prevista era coisa que podiam fazer ou não, se houvesse uma fuga a média podia aumentar, decerto alguém ia saber pela telefonia da taberna e ecoava a notícia… há uma fuga… há uma fuga!… ou então o calor, ou até uma passagem de nível fechada, podiam dar em atraso. As mulheres apareciam também junto à estrada, ficavam por detrás dos homens, caladas e atentas, as mães cuidando das suas crias, crianças ou adolescentes buliçosos, nervosos, os automóveis ainda a passar na estrada, a guarda republicana a controlar, um crescendo de agitação e ruído próprios do dia. Depois, os carros da caravana, primeiro espaçados, depois mais juntos, à medida que os corredores se aproximavam. A polícia de trânsito nas motos, sirenes a tocar, carros das equipas a lançarem papéis e frases pelos alto-falantes, aquele barulho a encher os ares, o frenesim colectivo a tomar conta de toda a gente, até que… até que… lá vêm eles! lá vêm eles!… mas quem aparecia por vezes era um inesperado ciclista imitador dos corredores da Volta, no seu momento de graça, de riso e alegria para todos, de atenção efémera para o protagonista.

A maioria das vezes a Volta vinha dos lados de Santarém, de modo que, no Vale, a grande aglomeração de povo começava junto à Fonte das Três Bicas, continuava pela subida até à igreja e ainda mais para cima, até à casa dos cantoneiros, à esquerda, antes da bomba que era da Shell, vinha gente do campo, da Póvoa da Isenta, da Atalaia, até de Porto de Muge. As escadas da igreja eram mesmo um bom local para ver os corredores, havia sempre quem esperasse que, naquela subida, alguma coisa de importante se passasse, até talvez antes da oficina do Manel d’ Oliveira, ali onde a estrada parece que estreita naquela curva terrível, quem sabe uma queda, uma fuga, mas diz-nos a memória que raramente assim terá sido. Mas era ali que, diziam os mais antigos, José Maria Nicolau e Alfredo Trindade, lado a lado, vigiando-se, em acesa luta a dois e contra a subida, pela disputa da dianteira, se preparavam para passarem à frente do pelotão no seu Cartaxo natal, no delírio dos aplausos e vivas, na exaltação dos clubismos, eles, heróis, adversários porém amigos, símbolos maiores, para sempre, das suas equipas, Benfica e Sporting. Foi ali que, pernas e braços cobertos por ligaduras, Nicolau subiu a custo, sofrimento no rosto e na alma, banho de suor por todo o corpo, lá ia ele, tisnado, testa enrugada, levantando o rosto, boca aberta, olhos de névoa, no meio do pelotão, que uma queda, etapas antes, quase o atirava para fora da Volta. Lá ia ele, dizia minha mãe, com tanto sofrimento que até deu vontade de chorar, coitadinho. José Maria Nicolau do Benfica 1928

Entrevista a Alfredo Trindade. Clique no link:

http://youtu.be/lUVED8yACCo

Foi ali, na mesma subida, que uma vez, já Nicolau e Trindade haviam ganho o pedestal das lendas, Alves Barbosa e Ribeiro da Silva passaram quase lado a lado, bem no meio do pelotão, naquela volta em que o “português voador” do Académico do Porto iria ganhar pela segunda vez ao fantástico corredor do Sangalhos. Foi ali mesmo, naquela subida que, na Volta de 1957, na etapa para Lisboa, surgiu a meus olhos a figura impressionante do jovem Ribeiro da Silva, corpo erguido sobre a bicicleta, a sobressair no pelotão, o boné de pala levantada a despontar na cabeça, a camisola amarela mais reluzente quando o sol lhe acertou em cheio, Barbosa talvez um metro adiante, o pelotão passando com um ruído estranho, perto do quase silêncio, porém um zuuuuuu inimitável, excitante, de rodas e carretos na sua função, pernas e corpos parecendo sob comando de um sincronizador, pernas e corpos movendo-se como um só.

Haveria de chegar o dia 9 de Abril de 1958. Vítima de um acidente de motorizada contra a traseira de um camião, perto de Sabrosa, o jovem trepador ganhou outras asas, para não mais voltar. Tinha 23 anos.

Fotos 007
Ribeiro da Silva, confortando Alves Barbosa, após o final da última etapa da Volta a Portugal de 1955, em que o Sangalhense foi agredido e impedido de lutar pela vitória final na Volta que, não sendo disso responsável, foi vencida por Ribeiro da Silva, pela 1ª vez.

Sobre a morte de Ribeiro da Silva,

clique no link abaixo

http://youtu.be/RAN2jkIdm2I

 Luto na Volta de 1958, todos com Ribeiro da Silva na memória, agora Alves Barbosa sem adversário ao seu nível, ele, corredor inteligente, sereno, príncipe sobre a bicicleta, filho de corredor também muito falado no seu tempo, haveria de passar mais vezes no Vale, numa delas, era domingo, calor sufocante naquela tarde, era a segunda etapa, de Lisboa a Alpiarça, Barbosa na dianteira, a descer como uma flecha, ouviam-se palmas e gritos já na descida desde a curva do Manel d’Oliveira, o homem cozido com a bicicleta, elegante e felino na curva para a direita, a Fonte das Três Bicas mesmo ali, seguia um espanhol uns palmos atrás do camisola amarela, esfumaram-se os dois num farete lá adiante, na curva logo depois do Zé Inglês, toda a gente a querer segui-los com o olhar, ondas de calor a turvarem-me a vista, o alcatrão como que ondulando, só muitos minutos depois apareceram outros corredores, aos grupinhos, pelotão em frangalhos, calor abrasador, súplicas por água, haviam de chegar notícias de tragédia, quando se começou a saber, pela telefonia, da morte de dois ciclistas espanhóis, Joaquim Pólo, no Hospital de Santarém, e Raúl Motos, no Hospital de Alpiarça, por insolação, foi o que se ouviu dias depois. Entretanto, Alves Barbosa haveria de chegar isolado nesse dia a Alpiarça depois de, como um galgo, deixar o espanhol para trás na subida das Padeiras, e por fim ganharia a sua terceira Volta, vestindo de amarelo da primeira à última etapa, como acontecera na sua primeira vitória em 1951.

Alves Barbosa-2

Alves Barbosa e Ribeiro da Silva, como antes José Maria Nicolau e Alfredo Trindade, grandes duelos entre gigantes, adversários, de suor, sangue, lágrimas e louros, porém amigos. Como nunca mais.

Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

3 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – VÊM AÍ OS CORREDORES!!!”

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