MEMÓRIA DE UM NATAL NA GUERRA

(Em memória dos ex-militares da Companhia de Artilharia 2573 que já faleceram. E como saudação de Natal a todos aqueles que partilharam comigo esses difíceis e incompreensíveis dois anos e alguns meses de guerra em África).

1969. Aproxima-se o dia de Natal. Estamos em Angola. Somos quase duas centenas de rapazes, com um rapaz um tudo-nada mais velho, que só tem 25 anos. É o comandante. Tem o posto de capitão e fez o curso da academia militar. Para além dele, profissionais do exército só há mais dois sargentos. Os restantes são civis transformados em militares. Para servirem a pátria, dizem. Para combaterem o inimigo, dizem. Para combaterem os terroristas, dizem.

Saímos de Lisboa há meses. Quase duzentos, mas muitos ainda  adolescentes. Muitos ou a grande maioria. Estivemos em preparação, alguns meses. Fizemos exercícios, deram-nos armas, aprendemos a dar tiros, a cercar o inimigo, a fazer emboscadas, a atacar de surpresa, a atirar a matar, a transportar feridos, a fazer a retirada e… a voltar a atacar.

Um dia partimos de Évora, rumo a Lisboa. Era de noite. De fora vinha cheiro a carris de caminho-de-ferro e a orvalho. E no comboio, um cheiro a azedo, de madrugada tresandava a vinho e a suor. E a tabaco. O comboio devagar, quilómetro atrás de quilómetro, a luz das janelas projectada no silêncio. Silêncio e árvores a sumirem-se, na escuridão daquela noite, em pleno Agosto.

O sol foi-se levantando. Chegámos a Lisboa. O Vera Cruz à nossa espera. Desfilámos. Entrámos no navio. Lágrimas. Em nós e no cais, em Lisboa toda, no país inteiro, ao partirem mais uns milhares para a guerra. O ronco surdo de motores, vindo das entranhas do navio, seguido de um ronco profundo, um silvo trágico, como se anunciasse desgraças por vir. Partíamos. Lágrimas, braços, corpos, lenços… tudo a dizer adeus, adeus, adeus… Depois, a costa a esfumar-se, e a seguir só mar e céu, mar e céu. Onze dias, dia e noite, dia e noite. Tristeza. Angústia. Náusea, vómito, cansaço, por fim… terra.

Agora estamos cá. O Natal vem aí. Para nós e para muitos milhares que estão aqui, em Angola. E também para os que estão em Moçambique, Guiné, São Tomé e Príncipe, Timor. Nós a defendermos a pátria, dizem, e os nossos pais, irmãos, namoradas, mulheres, filhos… à espera. Nós na garganta, corações apertados, à espera do Natal. Como vai ser diferente este ano, para nós e para eles!…

O capitão decidiu que o destacamento que está na serra vai ter visita de Natal. Nesse dia, sairão da base duas secções para irem estar com eles. O capitão também vai. Estão lá nove militares, sob o comando de um furriel. Têm um posto de vigia. Vivem numa clareira, no cimo da serra. De noite ficam em grutas cavadas no chão, protegidos por troncos de árvores, terra e folhas de alumínio. Nada de luz, nem o mais leve sinal ou descuido – nem petromax, nem fósforos, nem isqueiro, nem cigarro. Em volta, só mata, mata… Árvores gigantescas, zonas impenetráveis, escorregadias, húmidas, onde o sol não entra. E os animais, como loucos, a gritar… E as sentinelas aguçando olhos e ouvidos para a escuridão.

Na serra, os homens são abastecidos uma vez por semana, se as viaturas chegam lá acima. Se chove muito, em vez de subirem, escorregam, escorregam… e voltam para trás. Talvez no dia seguinte, ou no outro, ou no outro… quem sabe.

Vai ser dia de Natal. Na base, a companhia vai ter rancho melhorado. No refeitório iremos pôr ramos de laranjeira e palmeira, que na minha terra também se enfeitam assim os fontanários. E talvez os cozinheiros saibam fazer bolo-rei, por certo sabem fazer rabanadas. E talvez seja possível encontrar vinho do Porto… talvez. E talvez a noite seja de paz, e o nosso inimigo não seja nada disso…inimigo… e nós… nós não queremos mais do que paz!…Paz.

Manuel Sá

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O refeitório, enfeitado com ramos de laranjeira e palmeira, para o almoço do dia de Natal. Songo-Uíge. Natal 1969.

 

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Destacamento militar na Serra de Uíge – Angola 1969/70 – Os militares dormiam em buracos, na encosta, com coberturas de terra, madeira e folhas de zinco

Autor: 60emais

Português.

3 opiniões sobre “MEMÓRIA DE UM NATAL NA GUERRA”

  1. Pois meu amigo Manuel,pelo que acabo de ler e depois de muito tempo de pesquisa sempre dei com a companhia que me foi render,pois me apresento:fui rádiotelegrafista na C.Caç.1740 e fui por vós rendida em outubro de 69,no meu perfil do fbook tenho fotos com o radiotelegrafista dessa companhia que era conhecido pelo Fafe e que tinha o maior prazer em contactá-lo aqui deixo o meu email,e parece e graças a Deus que não dei o meu trabalho de pesquisa por mal empregue.agradecia resposta por favor.
    um abração

  2. Caro Maurílio,

    por razões operacionais – mudança de casa – só hoje estou a responder ao seu comentário, o qual agradeço.

    Com base nos elementos que refere, assim terá sido, ou seja, nós chegámos ao Songo-Angola em 1969 e teremos rendido a vossa companhia, que era essencialmente constituída por militares idos da Madeira, salvo erro.

    Não tenho presente esse radiotelegrafista, pelo menos pela alcunha, mas vou tratar de me informar para lhe dar resposta, no que terei muito gosto.

    Como não estou no facebook não tenho acesso às fotos que lá colocou, pelo que lhe solicito que mas envie por mail – para isso vou também enviar-lhe o meu.

    Vamos ter o nosso Convívio Anual no dia 2 de Junho.

    Até breve. Abraço,

    Manuel J Sá

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