CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – REENCONTRO E CONVÍVIO AOS 65 ANOS

Foi-se aproximando o dia. 30 de Outubro. Antes das 10 da manhã e já a Engrácia esperava, com o marido, que chegassem as raparigas e rapazes da sua idade. E, aos poucos, eles foram aparecendo: o Sá, o Garcez, o Reinaldo, a Silvina, o Baeta, a Vitorina, a Maria Adelaide, o Melanda, o Azenha. Um pouco mais tarde chegaram o Joaquim Rafael, a Manuela Martins e o Isaac Lopes. E, uns atrás dos outros, vários momentos de reencontro, de sorrisos, de abraços, de perguntas: como estás, quantos filhos tens… e netos?… que tens feito?… eh pá, há quantos anos a gente não se via?… E as memórias: vocês lembram-se daquela vez…

Apareceram até dois jornalistas. Queriam fazer reportagem. Queriam saber a razão daquele reencontro, qual era o programa, o que recordávamos daqueles tempos. E nós, sem deixarmos a prioridade das nossas conversas, lá íamos respondendo.

Veio a Dolores, filha da Adelaide, que tratara com a Junta de Freguesia do acesso às instalações da Escola. Trazia a chave. Logo depois transpusemos o velho portão de ferro. Por momentos, a minha cabeça muitos anos atrás, quando só era possível espreitarmos, da parte de fora, as meninas que brincavam no recreio. E, logo ali, à direita, a grande porta de madeira, que servia de pano de fundo às nossas fotografias anuais. Vinha um senhor, trazia aquela máquina enorme, abria o tripé, que firmava no chão, a máquina ficava quase pronta para o retrato, depois era só ele pôr a cabeça dentro duma manga preta, ficávamos um tempinho em pose e, num repente, um clique. Assim ficávamos, para sempre, ligados àquele momento único, irrepetível. Rostos. Olhares. Roupas. Batas brancas ou camisetes, ou camisolas. Casacos, alguns. Nos pés, talvez sapatos, ou botas. Ou nada.

A emoção de entrar na minha escola, tantos anos depois. Lá está ainda a coluna ao meio da sala e, junto a ela, era onde ficava a secretária dupla que o Reinaldo lembrou, ali mesmo, de nós dois partilharmos com outros. No canto da sala, à direita, a secretária dos professores. Lá vi eu a doce Maria Augusta, da 1ª classe, mais a velha rabujenta e violenta da 2ª classe, e também a bem torneada e risonha Maria Adelaide Caria, da 3ª classe e, por fim, o Mestre, o professor Costa, a ensinar-nos como só ele sabia, desde os problemas do caderno 1111 – mil cento e onze – até às guerras com os espanhois, que ganhámos sempre, pelo menos na versão daquele tempo. E, na parede da direita, o molho de atiradeiras que, uma vez encontradas em alguns de nós, o professor Costa pendurava no prego grosso, espetado bem lá no alto.

Subimos a íngreme escadaria de madeira, curvando lá em cima à esquerda, e entrámos no espaço onde viviam a Dona Tomázia e o Senhor Rodrigues. Depois, seguindo pelo corredor, a escola das raparigas. Sala ampla, inundada de luz, agora vazia, em início de obras. No entanto, eu a ver onde ficava o quadro. Na mesma parede, ao lado direito, a Dona Tomázia, uma vez por ano, projectava aquele filme com a história da velha que rolava dentro de uma cabaça, para fugir à perseguição do mau da fita.

A sessão começava sempre com uma prelecção da Dona Tomázia, que incidia sobre o bem-fazer, obrigação de todos, quem o não fizesse seria sempre castigado. Na minha memória, a máquina de projectar. Velha, ruidosa, por vezes partia-se a fita, uma, duas, três vezes, mas a sessão chegava sempre ao fim. Fim que era sempre o mesmo. Porém, para mim e para as minhas irmãs, que acompanhei em pelo menos duas sessões, esse foi o primeiro filme das nossas vidas. Inesquecível.

Encaminhámo-nos depois para o cemitério, para a homenagem anunciada aos que já partiram. Relembrámos com saudade os professores e os alunos que a morte já levou, deixando flores nas campas dos que repousam no Vale: Dona Tomázia, Lurdes Cassiano, Rui Sá e Francisco Vieira (falecidos na guerra colonial) e Ângelo Carvalho. Da mesma idade, embora sepultado em Caldas da Rainha, recordámos o Orlando Rodrigues.

Após a missa seguimos para o restaurante Varanda do Parque, no CNEMA. Aí, já com a presença da Lucília, continuámos o convívio, o primeiro após 58 anos da nossa entrada naquela Escola Primária que, fundada em 1915, ficou com o nome de Aristides Graça, o benemérito que, então, ofereceu o terreno para a sua construção.

O almoço, servido com o agrado geral, constituíu mais um tempo de recordação dos tempos vividos na nossa Escola, onde as trocas de memórias vieram também à mesa, delas comungando todos – os nascidos em 1946 e os seus familiares e amigos.

Ficou bem vincada a satisfação pelo reencontro, assim como a vontade de o repetir no próximo ano, sendo opinião expressa por muitos de que se deverá pensar em alargar o leque do grupo a raparigas e rapazes de outras idades. E a posição dos que tiveram a iniciativa e organizaram este 1º encontro vai exactamente no sentido de que assim deverá ser.

MJSá

Grupo de antigos alunos na visita à Escola Aristides Graça - Vale de Santarém - 30 Out 2011

Autor: 60emais

Português.

Um pensamento em “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – REENCONTRO E CONVÍVIO AOS 65 ANOS”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.