CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – FERNANDO GARCÊS A CAMINHO DO CONVÍVIO DOS DE 65 ANOS

Por certo haverá quem chegue a este blog e se surpreenda por eu andar à procura de antigos colegas de escola primária, para um reencontro… 58 anos depois de nos termos visto, pela primeira vez, exactamente na então chamada 1ª classe. Sim, pode acontecer. Porém, depende do ponto de vista. Se eu disser que se trata de pessoas que fizeram parte de tempos únicos da nossa vida de então, pessoas que não vemos há quase 50 anos, e que, além disso, de vez em quando os seus rostos, vozes, risos e gargalhadas, modos de andar… nos vêm à memória, impondo-nos um ímpeto, um desejo enorme de os voltar a ver, então este “ir à procura” emerge, imparável. 

Fui em busca do Fernando Garcês. De pergunta em pergunta fui ouvindo que ele, que já não vive na terra há muitos anos, teria sido bancário, em Vila Franca de Xira ou arredores. Recorrendo às “páginas amarelas” não conseguimos qualquer informação, a não ser… com esse nome não temos qualquer registo. Porém, tendo sido bancário, alguém do meio me poderia dar alguma informação. E deram – um nome de rua, o nº de porta, o andar. Fui até a net, para ver se me ajudava. Não ajudou – no mapa de Vila Franca de Xira não aparecia a tal rua.

Recorri ao método tradicional. Rumei a V.F.Xira. Estacionei – difícil estacionar naquela terra – e fui ter com o primeiro grupo de talvez sexagenários que encontrei, o sol a bater-lhes na cabeça e eles na conversa galhofeira, na esplanada. Ninguém sabia ao certo onde podia ficar a tal rua. Um dizia: isso não é uma rua, é um sítio, assim como uma praça, tá a ver?.. E eu: não… sim… talvez… mas obrigado, obrigado. Entrei num café. Resultado: zero. Falei com um polícia, idem. Depois, novo café. Isso parece que é ali atrás do mercado, mas lá para a encosta, dizia-me a empregada da cozinha, de touca na cabeça, um sorriso de todo o tamanho no olhar. E aconselhava… fale com aquele velhote ali, o que tá a fumar, ele deve saber… ai sabe sabe.

O velhote, segundo a mulher da touca, sentado a uma mesa de café, o fumo em espirais a sair do cigarro, a ver-me à sua frente, ele a olhar-me de esguelha sob a pala do boné, eu a dizer-lhe ao que ia e ele, depois de consultar os miolos… então… então… e nunca mais lhe saía nada, até que… se é aonde tou a pensar, vossemecê vira aqui já à esquerda, depois segue sempre em frente até à igreja, depois aquilo lá em cima empina, vai encontrar uma fonte, mas segue sempe, segue sempre e depois há-de encontrar isso aí que você disse…

Já eu tinha chegado ao ponto em que a rua empinava, empinava, a fonte já a tinha encontrado, e nada, não via o sítio com o tal nome. Voltei para trás. Cheguei a um quiosque de jornais. A senhora lembrava-se do nome. O marido, meio surdo, nem por isso. Um cliente, um pouco mais velho, disse que sim, que ali era o tal sítio. Quer dizer, um pouco mais para cima, mas que agora lhe parecia que já não se chamava assim. Vinha a chegar ao quiosque outro cliente, também idoso. Mesmo a calhar, porque morava mesmo no sítio, que entretanto mudara de nome, há anos, por isso já poucos se lembrariam. Lá fomos os dois, eu dizendo quem procurava e porquê, ele, com as compras, na rua que empinava, ofegante, a dizer-me… parece que conheço esse senhor… moro no prédio ao lado… pois, ele trabalhava num banco… dantes esta rua não tinha este nome… e era lote, mas agora tem número… já não há lotes…

Despedimo-nos, com um grande obrigado da minha parte. Toquei à campainha. Nada. Toquei novamente. Depois toquei para o lado direito. Abriu-se a porta de entrada. Quem é, perguntou uma senhora. Fui subindo e fui dizendo o que queria. Suba, suba que não oiço nada, isto faz eco… E assim fiz. Estavam a sair, ela e o marido, com sacos e mais sacos. Que não sabiam dele, que morava ali sim senhor, mas que passa grandes temporadas fora, talvez em Lisboa, em casa da filha. Que não tinham o número de telefone, porém a senhora, prestável, a subir ao andar de cima, a tentar saber… ela a dizer… aquela vizinha ali é capaz de saber, talvez, vou ver… mas o marido… oh mulher!.. mas onde é que tu vais agora?… já dissemos o que sabíamos, pronto… olha que temos coisas a fazer!… onde é que tu vais?…

A senhora a subir as escadas, a deixar o marido a resmungar, voltaria logo logo, sem mais saber. Lá foram à sua vida. Com os sacos, a pressa do marido e o meu… muito obrigado. Desci até ao patamar de entrada. Foi então que rabisquei numa folha de papel algumas notas sobre o que ali me levara. Deixei os meus dados para contacto e também uma cópia da nossa fotografia da 1ª classe. Ficou tudo na caixa de correio. À espera que o Garcês, um destes dias, por lá apareça e queira contactar-me… mais de cinquenta anos depois.

MJSá

Autor: 60emais

Português.

Um pensamento em “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – FERNANDO GARCÊS A CAMINHO DO CONVÍVIO DOS DE 65 ANOS”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.