CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – HISTÓRIA DA ESCOLA PRIMÁRIA (PARTE 2)

Dona Augusta, professora das meninas durante muitos anos

Meu pai tinha muito desgosto de não saber ler… nem ele nem minha mãe foram à escola, de modo que tudo fizeram para que eu fosse,… isto é a minha mãe a contar-me de como foi a sua vida, naquele tempo, de como um dia foi levada pela tia, para fazer a inscrição e, depois, como passou a conhecer a Dona Augusta, sua professora da 1ª à 4ª classe, de seu nome completo: Leopoldina Augusta de Carvalho e Conde.

… Não éramos muitas. Lembro-me da Gertrudes, que veio a ser mulher do Artur Tendeiro, aquele que teve a loja… lembro-me da outra Gertrudes… bem, nós cá dizíamos Estrudes, mas deixá-lo… essa outra, que também era muito minha amiga, e que na verdade se chamava… deixa cá ver… Maria Gertrudes Malfeito Vítor… olha era a mãe do João Vasco, quase da tua idade, pois… e quem mais?… eu a perguntar.

Uma pausa. Minha mãe, agora na casa de saúde, a espreitar a vida lá fora, pelos quadradinhos de uma janela, uma palmeira em frente, mais adiante os prédios do outro lado da rua, ainda assim ela a poder prever o tempo… se calhar amanhã vai chover, estou a ver ali um sinal no céu…

… Espera aí um bocadinho… ai como é que se chamava outra… ah! era a Maria Virgínia, tia da Dina e da Maria João, netas do João Padeiro, isso, isso… éramos tão amigas, amigas mas a valer!… ela coitada também já morreu… já morreram todas, só cá estou eu… e eram mais umas poucas, não me recordo dos nomes… fomos todas ao exame da quarta e ficámos bem… é verdade…

… a Dona Augusta era um grande professora… foi em Santarém, foi… a minha mãe, tua avó, já se vê, foi lá ter, foi com a tia, mas quando lá chegou já eu tinha feito a prova oral… a Dona Augusta até disse que a mim é que deviam ter dado a distinção, que eu é que merecia, mas não, foi uma da Romeira… a minha professora ficou até zangada com as do júri…

A tarde a caminho do fim, eu à espera e a minha mãe a voltar atrás no tempo… o marido da Dona Augusta era o senhor Conde… tinha uma torrefacção de café em Lisboa… e eu, confundido, a perguntar-lhe: oh mãe, mas esse que tinha a torrefacção não era o senhor Aristides Graça… a mãe disse-me outro dia que o senhor Graça é que tinha essa torrefacção… Não, não, ouviste mal… foi a resposta pronta… o senhor Conde é que tinha uma torrefacção em Lisboa, depois montou outra no Vale junto à praça, agora chamam-lhe mercado, naquilo onde morou o Curado, ou ali perto…

Eu a dizer para mim… tenho que emendar a primeira crónica da história da escola, mas a minha mãe a continuar… era tão bonita a minha escola, o jardim… havia aquela rua das palmeiras, havia até uma palmeira que tinha umas grandes tâmaras, íamos apanhar as que caíam, eram tão saborosas!… nunca vi nada igual… a Dona Augusta deixava-nos  ir também apanhar laranjas, comíamos ao lanche ou levávamos para casa… quando as laranjeiras ganhavam flor levávamos cestinhas para apanhar… as flores eram para as nossas mães fazerem chá…

… um dia, muitos anos depois, a Dona Augusta foi para a reforma, quem a substituiu foi a Dona Tomázia… a Dona Augusta deixou de morar no edifício da escola e foi para uma estalagem que havia nesse tempo, na estrada para Lisboa, entre o Manel d’Oliveira, que teve a oficina e o João Cardoso, que era ferrador… essa estalagem era a pensão de uma que lhe chamavam a Mari Russa, que era mãe de um senhor chamado João Romão… mas a Dona Tomázia protegeu sempre a Dona Augusta, ia lá visitá-la, foi até ao fim da vida… ficou sepultada no Vale… e foi a Dona Tomázia que tratou do funeral… é verdade.

Autor: 60emais

Português.

Um pensamento em “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – HISTÓRIA DA ESCOLA PRIMÁRIA (PARTE 2)”

  1. Vélhice, fonte inesgotável de saber, de experiência, e de conhecimento da vida — infelizmente nem sempre os Velhos são ouvidos, nem tão pouco os seus conselhos, experiências adequiridas ao longo de muitos anos nessa grande academia que é a universidade da vida. Na minha passagem por Angola, conheci um povo (os kiokos), da tribo dos kibundos, em que os seus velhos eram endeusados, nada se fazia naquela comunidade, sem que o Soba e o seu povo os ouvisse. Que bom seria que no mundo dito de “civilizado” fizessem o mesmo, haveria muito menos disparates, disso estou certo. Brilhante a memória de tua Mãe, como é de realçar os méritos do filho que tem, escusado será de dizer quanto fiquei emocionado, pois conheço muito bem a Senhora tua Mãe, e sei o quanto ficou feliz por esta conversa que tiveste com ela. Como deves de calcular sobre as sua recordações as minhas memórias não vão tão longe, mas lembro-me bem do “sapateiro” dos cavalos e das juntas de bois que locomoviam os meios de transporte mais frequentes ao tempo, e que como a clientela era grande, ainda sofria a concorrência do Zé Queijeiro, lembro-me também da Dona Maria Gertrudes Vitor, falecida á poucos anos, e tem muita razão a tua mãe, o João Vasco éra mesmo da nossa idade se fosse vivo, João Romão conheci um, que era dono do prédio ao lado da oficina do João Cardoso, era um sugeito ligado á festa brava, e também um eximio executante da guitarra portuguesa, não sei se será a ele que a tua mãe se refere, pois devia de ser mais ou menos da idade dela. Gostei muito do que li, os meus parabéns por este teu trabalho.

    MJAA

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