CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – O MEU PRIMEIRO PRESENTE DE NATAL

EM HOMENAGEM À AVÓ ALEXANDRINA E AO AVÔ ALFREDO
 
Eu ia ficar naquela noite em casa dos meus avós, na aldeia. Frio. Telha vã. A minha avó, depois de me lavar os pés, levou-me ao colo, para me deitar. A cama ficava junto à parede, depois da talha do azeite. Tinha um cobertor grosso, com umas riscas vermelhas e azuis. Chamavam-lhe cobertor de papa. A minha avó ainda era forte e podia comigo ao colo. Talvez eu tivesse 5 anos. A razão por que lá fiquei, nessa noite, não sei. Mas lembro-me de o meu avô dizer… esta noite deves pôr uma bota na chaminé, porque vem o menino Jesus e deixa lá um presente… mas tens de lá deixar a bota… depois amanhã de manhã vais ver… está lá um presente…
Eu tinha estado na chaminé, que era alta, toda caiada de branco, e na parede havia um feitio na parede, a que chamavam boneca. Tinha estado na chaminé porque fazia muito frio, e minha avó já tinha posto cavacos no lume e massa na frigideira, para fazer uns fritos a que chamavam velhozes. Punha a massa na frigideira, aquilo crescia, por vezes salpicava, até tinha de me afastar para não me queimar as mãos. Quando o meu avô disse aquilo eu estava quase a dormir, mas fiquei a pensar, já na cama, depois de a minha avó me deitar. Então, por entre as telhas, eu via luz. O luar entrava e tornou-se mais nítido após a minha avó ter soprado na chaminé do candeeiro a petróleo, para apagar a chama que dava luz. Não comecei logo a dormir. Até despertei, a pensar no que o meu avô dissera. Fingi que dormia e, um pouquinho depois, levantei-me e pus-me a espreitar por detrás da cortina, que o quarto não tinha porta, mas cortina de chita, que era como chamavam àquele tecido. Então eu vi o meu avô ir buscar uma das minhas botas de couro, os atacadores eram também de couro. O meu avô fez aquilo como se fosse uma cerimónia. O lume na chaminé já era pouco. A bota recortava-se contra o branco da parede. Vi tudo e pensei… agora a bota já lá está, se calhar o menino Jesus ainda vai trazer o presente. A minha avó deu por mim atrás da cortina e disse-me… se não te vais deitar já, o menino Jesus não vem. Fui-me deitar. Adormeci entre a interrogação e o tremor, por causa do frio.
De manhã, minha avó disse-me… levanta-te, anda, vem comer velhozes, anda… Levantei-me e fui logo ver a bota. Aparentemente, nada tinha acontecido. A bota estava na mesma posição, era o que me parecia. Suspeitei que não estaria nada lá dentro, talvez o menino Jesus não tivesse vindo mesmo. A minha avó nada disse e, o meu avô, era como se não tivesse tido aquela conversa comigo. Avancei para a bota, peguei-lhe devagarinho, olhei lá para dentro. Nada. Depois, meti a mão. Foi então que senti algo e tive um pequeno estremecimento, quando meus dedos encontraram o que depois vi ser uma moeda. Trouxe-a mais para perto da porta, para a ver melhor, à luz da manhã, que entrava pelo postigo. Era uma moeda de vinte e cinco tostões. Vinte e cinco tostões!
Naquele dia pensei mesmo que, afinal, havia menino Jesus, e que ele tinha vindo de noite, para me entregar o presente. Foi o meu primeiro presente de Natal. E aconteceu assim.
Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

8 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – O MEU PRIMEIRO PRESENTE DE NATAL”

  1. Abençoados sejam os avós que mesmo em tempos difíceis, souberam criar a magia do Natal, e tão gratas recordações. A sua escrita é muito, clara, simples e real ,gosto de ler os seus escritos. Obrigado por me proporcionar a sua leitura. Até sempre..

    1. Obrigado Maria Eugénia, por me acompanhar. E pelo que diz, sobre uma realidade que foi (e ainda é, pelas memórias) actual, que também conheceu/conhece. Até sempre.

  2. obrigado !!pois graças au teu recit voltei a reviver momentos de amor de minha enfancia dados pela minha AVO et que jamais esquecerei!!!

  3. Eu nunca recebi 25 tostões, que me lembre, mas (nesse Natal) o menino Jesus trouxe-me um carro de bois com um barril em cima, em madeira, que ele,só pode ter sido ele, comprou na feira dos Santos no Cartaxo e que deixou dentro da minha bota (cardada para durar mais…).
    Amigo, boa recordação do tempo em que ainda havia natal.

    1. Já era uma sugestão de que o vinho (tinto, só podia ser…) era uma boa companhia, no Natal, e não só. E não é que o Menino tinha razão?…

  4. Graças au teu recit voltei muitos anos atraz mas para mim foi ontem, realidades inesqueciveis que nos enriqueceram de sonhos para os transmitir às geraçoes futuras ! Uma vez mais obrigado !!

    1. Amigo Américo, é bom saber que posso contribuir para esse reavivar das tuas memórias, mais ainda por que estás longe da nossa terra, e assim ficas mais perto. Abraço

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