CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – EM ABRIL, OS HOMENS À CHUVA.

Chuva. Uma morrinha, lenta e longa, e os homens nas tabernas. A cheia a pôr o campo como um mar, as copas das árvores, para lá do chaboco da vala, a dançarem conforme a força da corrente, pela tarde foi o António pescador tirar ainda uns do meio do campo, depois quase noite, o vento a varrer tudo e a fazer ondas naquele mar cinzento acastanhado. Uns pontinhos de luz, ao longe, para lá da cheia e do Tejo, o rio agora tragado pela inundação, ali é Benfica do Ribatejo, mora lá uma prima nossa, era o meu pai a dizer…

Os homens. Dias e dias sem poderem pôr pé no campo. Os homens, sem trabalho, sem direito a salário, quando havia cheia era assim. Os homens, mais as mulheres, a procurarem fazer qualquer coisa, na horta, na casa, no quintal… as mulheres a atearem o lume ao cair da noite, pela madrugada, ao almoço, e talvez deixe de chover, talvez a cheia passe, o vento mudou, se calhar amanhã isto levanta, se calhar, sim mãe, se calhar, ela a olhar, a sondar os… astros, como dizia, ela, animal do campo, a farejar, em cata da mudança, mais que desejada… tenho aquele faval todo deitado abaixo, todo acamado, raisparta o tempo…

Os homens. A taberna do Zé Ingês. Em frente, bancos corridos, troncos de árvore serrados ao meio, assentes em pés de madeira, na terra. A chuva, mole mole, a enegrecer os bancos, mas o alcatrão em frente, lavado, brilhante, a demorarem-se nele os feixes de luz dos faróis dos carros, pelo cair da noite, os pneus a fazerem jeeeee…. e os homens a fumar, à porta da taberna, olhando para o vazio do nada e, lá dentro, nuvens de fumo, cheiro a mofo, a vinho, humidade, conversas poucas, dois jogos de sueca, ruído de cartas nos dedos ágeis, sons ocos de mãos-dedos-murros nas mesas, este foi nosso, porque é que não vieste ao destrunfo?…

Os homens. A chuva mole mole. Os que vêm de algum trabalho trazem capuz-de-saca-de-batatas enfiado na cabeça, corre água em bica até às botas de couro e cardas, na face poisam salpicos, sobre a barba, Ti Zé bote aí o costume… qu’isto tá um tempo dos diabos, s’esta chuva na parar… tá aqui oh Jaquim, o Zé Inglês a pôr o copo de três a jeito, no balcão, por cima a lâmpada embaciada a lançar luz contra o prato de esmalte, estão agora mais iluminados os da sueca.

Os homens, em Abril, à chuva, sem trabalho, sem salário. Qualquer sinal de descontentamento, de suposta agitação e era mais que certo que a pide podia aparecer. Em Abril, ou em Janeiro, ou Fevereiro, ou… No Vale de Santarém, como em qualquer outra terra, campo, fábrica, casa… Era assim.

Abril. Como estamos longe desse tempo de noite e mágoa, de sofrimento e medo!…

Abril 2012. Como estamos longe, porém, da nossa assunção como cidadãos, como homens e mulheres políticos, na luta permanente pelo seu presente e futuro?!… pois que novo negrume se abateu sobre a nossa cabeça, sob o comando dos mesmos de sempre?…

Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

Um pensamento em “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – EM ABRIL, OS HOMENS À CHUVA.”

  1. Recordar tempos, em que a pobreza era gritante, em que as pessoas para ganhar uns míseros tostões tinham que sujeitar ás condições climatéricas, quantas vezes com água pelos joelhos, de pulverisador ás costas, na cura das vinhas, mesmo assim só trabalhando se o tempo o permitisse, chegando ao fim de uma semana de tanto sofrimento, para receber uns cobres que muitas vezes mal chegavam para pagar ao padeiro, é recordar tempos que apesar da distância, estão bem presentes na nossa memória.Este teu artigo, aliás como nos tens habituado, tem o efeito de reavivar a memória a muita gente que parece já ter esquecido esses tempos de má memória, em que quando a cheia inundava os campos, as mulheres em casa remendavam as roupas com grandes chapões que coziam nos lugares onde anteriormente tinham cortado as partes rotas, enquanto ao lume coziam as couves com feijão, que serviam para matar a fome aos maridos, e aos filhos, maridos que muitas vezes chegavam das tabernas com os copos, e aínda lhes davam maus tratos. Recordas-te o Zé Inglês, meu vizinho, como poderias ter recordado o António Farelo, o Joaquim Cabreiro, o Manuel Joaquim, o Zé Pêgo, e muitos mais, pois nesse tempo o Vale era conhecido como a aldeia com mais tabernas na região. Mas a chuva dessa época, que ainda tornava mais cinzento o dia a dia das pessoas, curiosamente surgia em Abril, mês que o destino mais tarde haveria escolher para que fossem lançadas á terra as sementes da esperança na construção futuro melhor, futuro esse que hoje está sendo posto em causa. Por isso a minha gratidão por me teres conduzido nesta visita guiada aos tempos da minha adolescência.
    Abraços. M. Azenha

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