CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM. O TEMPO DA GEADA.

O sol a baixar, para num farete ficar pertinho da serra, ao longe. Dizem que é de Montejunto, a serra, mas só sei que ela está ali, parece perto mas há-de serGeada longe, está ali daquele lado para onde vai o sol. Está ali desde que tive altura para a ver, sem saber o que era, e um dia a minha mãe, sempre a minha mãe, a dizer-me, arremessando os olhos furiosos contra o frio… em sendo sol-posto a serra fica negra, credo, que negrão tão grande…  e não vem uma pinguinha de água. Pois não. Dia de sol, céu imaculado, azul azul, finíssimo, penetrante, um frio tocado a vento, cortante, as orelhas a gretarem, os lábios a pedirem língua, ilusão passageira contra o cieiro a formar crostas, as mãos tal e qual, os nós dos dedos a sangrar, porém as sombras dos nossos corpos de criança no branco de cal da empena da casa, ainda restos de poalha amarelada, as sombras depois vestindo-se de violeta, o céu silencioso, nós como pássaros esvoaçantes assistindo ao azul a fazer-se cíclame, momento sublime, aquele, tudo o mais é nada e mais nada apetece dizer ou fazer, só olhar. Silêncio, apesar do vento. Quase eternidade. Na linha descontínua, lá longe, confundem-se agora a serra e os arvoredos próximos, umas hastes rebeldes libertas da massa do negrume que se pôs, petrificadas, como gatafunhos de criança desenhados no horizonte, no vale as lâmpadas dos postes a mostrarem já a luz anémica do costume. Vá, venham para dentro…  está muito frio… não ouviram?… a nossa mãe no chamamento de sempre, continuamos até o luar ter inundado a noite, o ar anunciando geada, e agora sim, estamos na cozinha, arde a lenha no fogão grande, na chaminé alta vai haver lugar para todos nós, depois a ceia, depois a lavagem, depois a cama, corpos encostados, aos pares, contra o espaço, contra o frio, lá fora há o frio e as corujas que dormem nas chaminés altas da quinta da Fonte Boa, riscam o céu no seu voo silencioso, asas bem abertas, penas macias, seus olhos e ouvidos buscam, buscam, nem a geada as tolhe. E assim chega a madrugada, pequenos ruídos de mãe a voltar à tarefa interminável, ainda silenciosa, porém apressada, lume de novo a crepitar, mais logo cheiro de leite a transbordar, torradas mostrando cortes abertos, aguardando uma passagem de manteiga, talvez de cada lado, para lá da janela uma luminosidade a não esclarecer se ainda noite ou quase dia, um frio que nos cerca e espalha arrepios em todo o corpo, parecemos mais magros, estreitos, quem sabe se o frio não nos estica até ao tecto, enquanto a cozinha não aquece. Vamos à janela, tudo branco é o que vemos, árvores e arbustos irreconhecíveis, disformes, por momentos aquele espaço não é o nosso quintal, uma pequena névoa como gaze a semear uma aparência de irreal naquilo, sai-me da boca uma golfada de vapor quando meto a cabeça para lá do postigo, o chão estaladiço agride-me e diz-me tem cuidado, caiu tanta geada diz a nossa mãe, embora saiba que não caiu mas se formou, aprendeu com a dona Leopoldina Augusta, professora, quando ensinou as meninas a distinguir o orvalho da geada, a humidade é a mesma, as condições do tempo é que são diferentes. A noite de luar e de voos de coruja a desembocar, suave, num amanhecer demorado, sereno, a luz do dia nascente a espalhar-se em redor, vê-se que a grande camada de geada não escolheu poiso, está em todo o lado, parece neve, mãe… nunca vi, mas há aquela lição no livro de leitura… um dia vou ver, a neve. Depois o café com leite, a torrada, um tempo de pensar o dia na escola por vir, o caminho até lá, o campo grávido de brancura, as ervas deitadas sob o peso da geada, o piso escorregadio, meus olhos agredidos pelos raios de sol beijando o branco imenso, as botas de sola de pneu a aguentarem o frio, daqui a nada estarei na escola, o nosso bafo vai embaciar os vidros das janelas, as mulheres de lenço na cabeça, xaile de lã como manto, vão parecer fantasmas a caminho da praça, a caminho das hortas, a caminho do campo, contra a geada, a caminho… da vida.

Manuel João Sá.

Autor: 60emais

Português.

4 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM. O TEMPO DA GEADA.”

  1. Um texto que nos tarnsporta para tempos idos sobre a realidade vivênciada… onde estão patentes os clássicos da literatura portuguesa, tão mal tratada, mesmo desprezada, pela hipócrisia burguesa.

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