O NATAL EM TEMPOS DE TRISTEZA

O Franco passava por nós, mas era como se não existisse. A bem dizer, na terra muitos já não o consideravam pessoa. Eu próprio, rapaz, via-o como alguém que andava pela estrada, mas que parecia já não ser deste mundo. Não se via a falar com quem quer que fosse, ou era o que eu pensava. Dizia-se: olha, ali vai o Franco, e mais nada. Descalço, pés grandes, os dedos inchados e avermelhados pelo frio, ou pela inclemência do calor do alcatrão, o Franco dobrava as esquinas, os olhos encovados, metido nas suas vestes de andrajo, curvado, ainda mais porque esguio, sobressaíam-lhe os poucos dentes negros entre a barba hirsuta, trazia bastas vezes um pau ou uma pequena enxada às costas e, lá pendurado, um molhito de erva, a caminho da coelheira de alguém, que lhe pagava pelo trabalho semanal. Uns tostões, para o tabaco e para o vinho.

De onde viera?… A que família pertencia?… Porque andava por ali, sem casa, sem um trabalho regular?… Porque tinha ele de dormir onde calhasse, as mais das vezes atrás dos valados, ou num palheiro, ou numa casa abandonada?… quase sempre com vinho a mais dentro dele, levando-o a longos períodos de ausência de si, do mundo, de tudo?…

Foi numa véspera de Natal que, subindo o carreiro da aldeia para casa, comecei a ouvir um som que tanto podia ser de um ser humano como de qualquer outro animal. Era um som profundo, que parecia situar-se entre dois pontos, um máximo e um mínimo, com grande intervalo entre eles. Era um ronco demorado, podia dizer-se que traduzia uma agonia lenta.

A noite começara a cair. O dia estivera cheio de sol, apesar de frio. O céu pusera-se de azul a caminhar para violeta, os ramos dos sobreiros recortavam-se no horizonte em tons de ciclame, como se fosse um ecrã de cinema para a natureza toda, no cimo da encosta subia ao ar o fumo na chaminé da nossa casa, era minha mãe  já a acender o lume para tratar da ceia.

Fui-me aproximando. À esquerda o valado onde as madressilvas apareciam sempre primeiro, a seguir o canavial, por onde corria o regato que eu tinha de transpor, de um salto. O ruído crescia por detrás do valado, ia-se tornando mais nítido, mais cavernoso à medida que eu avançava. Parei. Por momentos até me pareceu que o ruído desaparecera, mas logo depois o quer que fosse mexeu-se, o som deixou de ser como até ali. Esbatera-se. Tremi um pouco. Por detrás do valado, lenta, lentamente, ergueu-se a custo uma figura negra, ainda mais negra pelo contraste derivado ao contra-luz, eu estava virado para o poente, onde havia ainda uma réstea do sol que se fora.

Quem está aí, foi a pergunta, numa voz profunda e rude. Seguiu-se um pequeno silêncio, depois: sou eu, respondi, porém sem dizer quem assim falava. Fiquei onde estava. Um melro, que àquela hora sempre aparecia por ali nos últimos cantos do dia, esvoaçou entre oliveiras, e quedou-se, silencioso, num ramo. Mas quem é que está aí? voltei a ouvir, numa voz um pouco menos rude, talvez mais próxima, se calhar a sentir-se segura perante o pequeno tamanho de quem tinha pela frente, do lado de lá do silvado. Também eu serenei um pouco, deixando de apertar o pau que, para me proteger na volta a casa, deixava sempre escondido sob o carrasqueiro do caminho. Foi então que ele disse, numa voz um tanto calma, profunda: tá bem, já sei quem tu és, rapaz… és o filho daquele casal, lá em cima, não é?… sou sim senhor, respondi…

Passou um tempo pequeno que pareceu então enorme. Ficámos calados, frente-a-frente, cada um do seu lado do silvado, e foi então que eu disse para mim “é o Franco”, aquele que para os outros já não era pessoa, aquele que até o rapazio atacava com ditos, com investidas para lhe tirar o gibão quando caminhava, cambaleando, como se fosse um pipo de vinho, sujo e esfarrapado.

Então vou até lá acima, disse eu, mas fiquei um pouquinho ainda, como se esperasse a anuência dele. O Franco nada disse. Vi que o corpo se lhe arqueou um pouco e a cabeça se fixou no chão, pois eu via-o agora menos bem do outro lado do silvado. Foi então que eu quis dizer “boa noite senhor Franco”, mas não cheguei a falar, porque foi ele que me disse: vai, vai, que a tua mãe se calhar vai fazer os coscorões… vai… só te queria pedir que nunca mais me chamasses Franco… isso é uma alcunha que me puseram, não sei por quê… o meu nome é Luís… Luís, ouviste?!…

Sim, senhor… Luís… então… senhor Luís… boa noite. Dito isto voltei-me para o carreiro e iniciei o regresso a casa, levando as palavras do Franco… senhor Luís… na cabeça. Ao entrar, minha mãe afadigava-se junto à chaminé, as panelas para a ceia ainda debaixo do lume do fogão a lenha, mais tarde iria  ela pela noite dentro a estender a massa, a recortá-la com o rodízio, para a fritar e assim chegar aos estaladiços coscorões de massa fina e saborosa, com que sempre nos brindava.

O Franco, o senhor Luís, foi o primeiro sem-abrigo que conheci. Sem-abrigo, classificação que naquele tempo não existia. Um desgraçado, era assim que se dizia. Decerto, todos os seus dias seriam tristes, infelizes. Os seus dias de Natal seriam ainda muito mais infelizes.

Ao longo da vida, este acontecimento veio-me à memória imensas vezes, sobressaindo a lição de dignidade que o senhor Luís me soube dar. Agora, neste PRIMEIRO NATAL EM TEMPOS DE TRISTEZA por que passamos, aqui neste nosso País, veio-me à memória novamente esta enorme lição de vida. Agora, quando tantos se vêem encaminhados por alguns para a miséria, numa escalada vertiginosa, aterradora, que ninguém sabe como vai evoluir e como e quando vai parar… se parar.

Apelemos pois para a dignidade e a honra em nós e encontremos os caminhos, as forças e as acções para não nos deixarmos sepultar em vida.

Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

Um pensamento em “O NATAL EM TEMPOS DE TRISTEZA”

  1. Meu amigo

    Esta crónica tocou fundo. Além de ser um texto muito bem escrito, trouxe-me à memória um personagem já esquecido nas brumas do tempo. Nunca conheci pessoalmente o Franco ou melhor, o sr. Luís, mas todas as vezes que o vi, vinha sempre acompanhado pelos epítetos de “desgraçado”, “bêbado” e, invariavelmente, pela expressão “lá vai o Franco a medir as estrada…”
    Ninguém soube quem ele era, qual o seu drama, de onde viera. Era apenas o vagabundo da aldeia.
    Hoje, quando são aos milhares os “vagabundos” que pululam pelas nossas povoações, quem se irá recordar deles no futuro?

    Abraços

    Reinaldo

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