CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – RE-ENCONTRO AOS 65 ANOS!

1946.

A guerra no mundo e os nossos pais a fazerem filhos. A mostrarem confiança no futuro, ou lá o que fosse. A Europa arrasada, o Japão com duas bombas atómicas em cima, uma desgraça imensa, mortos e mais mortos, destruição por todo o lado, e os nossos pais a tratarem de trazer ao mundo a descendência. A levarem à prática aquela ideia (conclusão, confirmada) de que durante as guerras, e sobretudo depois delas, há um impulso para… fazer filhos. E lá viemos nós. Os do baby boom, em 1946. Mais raparigas que rapazes, mas isso já era costume, e continuou a acontecer, quase sempre.

Nós, os que, sem sabermos, tínhamos cadernetas de racionamento em nossos nomes. O mundo de pantanas, fome e mais fome, também por cá, apesar de não termos entrado na guerra, e as cadernetas de racionamento como salvo conduto para o presente e… para o futuro. E, do cenário de morte, a eclodir a libertação da Europa, a libertação a atravessar o mundo, depois que os nazis e aliados foram vencidos. E a minha mãe a ir à loja, com as cadernetas do racionamento. A minha mãe. As mães, as mães sempre. Sem elas, as mães… e as cadernetas, nada.

O açucar, o leite, o azeite, o pão… tudo racionado. E a minha mãe a pôr rebuçados no leite com café, à falta de açucar. Isso. Exactamente. A minha memória mais remota desse tempo, teria pouco mais de dois anos. O café-com-leite a fumegar e vá de botar um rebuçado. De onde vinham os rebuçados?… que tinham um papelinho a embrulhar, que ficava colado e era um castigo para o fazer sair?… De onde vinham os rebuçados, mãe? Um destes dias vou-te perguntar isso…

De modo que… lá fomos crescendo. Encontrámo-nos na escola, na 1ª classe, naquele célebre dia 7 de Outubro de 1953. Aí sim, foi a primeira vez que nos encontrámos. Pelas mãos das nossas mães – as mães, sempre – ficámos entregues à senhora professora. Era morena, alta, bonita, sorridente. Vinha de Almeirim, dizia-se. Além da 1ª classe tinha também a 3ª. A aula começava às duas da tarde. E foi então que passei a conhecer… ora deixa cá ver… o Reinaldo, o Garcês, o Jaquim Rafael, o Ângelo, o Orlando, o Joaquim Júlio, o Rui Sá, o Chiquinho do Correio, o Isaac e… talvez a memória ainda me traga outros.

No mesmo dia, também de bata branca,  as meninas, caminhando como borboletas, ou era o que me parecia, a entrarem pelo portão de ferro, ao lado, depois tinham de subir uma longa escada, até chegarem ao 1º andar. Lá em cima, decerto a Dona Tomásia, professora de gerações, a pronúncia beirã no “vem cá minha menina…”. As meninas… a Vitorina, a Nélita, a Silvina, a Maria Adelaide, a Maria Helena, a Milita, a Maria João Cabral,  a Aida, a Lurdes Verniz, a Palmira, a Luísa do Izidro, a Engrácia e… muitas mais.

2011.

Fazemos 65 anos. Muitas coisas aconteceram nas nossas vidas. Alguns já partiram. Entretanto, aos poucos foram nascendo perguntas, desejos: Que será feito de?… Por onde andará aquela minha amiga?… Gostava tanto de saber do…

Perguntas. Desejos. A vida a avançar, o tempo a tornar-se pequeno, e nós com a cabeça no que fomos, no que vivemos com os outros como nós. Nós na idade do sem-importância, na idade da descoberta, do riso, apesar das ausências de todos os tipos, ausência de tanta coisa. Idade da fome e do frio. Do pé descalço e da côdea. Da solidão e da bofetada. E no entanto… queres brincar comigo? vamos jogar ao lenço? eu tenho um abafador novo… a minha mãe vai-me comprar uma boneca na feira dos Santos… Brincar, apesar de tudo. E o tudo era uma enormidade. 

Perguntas. A que vamos agora dar resposta. Desejos. Que vamos agora satisfazer. Que o dia chegue. Que venha depressa, que o desejo é imenso.  Vamo-nos reencontrar. Nós, os que nascemos no Vale de Santarém em 1946. Raparigas e rapazes. Lá estaremos, num almoço de convívio, em data a definir, mas certamente em Outubro, quando passam 58 anos do nosso encontro, pela 1ª vez, na nossa Escola Primária.

Não conhecemos o paradeiro de alguns. Quem sabe se, lendo este meu blog, não poderão chegar ao contacto connosco?…

O almoço é aberto aos respectivos cônjuges. Outros detalhes serão fornecidos em próxima publicação.

Entretanto, junto uma foto dos rapazes que entraram nesse ano para a 1ª Classe, na qual estão também os da 3ª Classe. Nós e a nossa professora. Dela guardo a mais positiva memória, como professora, mas também como pessoa que, com carinho, nos dava a aprender, a perceber, com alegria e encantamento. Tranquila, afectuosa, clara, luminosa. Sorria e fazia-nos festas, sem deixar de ser exigente. Dava-nos parabéns. As melhores cópias eram premiadas com pequenas histórias. Infelizmente, dela nada sabemos. Nem sequer o nome. 

Já falta pouco para o encontro-convívio. Tantas memórias que raparigas e rapazes de 65 anos vão partilhar nesse mágico dia!… E que ele se repita, muitos anos ainda!

Nota: em breve publicarei uma foto com as raparigas, a qual não chegou ainda às minhas mãos.

M.J.Sá

Alunos do ano lectivo 1953/54 - 1ª e 3ª Classes - Vale de Santarém

Autor: 60emais

Português.

2 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – RE-ENCONTRO AOS 65 ANOS!”

  1. A memória no seu esplendor! Bem hajas, memória, que nos deixas observar tão bonitos momentos, nessa partilha!

  2. Pois é. Já me tinha esquecido de que fui criança também; que no dia 7/10/1953 estava cheio de nervoso, quando a minha mãe me levou pela mão para a escola, vestido com uma bata imaculadamente branca; que estava louco de curiosidade para saber como era a “escola”; que nesse dia se iriam iniciar amizades que ainda hoje perduram.
    Foi bom (como é costume) ler a tua crónica. De repente esqueci-me das dores nas costas, dos spreads, da renda da casa e, aconteceu um “milagre”, recordei-me da sensação que tive ao folhear o meu (nosso) livro da 1ª classe e do deslumbramento das figuras – as letras ainda eram um mistério. Hoje, do alto dos meus 65 anos, confesso, fiquei emocionado.

    Reinaldo

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