CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – AS MENINAS, COMO BORBOLETAS…

Ano lectivo 1955/56 – 3ª e 4ª classes

Levo tempo a contemplar estes rostos. Devagar, vou percorrendo a foto. Detenho-me, prisioneiro do meu olhar, perante cada expressão, ou o que ficou de mais impressivo daquele instante único em que, cada uma das meninas, talvez em tensão, se deixou transportar para depois, para muitos anos depois, pela acção da câmara “à la minuta”. O senhor, cabeça e meio-corpo envoltos pelo manto negro, como mágico ou pantomineiro, olhando através do orifício, a carregar não se sabe onde e… click, já está… já está… pronto minhas meninas…

No meio do grupo, a Dona Tomásia, menina noutros tempos lá para os lados da Beira Baixa, era o que se dizia, no seu papel de professora, anos a fio no Vale. Da 1ª à 4ª classe, quantas centenas de meninas ela guiou, desde os primeiros passos do “aeiou”… do “escrito à máquina, escrito à mão”… até ao exame final, em Santarém?… e “agora meninas adeus… que sejais sempre educadas, como vos ensinei… ide, que eu rezarei por vós…”.

Quem reconheço eu? Andavam na 3ª e na 4ª classe as meninas da foto, tirada próximo do jardim, por detrás algumas das árvores, uma cadeira ficou sem ocupante. Dispostas em quatro níveis, as cinquenta e duas meninas estão todas focadas no homem da máquina, não há sorrisos evidentes, talvez com as excepções da Nélita, da Tilinha, da Joaquina – uma das três gémeas, que estão juntas – e das manas Ralo.

Quem reconheço eu, de entre as meninas que, no “aqui vai o lenço, aqui fica o lenço” ou na roda de “o burro do meio está preso à estaca…” me faziam deixar as correrias do tempo de recreio, para me ir pendurar nas barras do portão, a observar, observar,  com desejos de ter um olhar, um sorriso, uma palavra?… Quem reconheço?

Regresso àquele tempo, esgravatando nos recônditos ainda vivos da memória, e consigo dizer mais alguns nomes dos rostos que reconheço: Maria Helena, Vitorina, Glória, Maria Adelaide, Dina, Maria João Cabral e Clara e Ana, estas duas últimas as outras gémeas, do grupo de três.

Talvez a Dona Tomásia tenha preparado as meninas para este dia, talvez lhes tenha dito que era preciso estarem “arranjadinhas”, na roupa e no cabelo. Talvez lhes tenha dito que era preciso virem calçadas. Assim terão feito.

Para sempre ficou a imagem magnífica de um grupo de meninas, que então me pareciam borboletas de asas frágeis, mas elegantes, todas as manhãs que passavam a caminho de mais um dia de escola. Esse tempo, de aprendizagem, espanto e sonho permanece, cá dentro, pelo menos em memória. Dia 30 de Outubro, no encontro-convívio que vamos realizar, esse tempo vai envolver-nos de novo… cinquenta e quatro anos depois desta foto.

Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

2 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – AS MENINAS, COMO BORBOLETAS…”

  1. Enfim, mais de meio século depois, como é bom recordar, as meninas ali tão perto, e ao mesmo tempo tão longe, aquele portão que funcionava como o muro de Berlim nos tempos da guerra fria, com a professora Dona Tomásia, qual Dama de Ferro dos anos cinquenta, agarrada aos principios da Santa Igreja, e da Patria Imaculada, sacudindo os mirones que ousavam dar uma espreitadela para alem do portão. Pobre do Senhor Rodrigues o que ele sofreu, creio que se alguem pode falar de falta de liberdade, ele foi inequivocamente um deles. Recordações, saudades! quantas saudades, desses tempos do saco dos berlindes e do pião.
    MJAA

  2. Comentário de Zé Neves

    Velho Amigo,

    É raro o dia que não passo os olhos pelo teu blog, pelo Alfageme e, agora também, pelo do Azenha .Diga-se que também ele escreve muito bem. Mas, por mais que me esforce, não consigo lembrar a cara dele. Do nome, perfeitamente, mas a cara…???

    Falando de caras, dou comigo a fazer zoom nesta ou naquela cara e, dos rapazes, já não faltam muitos nomes. Bem, mas esta última foto, das raparigas, só te digo….lindas, lindas de verdade! E muita, muita saudade.

    Aqui vão alguns nomes que penso ter identificado. Na última fila a contar da esquerda, em 4º lugar a Teresinha do Viriato (?) a qual, não sei se sabes, faleceu não há muitos anos; depois, em 9º temos outra Teresa, a que morava no Casal do Vinagre e, em penúltimo, a Genita Centeno. Depois, por detrás da Nelita Martins, temos a Ana(?), morava para os lados da Fonte Boa e que casou com o “Pau Real”. Ao lado da D.Tomásia, salvo erro, a irmã do Fernando Garcês?

    De resto, lembro-me de quase todas as caras. Os nomes é que é o elas ! Não consegui ainda identificar a Maria Helena, e não me lembro da Maria João Cabral. Será, porventura, irmã do Tavares Cabral ?

    Aqui te deixo um grande abraço e um bem-hajas por nos permitires relembrar momentos únicos das nossas vidas. E que o convivio seja um enorme sucesso.

    Zé Neves

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