ESTE E OUTROS NATAIS

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Feliz Natal!
Natais… São mais que muitos, os meus, assim me disse um senhor para cima dos oitenta, fazendo-se meu interlocutor de passagem, ao olhar para um boneco vestido de pai natal na montra do chinês, o boneco em plástico, com o saco às costas e a indumentária do costume, só que animado, subia e descia, subia e descia, mas tudo muito lentamente, foi andando, o senhor, a arengar mais sobre os seus Natais, ou talvez contra o tempo, que iam caindo uns pinguitos, eu ali fiquei, por segundos, a constatação a brotar, os pensamentos são como as cerejas, como se diz das conversas, e daí eu… pois é, também cá cantam bastantes. De modo que, num ápice, sem controlo da vertigem, andou-me o esgravatador das memórias à procura nos miolos e de lá nada veio de claro, de nítido, sobre os meus primeiros Natais e, logo de seguida, nova constatação, poucos haviam sido importantes, ou suficientemente impressivos, para deixarem uma marca que perdurasse, verdade verdadinha no momento só uns poucos por ali andavam, sobrenadando no mar das recordações, quase a gritarem, os coitados, estamos qui, não vês, tás cego ou quê?!… A bem dizer não os via nem sequer conseguia sair dali, o boneco a subir e a descer, tão devagarinho que mais parecia um velhote a erguer-se, até ficava bem porque combinava com a criatura, o pai natal, de barbas brancas e um certo arrastar-se, por causa das botas, da farpela, do saco, da neve, que mesmo nos trópicos é suposto acompanhar, sem derreter, o pobre velho do saco, que por ser simpático, dizem, não faz medo às crianças, mas eu já vi o contrário, onde é que isto nos levava agora, mas adiante… Então, estava eu naquela indagação interior sobre os meus Natais, até que cheguei ao pinheirito que o avô Alfredo me trouxe do mato, esse sim, foi o meu primeiro Natal, não me lembro de outro qualquer antes, depois houve aqueles em que a minha mãe entrava na função dos velhozes e coscorões, era uma noitada de trabalho até de madrugada, pelo meio umas arrelias, porque a massa nem sempre crescia, ou a lenha estava húmida, ou faltava qualquer coisa à última hora, mas derreada e cheia de sono entrava pelo Natal com a missão cumprida, tudo cheirava e sabia bem, assim foi até que pôde, mesmo que a ranchada de filhos já estivesse fora do ninho, foi continuando a função para os netos. Que outros Natais?… Muitos. Como os da guerra em África, só sabe quem lá esteve, e mais não importa dizer, que a complicação aqui na caixa do pensamento pode aumentar, e depois os Natais dos filhos, que foi quando, como hei-de dizer, os meus passaram a ser muito mais deles que nossos, natural, acrescento, as razões estão à tona, ei-las, o Natal é a festa das crianças e, lembrando a míngua dos nossos, tudo fizemos para que os Natais deles fossem… o exagero que sabemos, do chamado espírito do Natal quase nadinha. E assim, nesta coisa circular que a vida sempre me parece, agora andam os meus filhos a dar voltas à cabeça, porque a vida está o que se sabe e vai a pior, tal o beco em que nos meteram e nós deixámos, a miséria chegou à fome para muitos, ainda o Natal estava longe, agora ei-lo à porta, a dor vai ser ainda maior afinal para quase todos, é preciso voltar às origens, será? Então, este é o meu primeiro Natal da indignação profunda, que muitos iguais estão por vir. Além disso, razão mais profunda ainda, também pela primeira vez vai faltar-me a companhia de minha mãe, que partiu. É assim. Coisas da vida…

(Por esta via me dirijo a todos os que por aqui passam, desejando-lhes… Feliz Natal)

Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

3 opiniões sobre “ESTE E OUTROS NATAIS”

  1. Meu caro amigo, são muitos os Natais que já passámos, uns com alegria, outros marcados pela do luto da ausencia de quem nos é querido.
    Como bem recordas o tempo teu avô Alfredo e avó Alexandrina, em que por norma era era na chaminé de uma dependencia tosca, a que chamava-mos cozinha a lenha que metia-mos
    uma bota,quqse sem sola , gasta de tanto uso, eo velho deixava como prenda sem pre a mesma coisa, um par de peúgas.
    Boa memória a tua, é sempre bom recordar.
    Um abraço.—- MJ Azenha

  2. Querido Manuel , eu nao sou de “sessentas… ” mas não posso não deixar aqui um pensamento que tenho e que me dá certeza de que tudo irá ser “controlado” da melhor maneira: Deus é Pai e ama-nos imensamente. Apesar de todos os disparates que continuamos a fazer… Este pensamento não é uma ideia, é uma realidade. Eu penso que o mal que se está a aproximar e a aumentar é também um reflexo das más acções de todos. Porque tal como o Bem gera Bem; o Mal gera Mal. Imagine, por exemplo, a consequencia do Mal praticado todos os dias na Clinica dos Arcos em Lisboa: Já foram mortos milhares de bebes dentro das proprias maes !!!! este Mal gera de certo males horriveis na nossa sociedade. E se se continua por este caminho, pagaremos muito caro por este mal ,,,
    eu deixo-lhe o link se estiver interessado em ajudar a combater este mal : http://www.maoserguidas.org/. o pior mal que respiramos não é politico é HUMANO. um abraço desta “cinquentena”

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