MÃE, ONDE ESTÁS?

Agora

dispersas

não se sabe em que parte do teu cérebro

as memórias do que foi a tua vida

andas à deriva num mar que não conheces

misturam-se-te rostos e

vozes e

carreiros e

casas e

animais e

momentos e

sonhos e

tudo

uns de quando eras menina

outros de quando foi tempo

de te enamorares

e depois

quando foi tempo de nos dares à vida

de te dares à casa

de te dares a nós

de te enterrares na terra

de sepultares os sonhos

de te secares de lágrimas

esquecida de ti

e porém renasceres sempre…

Agora misturas o ontem

que não lembras

com as memórias primeiras

que não controlas

misturas os que morreram

com os que estão

e os que hão-de vir

e ainda sorris como sempre

para os que hão-de vir

tu parideira de vidas

embora não se saiba em que parte do cérebro

isso acontece

o que tu eras só existe em parte

permanece porém em mim o que foste

o meu cérebro guardou-te

até um dia em que tu de mim também te vás

um dia em que tu sejas ainda tu e já não sejas tu

quando a minha memória assim estiver

como a tua

quando misture a imagem da avó com a minha neta

e o pinhal seja a mata da guerra

e o carreiro para nossa casa seja trilho com minas

e eu não corra ou salte ou voe

a caminho da escola

mas desapareça em estilhaços

no terreno do vizinho

contudo

tu mãe de negro

olhando para dentro da minha morte

tu mãe-enfermeira uivando contra as nossas doenças

à nossa cabeceira

e eu já sem poder correr porfiando

em jogar à bola nos leões

e o pai a ver…    

Agora

dispersas

ocultas

num caos

não se sabe em que parte do teu cérebro navegam

as memórias do que foi a tua vida

andas tu

mãe

à deriva num mar que não conheces

mas tu não sabes o que estás

o hoje é sem diferença do ontem do anteontem

foi-se o tempo em que dominavas o tempo

nunca se espera mas é assim

tanta coisa ficou por dizer

fica sempre tanta coisa por dizer

é assim

é assim.

Autor: 60emais

Português.

3 opiniões sobre “MÃE, ONDE ESTÁS?”

  1. Amigo Manuel, quase com todos nós vai ser assim. Na velhice, um turbilhão de acontecimentos, bons e maus, registados na profundeza do nosso cérebro fazem reviver parte da nossa vida já sem darmos muito valor ao presente porque o esquecemos. Este tempo, o presente, começa a pertencer aos mais novos. Gosto deste seu poema. Fala do percurso da vida, por aquilo que nos tocou, por aquilo que nos fez viver, lutar, amar e por isso nos transformou.

  2. Quando os anos forem já tantos assim, nalgum lugar remoto da memória estará sempre escondido o sorriso do(s) nosso(s) filho(s). Temos de acreditar que sim! Para bem do que há-de vir..! Viver, viver, aproveitar todos os “nossos”! É o meu lema, e dizer, dizer sempre que nos apeteça, nunca calar, nunca deixar para depois…! Partilhar a vida e o amor.
    Um beijo cheio “daquela” força!

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