IR À PRAIA, HÁ 80 ANOS…

Minha mãe contava que foi duas vezes à praia, quando era criança. Uma infecção chamada escrofulose teve receita do médico da aldeia: “a cachopa precisa de praia, oh Maria… praia da Nazaré, ouviste?”, disse ele à minha avó. De modo que, com o dinheiro da venda do vinho, mais uns quantos mil réis de economias dos anos anteriores, certo dia do mês de Julho, pela fresquinha, lá foi a avó Constantina com a filha a caminho da Nazaré, onde pessoa amiga tratara de arranjar quartinho para duas semanas. Um banho por dia, de manhã, perto das onze, de tarde só passear, fora da hora do calor, pela beira-mar… o banheiro é o Zé da Loira, precisou o doutor.

A viagem foi demorada, numa camioneta movida a gasogénio, que inundava o ar de fumo, de um cheiro insuportável. A certa altura, com o calor que se pôs, ou por cansaços do motor, a camioneta começou a avariar, no alto da serra, a seguir a Rio Maior. Eram para estar na Nazaré a meio da tarde, mas era já noite quando lá chegaram. Minha avó ia muito preocupada, porque levava várias cestas com roupas e produtos para as refeições. Chegar tarde, depois daquele calor todo, era uma grande complicação, ainda mais porque a filha estava muito fraquinha. Além disso, havia outro problema: dizia-se que ao anoitecer era costume aparecerem salteadores, que roubavam tudo. Minha avó passou o tempo a olhar para todo o lado, com medo. Minha mãe ouvia-a invocar um santo qualquer. Fosse por isso ou não, o certo é que conseguiram chegar à Nazaré e, com os banhos tomados, tal e qual como o senhor doutor escrevera na receita, minha mãe ficou muito melhor. Para a cura ser completa, foi repetida a dose no ano seguinte. A viagem foi já noutro transporte e a escrofulose… foi um ar que lhe deu.

Nazaré

 

Foi-se a escrofulose e também a praia, que a minha mãe nunca mais teve um período assim, a não ser muito mais tarde quando, com mais de setenta anos, um dos nove filhos lhe fez o convite para passar uns dias no Algarve, onde esteve com meu pai.

Naquele tempo, para as pessoas de menos posses, a praia era coisa só para doentes. Mesmo muitos anos depois, era eu criança, continuava a ser um pouco assim. Ir para a praia era coisa vista como um luxo, porque o dinheiro já era pouco para as necessidades do dia-a-dia, quanto mais para praias. Atraso evidente nas mentalidades mas, acima de tudo, porque era muito difícil a vida para a maioria da população do país, com poucos recursos e uma educação e formação escolar bem longe do desejável. Mesmo eu só fui para a praia aos nove anos, beneficiando dos programas da Colónia Balnear Infantil do jornal O Século. E, depois disso, a praia só voltou à minha vida aos dezanove anos, quando fui para Lisboa para trabalhar e estudar. Um dia hei-de contar como foi.

Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

5 opiniões sobre “IR À PRAIA, HÁ 80 ANOS…”

  1. Encantador. Era mesmo por indicação médica… para apanhar iodo, mesmo no nosso tempo a relação que tínhamos com o nosso corpo não permitia a liberdade dele ! Habitavamo-lo mas sem o ver! Sem o sentir! como se fosse estranho termos corpo…
    às vezes fico extasiada com a evolução a que temos assistido…outras vezes revoltada porque a mudança é tardia !
    Vivemos tempos tão estranhos… Assistimos de bancada a tantas transformações !

  2. Recordar é viver, a Nazaré está na memória de milhões de nós que tivemos a sorte de admirar o seu mar, muitas vezes furioso, desafiador e mortal, outras vezes calmo e convidativo para um mergulho, mas sempre incutindo muito respeito pela sua força e beleza. As suas condições climatéricas únicas fornecem ainda hoje ‘ares’ da Nazaré que curam o corpo e o espírito.Também tive a sorte de algumas vezes desfrutar do seu encanto, de comer as sardinhas e a caldeirada incomparáveis. A Nazaré continua a ser uma das extraordinária maravilhas de Portugal com os seus mitos e beleza natural. É importante manter contacto com este lugar maravilhoso.

  3. que lindo !! está tão bem escrito este texto . Que talento !! obrigada !
    eu também andei nessa colónia e também tinha sido receita do médico para crescermos melhor .

  4. Agradeço aos meus Amigos, pela memória que permite as recordações, tão importantes na vida, pela partilha dos seus sentimentos, o que nos junta mais, apesar das distâncias no tempo e/ou no lugar, mas estamos juntos. Abraço. Manuel Sá.

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