CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – HOMENAGEM À PROFESSORA TOMÁSIA RODRIGUES – TEXTO DA SUA ALUNA REGINA PINTO DA ROCHA

O Encontro-Convívio de Antigos Alunos da Escola Primária Aristides Graça, realizado em 7 de Outubro, teve na homenagem aos professores Tomásia Rodrigues, Aurélio Faria e Fernando Costa um dos seus mais inesquecíveis momentos. Através da palavra e da voz de três antigos alunos, foi possível trazer aos 120 participantes a recordação dessas três grandes figuras da escola, cuja acção pedagógica e ligação afectiva às gentes do Vale perdurará para sempre.

Com o texto que se apresenta a seguir, escrito pela antiga aluna MARIA REGINA PINTO DA ROCHA, e por ela lido, com muita emoção, findo o almoço, damos início à publicação dos elogios de homenagem, no caso concreto à Professora DONA TOMÁSIA RODRIGUES.

Caros conterrâneos, colegas e amigos,

Como é natural estou comovida, mas comovida de uma forma muito especial; se a minha mãe fosse viva faria hoje 92 anos e, se recordar é viver, hoje estou a reviver um passado de há 66 anos, um passado que moldou a minha vida para sempre.

 O nosso primeiro encontro foi fundamental. Era verão e fora com os meus pais, à noite, ao arraial da festa anual da nossa terra. De repente cruzámo-nos com um casal e a senhora dirigiu-se a nós e disse: «Senhor Guedes, olhe o que me saiu numa rifa… As embalagens são lindas… Café Joaninha, Cevada Joaninha.» O meu pai lançara-se em mais um negócio de moagem, torrefação e revenda de cafés. Rui Nabeiro, hoje dono dos Cafés Delta, passara a fornecer-lhe café em grão que, vindo de Cabo Verde e de Angola, através de Espanha, ia parar a Campo Maior num contrabando arriscado que não poupava vidas na fronteira. Estávamos no rescaldo da 2ª Guerra Mundial. Os grãos de café eram torrados, moídos e enlatados, transformados em «Café Joaninha», «Cevada Joaninha», e circularam largamente pela região. «Ah, é esta a vossa menina!» Olhámo-nos nos olhos e vi uns lindos olhos azuis que nunca esquecerei, as pestanas pretas, o sorriso doce, os caracóis negros a enquadrarem o rosto. «Então, qualquer dia vais para a Escola.» Eu olhava-a, enquanto a minha mãe me dizia que a senhora dona Tomásia era a senhora professora; e acrescentou de repente: «Ela tem cinco anos, mas faz seis, agora em Julho, se pudesse entrar já ganhava um ano, visto que as aulas só fecham no final do mês». «Pode, pode. Faz-se uma exposição, os senhores pagam um pequeno imposto e assim termina a 4ª classe com 10 anos, podendo ingressar no liceu ainda com 10 anos, em Outubro. Isto se fizer a admissão, claro. Mas consegue-se».

 E chegou o grande dia 7 de Outubro. Às quatro da manhã acordei. Tiveram que me explicar que ainda era muito cedo, que era noite, que só mais tarde me iria levantar para estar na Escola às nove horas. Eu só pensava naquela coisa nova, na bata branca, no laçarote branco, na pasta e, lá dentro, tanta coisa nova também: uma pedra com esquadria de madeira (a lousa), uma caixa com penas e um lápis, uma caneta vermelha com aparo dourado, um caderno, uma caixa de «rouge» da minha mãe com uma esponja molhada dentro e, suspensa de uma fita, presa a um buraco feito na esquadria de madeira da pedra, uma almofadinha em forma de coração, de pano cor-de-rosa, em que, numa das faces, a minha mãe bordara a ponto de grilhão a palavra «Gina”. Chegou a hora de vestir. Pus as meias arrendadas, as botas de pelica castanha. A minha mãe abotoou-mas; encostei o pé ao seu joelho, puxou os atacadores, fez um nó dobrado, não fosse eu tropeçar e cair e, depois de muitas recomendações para ir sempre pela beira da estrada, para ter cuidado com os carros… aí fui eu com as outras meninas. Ia começar nesse dia uma nova etapa da minha vida. Entrei na Escola Aristides Graça. O jardim, o lago, as flores, o Casão, a álea das palmeiras, o riacho, a que chamávamos rio, o terraço com uma vista maravilhosa que me encantou. Nunca mais esqueci a explicação que nos foi dada acerca de uma fotografia de um rapaz que estava numa moldura enquadrada pelas molduras dos retratos dos pais. Obrigada, Aristides Graça; obrigada em nome das mulheres da minha terra que tanto lhe devemos. O rapaz, filho único, de feições suaves e óculos, tuberculizara aos 25 anos e, sentindo-se morrer, pedira aos pais que fizessem um legado da casa e da quinta para uma escola de meninas; a casa e a exploração dos terrenos ficariam para a professora; os meninos não estavam contemplados mas acabaram por ficar no salão do rés-do-chão, brincavam na rua, é verdade, mas a sala era espaçosa, com duas grandes janelas. Nós, as meninas do Vale, desde 1915, graças ao gesto de Aristides Graça, ficámos talvez com a escola mais confortável, espaçosa e luxuosa do país. Obrigada, querido Aristides. Não sei se as mulheres da minha terra têm consciência disto, mas merecia ser homenageado por nós de outra maneira, merecia mais do que uma data e um nome numa lápide.

Quanto à senhora dona Tomásia tanto havia a dizer. Tomásia Alexandra Pinto Ribeiro Guimarães Rodrigues, tendo por detrás a sua mãe, Natalina Henriques Rosa Pinto… Obrigada pela instrução e educação que ambas transmitiram, pelos valores de partilha e caridade. Havia a partilha do lanche: umas meninas tinham lanche, outras não?… Pois dividia-se por todas, claro, e todas comiam o mesmo. Quantos almoços deu na sua cozinha às meninas que tinham mais carências? Quantas vezes me chamou e disse: « Vai lá abaixo. Vê se o senhor Rodrigues não está por perto, atravessa a rua com cuidado e dá estes vinte e cinco tostões ao senhor Franco, coitado. Está sentado na fonte, bebe muito, come pouco, deve ter fome. Diz-lhe que lhe peço que não seja para vinho, é para ele comer alguma coisa…» Em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade. Achava que eu era frágil, fraquinha, o melhor era levarem-me lá o almoço, depois descansava meia-hora no sofá da sala, junto ao piano, a seguir acordava-me, se eu adormecesse, e eu voltava à sala de aula; depois passou a ir lá ter o lanche para ver o que eu comia, sim, porque eu podia tuberculizar, era preciso tomar vitaminas, óleo de fígado de bacalhau… Ah, a minha amiga Suzete chegou a trazer a pasta dela e a minha; a amizade dos bancos da escola é eterna. Todos estes mimos não impediam porém que usasse a sua autoridade quando o entendia. Um dia a minha mãe resolveu mandar fazer-me uma bata diferente: abotoada atrás, com um laçarote, nervuras no peito e enfeitada com bordado inglês no peito e nas mangas. Entrei. Olhou-me. Mudou a régua de uma mão para a outra, régua que a mãe lhe aconselhava a manusear mas que, na sua mão, poucas vezes deixava de ser um mero ornamento. Mirou-me outra vez e disse-me: « Olha lá, minha filha, a tua bata?». «É esta». «Bata!?…» Não, isso é um bibe. Muito bonito, mas não para aqui. Aqui somos todas iguais. Toda a gente usa uma bata como esta que eu tenho vestida. Hoje levas isso para casa e amanhã quero a tua bata que é o uniforme da escola».

Consigo aprendi igualdade, carinho, ternura e amor, mesclados de respeito e educação. Todas as meninas, mesmo com pais analfabetos, e eram muitas, as meninas da minha escola falavam, escreviam, discerniam com perfeição.

 O meu pai quase me obrigou a tirar o curso de Direito; já no final do 2º ano tive que ganhar coragem para lhe dizer que só me via a dar aulas. Entre outros professores que depois encontrei, foi a sua postura que me marcou para sempre. Obrigada, querida SENHORA, com letras grandes, tal como era a senhora sua mãe. Obrigada por tudo o que de si nos deu e deixou. Obrigada, porque toda se deu às meninas da minha terra, a começar por mim.

                                                                               Maria Regina Pinto da Rocha

Manuel João Sá, membro da Comissão de Organização do Convívio Anual.

Profª Tomásia Rodrigues, com grupo de alunas. À sua direita a aluna Maria Regina.

Autor: 60emais

Português.

3 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – HOMENAGEM À PROFESSORA TOMÁSIA RODRIGUES – TEXTO DA SUA ALUNA REGINA PINTO DA ROCHA”

  1. para o ano estarei presente et terei muito prazer et alegria de ver de visagens que à mais de meio seculo nao vejo !! Regina eu sou o Americo !lembras-te ? sim? quando eu li da torrefaçao do cafè na loja na loja dos teus pais, eu senti nesse momento o aroma do cafè et os aromas da cozinha da tua mae!! et jà là vao mais de ??? nao os conto pois foi ontem .et como se diz aqui (que de bons souvenirs) ; fizeste uma grande homagen aos nossos (as) professeurs et agradeço-te !saudades et muita saude para ti et os teus!! ……………………………. americo marques

  2. Mi nombre es Haydée Rodriguez, se que les resultará extraño la z en mi apellido, pero cuando mi abuelo paterno (hermano menor de António) llegó a Argentina le escribieron el apellido con z y así continuamos escribiendoló aquí..
    Vivo e Buenos Aires, Argentina y soy sobrina-nieta de António Rodrigues, esposo de la profesora Tomásia Rodrigues, desde aquí les agradezco este homenaje que me llena de orgullo. Muchas gracias a todos los que la recuerdan con cariño.-

    1. Viva Haydée, é com muito gosto que recebo a sua vinda ao meu blog, e é com grande e agradável surpresa que sabemos ser sobrinha neta de António Rodrigues, esposo de nossa professora Tomásia Rodrigues que foi uma das mais relevantes figuras da educação e formação escolar na nossa aldeia. Agradecemos a sua colaboração. Volte sempre.
      Manuel Sá

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.