NO DIA DOS AVÓS, HOMENAGEM DA NETA ADRIANA

Dizem que hoje é dia dos avós. O que me vem à cabeça são os meus pais, não imediatamente os meus avós. Porque foi com eles que vi de fora o que é ser avô e avó. Olhando para os meus AVÓS, para os quatro, não consigo ser espectador, sou antes actriz, interveniente, bonequinha saltitante no meio de cozinhas, e lareiras, e braseiros e coscorões. Ou a correr pela vinha e pelo pinhal, a ouvir lá longe as vozes aflitas dos guardiães (por onde andarão estes miúdos…?). E de repente já estou a dançar e a cantar e a raspar a pedra granítica centenária, milenar, sei lá eu! [a minha mãe deveria saber, ela sabia tudo sobre pedras, e sobre animais e plantas… e tinha uma paixão por vulcões! Uma verdadeira paixão, que a levou à cratera dos Capelinhos, onde provavelmente ter-se-á sentido a pessoa mais feliz do Mundo! – a minha mãe sentia-se feliz com muitas coisas, sabia ver o lado cor da vida, mesmo quando à frente havia nuvens negras e pedras intransponíveis! (A mãe gostava de pedras, lembras-te?) Será que ela parou tantas vezes para pensar na frase de Fernando Pessoa como eu páro, quando a ouço ou vejo? “Pedras, guardo-as todas, um dia vou construir um castelo!” Nunca falámos sobre isto. Mas também… nunca falámos sobre tantas coisas. E agora?] Adiante. Adiante, porque agora não consigo parar a cantilena que a avó Quina me está a ensinar. Subitamente deu-me para decorar em 30 minutos o Pai Nosso e a Avé Maria. E não é que os sei até hoje? Faz parte. Também aprendi a fazer linhas direitas em croché… mas essas hoje são mais difíceis de voltar a tentar. Estou a raspar a cal que vai caindo da pedra granítica, às escondidas porque isso não se faz. Está calor, e nós pendurados na varanda verde, a ver quem passa. De fora, o cheiro a aguardente e afins, porque o café da terra é logo ali. Lá de dentro as vozes da avó e da mãe. O relógio de parede que toca todas as horas e todas as meias horas. E o sino da Igreja que aprendemos a sentir no coração. Volto à terra de toiros e ciclistas. Voltam-me então as uvas, e pisá-las, na adega, a cada vindima. Pernas grená até aos joelhos, cabeça tonta de andar à roda. As bolachas Maria escondidas no armário da cozinha, perto do saco de pano com o pão, e aquele cheiro inconfundível de pão acabado de receber do padeiro, que vinha de bicicleta. A chegada do padeiro ao Casal era um acontecimento. Qualquer chegada ao Casal o era. O Casal tinha tudo para ser feliz. Lá do alto via-se a aldeia, lá do alto ouvia-se (aqui ouvia-se o sino, mas bem mais longe), e ouviam-se os animais todos a acordar de manhã. As andorinhas rasavam o telhado, as rolas enalteciam com o sol. Era tudo nosso. Tudo. Não havia fronteira. Fomos todos Tomes Sawyers com plenos poderes. Tal e qual. Descalços (contra a vontade dos pais) com banhos de mangueira, ou a enfiarmos os braços nos bidões de água, até que o ombro fazia parar o resto do corpo. Um calor que nos trazia para a rua, mantas estendidas no chão, e nós ali a jiboiar. Bolas para cima do telhado, à volta do telhado, ao ar, rumo ao céu. Nêsperas, e pêssegos, e uvas, e pinhões, e figos, tudo colhido mesmo ali, comido mesmo ali. Quente (não queríamos saber) é que sabia bem. Pêssegos que só a avó Emília tinha. Figos que nos faziam trepar às árvores, de qualquer maneira. Ali era tudo de qualquer maneira. Chegávamos em bando, cheios de fome de papo-sêcos com manteiga, depois de uma, duas horas sem que ninguém soubesse por onde tínhamos andado. Para trás, grandes a aventuras e muitos disparates em propriedade alheia. Era assim, éramos índios. Rapazes, raparigas, tudo índios. Com os cães atrás de nós, até à curva da estrada. Nunca percebi porque nenhum nos acompanhava totalmente. Tanto cão, e nenhum era capaz de ser simpático e acompanhar-nos. Grandes descidas de bicicleta, por ali afora, por todo o lado. Quando o sol já se queria pôr, ou quando as vozes nos chamavam, lá regressávamos, estoirados de liberdade e felicidade. Vinham os serões e as conversas infinitas, histórias da aldeia, histórias da família, histórias, histórias, histórias… muitas delas esquecidas pela distracção dos verdes anos. Outras ainda hoje lembradas, pelos avós dos meu filhos. Aí estão eles, presentes, preocupados, atentos, amigos, confidentes, companheiros, educadores apaixonados. Aí estiverem, desde o primeiro instante, desde o primeiro choro miudinho dos netos recém-nascidos. A pegar-lhes ao colo, como quem pega na mais sensível flor. A levá-los no colo, mesmo sem que eles se percebam envolvidos no abraço. Avós que sorriem com a cara cheia de alegria a cada vitória, cada conquista. Atenuadores de birras, pacientes, com todo o tempo do mundo para os netos, até ao último chutar de bola, até ao úlltimo minuto de cantorias. Defensores de tesouros que envolvem gomas, gelados, brinquedos, e aquela história que faltava. Vale a pena ser mãe para poder assistir aos nossos pais, enquanto avós.

Avó Emília

A única Avó que tínhamos deixou-nos há uma semana. 91 anos, 70 anos de Mãe, 46 anos de Avó, 38 anos de Avó Emília, 9 anos de Bisavó Emília. Fica em mim, para além de muito mais memórias do que aquelas que escrevi, a cor negra dos olhos, a pele árabe, os caracóis nos cabelos, o olhar sempre mais além… E, porventura, tantas, tantas coisas mais!

 

(DE MINHA FILHA ADRIANA, COM O MEU AGRADECIMENTO SENTIDO, PELA MEMÓRIA DE TODOS OS AVÓS)

Autor: 60emais

Português.

2 opiniões sobre “NO DIA DOS AVÓS, HOMENAGEM DA NETA ADRIANA”

  1. O meu muito obrigado pelo texto. Os meus parabéns pelos sentimentos nele inscritos. Várias lágrimas me acudiram, enquanto fiz a leitura. Até um dia para a minha prima Emília Pereira do Virgílio Pereira.

  2. Virgílio, o meu obrigado pela tua visita e pela partilha dos teus sentimentos. A partida da nossa Mãe, sabe-lo bem, deixa um vazio sem par. Mas é assim, a vida. Continuar, é o caminho.
    Abraço amigo,
    MJSá

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