CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM-HISTÓRIA DA ESCOLA PRIMÁRIA (Parte 1)

Escola Municipal Aristides Graça – 1915. É o que se lê na placa que está na parede que dá para a rua Luís Augusto Rebelo da Silva, frente à bem recuperada casa da família Centeno. Recuperação que foi obra do Miguel Centeno. Parabéns, Miguel!

Mas… tem esta crónica o objectivo de falar da história da escola primária do Vale de Santarém. Talvez seja mais adequado dizer que se trata de “alguns contributos para a história…”. Adiante.

Quando minha mãe nasceu, em 1921, a escola já tinha então 6 anos. Mas, do que ouviu dos mais antigos, pôde esclarecer-me de… Que antes de haver aquela escola vinham à aldeia uns professores de fora. Que as crianças iam à escola em casas particulares. Que havia alguém que tinha uma casa com uma sala maior e que a oferecia para isso. Nesse ano era aí a escola. Um ano era numa casa, no ano seguinte poderia ser noutra. Os que mais queriam e mais posses tinham para que os filhos fizessem a instrução primária, eram os que mais se dispunham a colaborar. Foi assim durante anos. Até que foi construída a escola.

Antes disso muito poucas crianças iam à escola. Podiam estar juntos raparigas e rapazes, de todas as classes, mas eram sempre poucos. A minha mãe a dizer… a tua avó ainda foi à escola, mas um dia levou um pão grande, ela é que amassou a farinha, fez a benzedura, depois levou o pão ao forno da quinta da Rebelas. Ficou um pão bonito, que cresceu muito, dizia a avó. Contente, deu pão a todas as meninas, comeram-no num instante, não deram nada à professora. Ela não gostou. Pôs a avó à janela, com umas orelhas de burro na cabeça. Foi por isso que a avó nunca mais voltou à escola. E foi por isso que ela tanto quis que eu fizesse a quarta-classe. Ela e o avô. E fiz.

Nessa altura, as crianças levavam para a escola um banco de madeira, para se sentarem em volta da mesa. Quando a professora não vinha, a dona da casa podia fazer as vezes de professora, mas algumas vezes mandava as crianças irem apanhar erva para os coelhos, ou dar comida às galinhas, ou limpar a loiça, ou outra coisa assim. Era melhor isso do que ficarem na rua, porque os pais trabalhavam no campo, quase todo o dia, só as avós podiam dar uma ajudinha.

Bom, mãe, mas a escola, aquele edifício… quis eu saber. E ela, num repente, a memória em golfadas… Olha, aquilo ali era de um senhor chamado Graça… Aristides Graça. Tinha muitas coisas no Vale… muitos terrenos, tu sabes lá!… Grande parte das hortas, quase até à quinta das Rebelas, eram dele. Tinha outras lá mais para cima, do Paponas quase até ao moinho de cima, e tinha olivais e terras de semeadura. Aquele sítio onde hoje está o edifício da escola era tudo dele. Ia desde aí, da estrada, que não era alcatroada, até à outra estrada de terra batida que fica em frente, até tinha as hortas naquilo onde hoje é a junta, a escola nova, o posto médico e as casas novas. Isso aí era tudo dele.

E então… insistia eu… Então… o senhor Graça, que tinha um negócio de café em Lisboa, uma torrefacção, e que mais tarde até teve outra no Vale, gostava muito da terra, a senhora dele também, e ofereceu aquele terreno para uma escola de meninas. Eles não eram de cá, vieram não sei d’onde. Mas gostavam disto aqui. Não sei é se o senhor ainda viu a escola construída…

De qualquer modo era preciso construir a escola… voltava eu a insistir. E a minha mãe… Ah, pois. Isso foi o Joaquim da Torre, um grande pedreiro, que fez a obra. Essa e outras obras grandes, que ele era um homem muito sabedor para essas coisas. Ele e outras pessoas que trabalhavam com ele… era assim como um mestre d’obras, como ele não havia cá nenhum… Olha, ele era tio do Zé da Torre, que aprendeu com ele o ofício… fez muitas obras no Vale, depois trabalhou muitos anos na Fonte Boa… bom, mas deixemos isso…

Foi por isso que a Escola ficou com o nome do senhor Graça… devia gostar mesmo muito da terra… pois, pois… foi um grande benemérito, concluía a minha mãe. Depois… a escola era para ser só para meninas, isso era o que queria o senhor Graça, mas acabou por ser também para rapazes… era um edifício mesmo preparado para aquilo, para ser escola… e até tinha uma parte para a professora viver lá, no edifício… e tinha uma coisa muito engraçada, que era, na parte mais alta, uma boneca em loiça… era bonita a boneca, em loiça castanha, via-se de cá de baixo… mas um dia houve um problema, é que as abelhas foram-se infiltrando nela, a certa altura já era um enxame, faziam lá mel e tudo… vai daí a boneca não aguentou, começou a estalar e caíu para a estrada… nunca mais houve boneca no ponto mais alto da escola… ficámos com muita pena… é verdade, mas então?!…

(Continua)

Comecei a publicar estes “contibutos para a história da Escola Primária do Vale de Santarém” exactamente no dia 7 de Outubro, a data que marcava o início das aulas no meu tempo de aluno da escola primária.

É raro passar este dia sem me lembrar, sobretudo do primeiro de todos os dias, aquele em que transpus a porta, para iniciar a 1ª classe. Tinha 7 anos. Na mesma data entravam também para a 1ª classe as raparigas e os rapazes nascidos no mesmo ano – 1946 – que em 30 deste mês vão reencontrar-se. Pela primeira vez. 58 anos depois.

MJSá

Escola Municipal Aristides Graça – Dois pisos: em cima as meninas, em baixo os rapazes
Escola Aristides Graça – parede frontal, onde se pode ver a placa

Autor: 60emais

Português.

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