O TEMPO DAS CASTANHAS

Foto de Wikimedia Commons / English Wikipedia; Foi candidata a “Picture of the Year 2006”
Comprava-as na loja da Dona Conceição, a minha mãe. Chegavam aí umas três semanas, se tanto, antes do São Martinho, em sacas de linhagem. Vinham para nossa casa num cartuxo de papel pardo, com umas riscas vermelhas na vertical. O cartuxo era colado no fundo com uma massa, que o meu pai jurava ser de cimento, para tornar o cartuxo mais pesado. Assim, dizia ele, pagamos mais pelas castanhas. Pelas castanhas e por tudo o que fosse pesado naqueles cartuxos…

Todas as lojas tinham castanhas à venda. Algumas punham-nas bem à vista, de modo que, reluzentes, parecendo polidas até, quase as ouvia dizer “leva-nos”. E a Dona Conceição, onde também se compravam os melhores cadernos de duas linhas para as cópias, vendo-me olhar com apetite para a saca dizia-me… tira duas ou três. Tenho na memória o que se seguia: um tempo longo, desde o descasque à retirada da película que cobria o fruto, até à mastigação, o lento saborear da castanha crua… Ainda tinha bons dentes, claro.

A minha mãe trazia sempre erva-doce, num cartuxinho em formato de cone, que a Dona Conceição fazia num farete, enquanto continuava a falar, os dedos a moldarem o papel, num afago, a darem-lhe a forma que saía na perfeição, depois a  ir com o copo à caixa de madeira, para tirar os pequenos grãos, a lançá-los no cartuxinho e depois a dobrar a ponta, e pronto… oh Emília, já está!…

Tínhamos um assador de barro, com buracos, que meu pai tinha comprado na Feira dos Santos, fazia uns anos, num dia aborrecido, de névoa e chuva mole, em que até andámos no carroussel. Minha minha mãe ia sempre resgatar o assador daquele abandono de mais de nove meses, dado que era usado só meia dúzia de vezes, no tempo das castanhas.

O assador escapou um dia das mãos de alguém, de modo que se quebrou, mas ainda servia, apesar de ter perdido uma asa e ter levado arame a segurar os bocados. Funcionou assim alguns anos, mas um dia desapareceu, foi substituído por um tacho de alumínio, onde se fizeram uns buracos. Dali em diante havia sempre quem dissesse… no tempo do assador de barro  ficavam mais saborosas… Mas havia também quem dissesse o contrário. Foi assim que se formaram três grupos: o dos que gostavam mais do assador de barro, o dos que gostavam mais do tacho e o dos que… para eles era indiferente.

Mas a especialidade lá de casa eram as castanhas cozidas com erva-doce. Era nesta modalidade que a nossa mãe apostava. Lavava muito bem as castanhas, dava-lhes um golpe não muito profundo com o canivete de cabo branco, e punha-as no tacho, com um pouco de sal. Só quando estavam prestes a levantar fervura é que lhes deitava a erva-doce. Para mim, até poderia haver outros preceitos, mas se a minha mãe fazia assim, era assim mesmo que ficava melhor, até porque o sabor era… fantástico.

Comíamos as castanhas devagar, para as saborear bem, mas mesmo assim elas desapareciam depressa, isto porque o rancho era grande. A certa altura ganhávamos autorização para um gole de água-pé, que fazíamos no nosso pequeno lagar. À medida que íamos crescendo tínhamos acesso a mais goles, de tal modo que, sorrateira como a água-pé costuma ser, pregava-nos alguns calores inusitados. Uma noite, água-pé e castanhas, umas cozidas e outras assadas, fizeram tal estrago na rapaziada que no dia seguinte a solução foi… muito chá de  macela.

Há alguns dias que venho comendo castanhas. Assadas, cozidas, sabem-me sempre como naquele tempo. E hoje até consegui comprar uma garrafa de água-pé, mas de modo um tanto clandestino. O rótulo diz Vinho de Mesa Rosé. Disse-me o vendedor que não se pode ter água-pé à venda. Coisa estranha, quando se trata de um produto natural, obtido por processos semelhantes aos do vinho… E soube-me muito bem, a água-pé, mais as castanhas, neste tempo da tradição  de S. Martinho, apesar dos dias negros e de miséria que vão chegando.

Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

8 opiniões sobre “O TEMPO DAS CASTANHAS”

  1. Venham as castanhas, a jeropiga, a água-pé, porque as memórias já são nossas!
    Obrigada 🙂

  2. Adorei ler «O tempo das castanhas», porque vivênciei duma forma muito clara, como decorria todo este processo, há uns longos tempos. Suponho que a feira dos Santos, seja a do Cartaxo.
    És um contador de histórias, expectacular. Parabéns.
    Lena

    1. Lena, muito obrigado por teres vindo, mais uma vez, ao meu 60emais e por aqui teres deixado este teu comentário, como um presente de Natal.
      A Feira dos Santos. A Feira do teu Cartaxo, tão típica, tão particular, em tanta coisa. Tanto que, para sempre, me ficou na memória o sítio, o ambiente, até o tempo atmosférico, normalmente pardacento, a maior parte das vezes de chuva, ou nevoeiro, outras vezes solarengo, claro, nítido, mas frio.
      As barracas de tudo e mais alguma coisa, as botas novas à espera de quem as comprasse, experimenta estas, agora estas, agora aquelas, então freguez, vai ou não vai, tem aqui umas boas botas, não arranja outras iguais em toda a feira, isso garanto-lhe eu… E as samarras, a pele de cordeiro na gola, ou de raposa, estas mais caras.
      E os rapazitos contentes, com os pífaros nas mãos, eram de barro, pintados com cores muito vivas, porém logo ali, na feira, os deixavam cair, partia-se aquilo, e era um baba-e-ranho o resto da feira.
      As castanhas a assar, um fumaréu enorme em volta, juntavam-se os perfumes das castanhas com os das farturas, e a música nos altifalantes à compita com a música única do Circo Mariano, por sua vez à compita com a do Circo Atlas… e nos carrousséis os namorados de começo, ou já adiantados, a partirem, fugazmente, em “mais uma viagem” dos olhares de todos, sobretudo dos pais e outros parentes, para um estar próximo, próximo, próximo… até ao centro do outro, talvez querendo fundir-se nele, a ilusão de sempre… e as crianças, no banco do carroussel, ou já na girafa, ou já no bambi, ou já na zebra… e sobe-e-desce, sobe-e-desce… e a bola rodar, sobre as nossas cabeças, risos, alegrias, frenesim, vertigem…
      Foi ontem?… Eu sei, foi há muito… mas é como se tivesse sido ontem. Isto enquanto houver vida, e a memória guarde e faça eclodir a maravilha desse quadro inimitável que era a Feira dos Santos, para nós, naquele tempo…
      Abraço. Feliz Natal!

  3. No dia em que publicares as tuas memórias, faço questão de estar presente.
    Bjs, Boas Festas e que o próximo anos seja de Paz.

  4. 60 e mais,venho apenas de fazer a descoberta(mais vale tarde que nunca) estou extradado no estrangeiro,reformado,nasci e vivi en Santarém até aos
    18anos,agora da vossa geraçäo,guardo muitas lembranças como todos,castanhas assadas e àgua-pé chouriço assado naquelas tascas e adegas tal como
    a do Chico Quinzena,Sequeira,O Farta Brutos,entre outras das mais tipicas de Santarém dos anos 50 e poucos.Os anos de escola me fiariam para
    vida inteira,andei na escola primaria da paroquia de Marvila aquela que ficava ao fundo da Avenida dos Combatentes ano 1951/1955,sempre com o mesmo
    professor, o Sr.Agnélo Mais conhecido como o “binte-oito” de quem fui sempre admirativo,este também de vez em quando la dava com a régua mas tinha mà pontaria,um dia o Sarràlha desviou a mäo e foi o tinteiro que expoldiu! cadernos,livros,soalho,bata do parceiro,o fato e colete de malha do professor ,ficou
    aquilo tudo azul, aqueles todos que se meteram a rir depois,levaran cada um com uma canàda de cana d’india no carolo.Se alguém que ler se reconhe-sa
    nisto,cà fico a espéra.por hora até a proxima
    N.B. é po
    ssivél que apesar do bom ensino do meu professor,aqui và muito pontapé na gramàtica,naturalmente peço indulgéncia.

    1. Caro Carlitos,
      saúdo a sua vinda ao meu 60emais, e agradeço o comentário, rico e oportuno. Quanto ao Português, de um um Português que está longe, há tantos anos, digo duas coisas: percebi muito bem o que transmitiu, a mim e aos visitantes do meu blogue; o que diz é genuíno e tem a ver com a nossa cultura, com as nossas raízes, com as nossas memórias.
      Somos da mesma região e quase da mesma idade, uma vez que entrei para a escola primária, no Vale de Santarém, em 1953. Depois fui estudar para Santarém, onde fiz o Curso Comercial numa escola que abriu em 1956. Só depois fui para Lisboa, para trabalhar, aos 18 anos. Portanto o que diz é-me familiar. A taberna do Quinzena conserva a tradição. Quanto às outras duas… não posso dizer que existam ainda, mas lembro-me dos nomes.
      Desejo que esteja bem, assim como a sua família, onde estiver.
      Quando desejar participar, tenho muito gosto e agradeço,
      Abraço de
      Manuel

  5. Nesses tempos, havia datas que se marcavam no calendário, mas que exerciam uma grande influência em todos nós: São Martinho, Natal, Ano Novo, Pão por Deus, Quinta-Feira da espiga, Entrudo, etc., etc. Não sei porquê, mas hoje parece que todos os dias são iguais, sem emoção nem expectativa.
    Dia 11 vou comer umas castanhas, infelizmente, sem água-pé. Essa agora é proibida. Coisas do progresso…

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