CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – A FÁBRICA DAS TRIPAS

MEMÓRIA DE UMA LUTA CONTRA A POLUIÇÃO. 

Começou a constar que, lá para o Moinho de Cima, bem perto da nascente do ribeiro onde outrora o moleiro fazia funcionar um dos muitos moinhos de água do Vale, iria ser instalada uma fábrica nova, uma fábrica de tripas, ao que se dizia. Quando se tentava saber quem estava por detrás da novidade, as pessoas diziam, como de costume… gente de fora. Fábrica de tripas, o que seria isso, também poucos sabiam em concreto, porém, havendo ainda a memória de tempos de grande penúria, em que alguns se viam na contingência de ter de virar tripas, até de galinha, foi lavrando como lume em palha o alarme entre a população: vão dar cabo da água do rio. O rio, melhor dizendo, o ribeiro, fiozinho de água que no inverno engravida imenso, continua a atravessar o Vale, nascendo muito para lá do Moinho de Cima, passando depois pelas hortas, então dezenas e dezenas de courelas férteis, verdejantes, cheirosas, verdadeiras riquezas para o alimento da terra, desde a parte mais a norte do Rio das Patas, até às hortas das Guiomárias, rio com nomes diversos consoante o local: rio de Cima, das Patas, da Quinta, dos Loureiros, da Praça, da Elóia, da Cabine, das Guiomárias, até à sua foz, na Vala Real, ou Rio Maior. Rio, porém ribeiro somente, recebendo ainda a benção das águas da nascente da Quinta das Rebelas, canalizada para a Fonte das Três Bicas e, daqui, para a Fonte de Uma Bica, verdadeiras memórias vivas da terra, ainda hoje.

A Fábrica das Tripas. Enquanto o povo ia falando, falando, que vamos fazer, que vamos fazer… muito mais rapidamente do que a reacção dos vale-santarenos ia avançando a construção e, em pouco, a fábrica estava pronta a funcionar, viam-se alguns tanques, o resto estava escondido das vistas do povo. Havia quem dissesse que ia dar trabalho a alguns, homens e mulheres, diziam outros que… pois, tá bem, mas vai estragar o rio… e onde é que as mulheres vão lavar a roupa… e com que água vamos regar?… Até que se entrou num período em que parecia nada estar a acontecer, um tempo em que era melhor haver o quer que fosse que preenchesse aquele estranho vazio. Não se sabia se a fábrica já funcionava, nem se via fosse o que fosse na água do ribeiro. De súbito, dia após dia, um sobressalto, o alarme ecoou, começaram a aparecer os efeitos da nova fábrica. A água onde as mulheres lavavam aparecia turva e cheirava mal. As mulheres punham a roupa a corar ao sol mas ficava amarelecida, o que antes não acontecia. Enquanto lavavam, as mulheres viam passar restos de tripas e outros detritos, onde antes viam girinos, rãs, pardelhas, enguias, até o velho Manel d’Abrã, o maior na pesca à enguia no ribeiro, ficava a seco.  Desde o local de implantação da fábrica até à foz, na Vala Real, o velho ribeiro estava um esgoto, onde mosquitos e melgas também ajudavam a afugentar as lavadeiras.

Então, onde antes se juntavam para lavar, as mulheres começaram a encontrar-se para saber que fazer. Onde quer que se vissem, falavam do caso. Era assim nas lojas, na praça, nas hortas, nos trabalhos no campo, de quintal para quintal e mesmo na igreja. Para poderem lavar a roupa, algumas passaram a procurar poços, nas hortas. Outras iam para as regueiras que conduziam ao ribeiro, fazendo pequenas represas, enquanto a água era em quantidade suficiente. Porém, as hipóteses não serviam, eram insuficientes. Voltar ao rio era a solução. Mas assim, naquele estado, como? Se algumas até tinham roupa para lavar de umas senhoras de casas de gente rica, como lavar com aquela água suja e malcheirosa? Foi então ganhando força a ideia de que era preciso fazer mais qualquer coisa, como ir falar com as autoridades, com o regedor da terra, talvez com o presidente da câmara, talvez com o governador civil…

De um dia para o outro começou a circular na aldeia um abaixo-assinado. Falava-se dele, do abaixo-assinado, mas não se sabia como tinha aparecido. Ia passando entre as mulheres, recebendo as assinaturas das que sabiam escrever o nome. Ia passando de mão em mão e os homens também o assinavam. Entretanto, corriam rumores de que se calhar algumas pessoas não iriam gostar daquilo, do abaixo-assinado, mas ele não parou de recolher assinaturas. Se foi entregue ou não às autoridades é coisa que a nossa memória não guarda, mas a certa altura, lembramo-nos, começou a aparecer a GNR a cavalo. Umas vezes dois guardas, outras vezes mais, apareciam logo de manhã pela aldeia, iam até aos lavadouros, especialmente ao do rio da Quinta, se as mulheres lá estavam faziam-lhes perguntas, queriam saber quem tinha tido a ideia do abaixo-assinado, provocavam-nas com brejeirices, inquietavam os cavalos, puxavam-lhes os freios, aplicavam-lhes as esporas, os cavalos irritados, espumando, um clima de excitação propositado para amedrontar as lavadeiras. As mulheres não respondiam. Tinham medo, mas não respondiam. Enquanto podiam, mantinham-se no rio, procurando lavar nos dias em que havia paragem nas descargas da fábrica, ou mesmo quando a água vinha suja, mas depois começaram a não aparecer. Terem de lavar naquela água fazia-lhes mal até às entranhas. Era uma maldição. Entretanto, crescia no povo a animosidade contra quem dirigia a fábrica e contra os seus familiares e até os que lá trabalhavam eram mal vistos. Este estado de coisas foi-se mantendo, entretanto começou a dizer-se à boca pequena que a PIDE estava atenta ao que se passava. Constou ainda que alguns, pela noite, passavam perto das instalações da fábrica e provocavam quem lá estava, enquanto os cães ladravam, ladravam. Passaram dois, três anos, talvez mais, sem que a água do ribeiro voltasse ao que era, até que a certa altura começou a constar que a fábrica não estava já a trabalhar em pleno, até começou a dizer-se que se calhar ia fechar. Foi o que aconteceu. Pela fraca produção, ou pela falta de colocação do produto, ou pela grande animosidade que gerou entre o povo do Vale, ou pela pressão de pessoas influentes junto dos poderes políticos de Santarém de então, ou por todas estas razões juntas, a fábrica fechou. Felizmente. A primeira luta contra a poluição no Vale de Santarém havia sido ganha pelo povo, com as mulheres à cabeça. O tempo foi correndo. Dias, meses, anos, sepultaram estes acontecimentos. Quem se lembrará deles, hoje?

Manuel João Sá.

ValeLavadeirasLoureiros
Vale de Santarém. As lavadeiras, no “rio dos Loureiros”.
Vale-Lavadeiras-RioMariElvira
Vale de Santarém. As lavadeiras no “rio da Mari Elvira”.

Autor: 60emais

Português.

Um pensamento em “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – A FÁBRICA DAS TRIPAS”

  1. Companheiro

    Foi bom recordar este episódio que já estava esquecido nos baús empoeirados da minha memória.
    Agora, depois de o escreveres, até me recordo do mau cheiro da água que corria no rio que se vê na primeira fotografia, e que passava bem em frente à minha casa.
    Mas também verifico que as coisas só mudam quando as pessoas tomam consciência de que a sua união é mais forte do que qualquer poder.
    O bom exemplo do Movimento Ecologista para a despoluição da Vala Real irá, certamente, provar isso.
    Aproveito para agradecer o esforço que tens dedicado a essa causa.

    Um abraço

    Reinaldo

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