A SOCIEDADE RECREATIVA OPERÁRIA DO VALE DE SANTARÉM

Em tempos idos, quem sabia tocar qualquer instrumento musical era chamado para animar bailes. Eram os que tocavam harmónio, os que tocavam guitarra, os que tocavam violino, gaita, pífaro… A quem tivesse uma sala maior, chamada “casa de fora”, era pedido que o baile fosse lá realizado. Tiravam-se as mesas, encostavam-se as cadeiras, havia quem trouxesse outras das casas ao lado, e assim se arranjava o espaço para a bailação. Tocadores e cantadores, por vezes só um, tinham um espacinho, talvez a um canto da sala, para a função. Isto era se o tempo estivesse de má catadura, porque se não o baile era mesmo na rua, frente a uma casa, ou num largo, ou até numa eira.

Baile queria dizer… baile mesmo. Pares a dançar, outros a ver, as mulheres-mães para um lado, os homens-pais para outro. Mas, para além do baile, o prazer da proximidade, a energia do contacto, o sabor do toque, a magia do olhar, o frenesi da iniciação, a timidez, a hipótese de tudo começar ali, na troca de palavras, no rubor das faces, na fruição breve, etérea, do momento indizível. E, no centro de tudo, sem se dar por isso, a continuação da aprendizagem da vida, no ritual do baile, no rodopiar ao sabor das valsas, polkas, marchas, modas de dois passos… por entre mirones, olhares atentos, cochichos, sorrisos, talvez também ciúmes… Tudo a continuar, ou a esmorecer, no dia seguinte, que era de trabalho. Árduo, de sol a sol, com calor, ou frio, ou chuva, ou poeira… conforme.

Até que… um dia, certamente trazida de fora, chegou a ideia de arranjar um lugar certo para os bailes. Era coisa que havia já noutros sítios. No Vale havia mesmo um Clube, para “gente fina”, que era como se dizia. Mas o povo queria um lugar seu para o baile. Para o baile e para outras coisas, que foi o que veio a acontecer depois. E foi dessa ideia que nasceu mais tarde a SOCIEDADE RECREATIVA OPERÁRIA, fundada em 2 Fev 1929.

SRO2

Muitos acontecimentos se deram na Sociedade, ao longo de décadas. Muitas foram as gerações de valesantarenos que viveram momentos únicos nos espaços da nossa S.R.O. Muitos jovens tiveram nos bailes e noutras realizações, os momentos primeiros de aproximação ao outro, ao namoro, que levaram ou não ao casamento, à família, continuando-se nos filhos, nos netos, nos bisnetos…

Gerações se sucederam, na aprendizagem da prática democrática das assembleias-gerais, no respeito pelas ideias e pelas palavras dos outros, na prática do voto, da decisão colectiva, da congregação de ideias e no planeamento e argumentar de projectos concorrentes para as eleições de corpos gerentes. Gerações e gerações que viveram com entusiasmo os momentos de grandeza, que sofreram nos momentos de tragédia que a S.R.O. teve ao longo da sua vida.

E no entanto… a S.R.O. sobreviveu. Está viva. Num tempo em que muita coisa mudou e vai continuar a mudar. Num tempo em que a voragem, a excitação, o frenesi, a velocidade, a eclosão e abandono imediato de ideias, de práticas de… coisas, é uma constante permanente, imparável, mobilizando jovens e adultos, com facilidade, para a adesão a práticas e formas de convivência novas, intensas, excitantes, fugazes, sem-parança. Que têm tendência para fazer abandonar o … que foi, o velho, o tradicional, soterrando-o na poeira dos dias… Sem dó.

Apesar disso, a Sociedade Recreativa Operária está viva. Quer dizer, a sua história continua, com as adaptações que os tempos têm solicitado. A S.R.O. está viva, prolongando a ideia, o esforço, a dedicação, o altruísmo e o muito querer de tantos e tantos valesantarenos que, no início de tudo e depois, até hoje, deram o seu melhor, enquanto sócios, enquanto dirigentes, enquanto cidadãos activos e interessados na continuação do que lhes é comum, esse património histórico riquíssimo, que é a sua colectividade, a mais antiga da terra.

SOCIEDADE RECREATIVA OPERÁRIA que faz parte também (e muito) da minha história pessoal, assim como de muitas raparigas e rapazes do meu tempo, hoje mulheres e homens na casa dos sessenta e mais. Como também de muitos outros, mais velhos ou mais novos, que certamente terão na mente aqueles bailes até de madrugada, felizes, irrepetíveis. Assim como as peças de teatro, os ilusionistas, os fadistas, com Fernando Farinha à cabeça. E as assembleias-gerais. E as eleições. E algumas rixas. E o diz-se diz-se. E os rapazes que vinham de fora, à conquista, e até conseguiam. E a GNR, que chegou a estar nos bailes. E os da Pide, que quiseram estar numa assembleia-geral e tiveram que ir embora…

Vêm-me à cabeça também as matinées – com gira-discos, ou a mulher do senhor Manuel sapateiro a tocar concertina, tardes inteiras – os bailes da pinha, os bailes das chitas, os do entrudo, do Natal, da Passagem de Ano, da Páscoa… E a Orquestra Danúbio Azul, aquilo é que era!… E outras orquestras e conjuntos. Ai, como é que se chamava aquele?…

“Queres dançar?…” Sim ou não… e eu ali à espera… Depois, o espelho, enorme, na sala, a mostrar-nos. A sala toda em movimento. Os corpos, num jogo sublime de pernas, de troncos, de mãos, de olhos, de mentes. E calores. E perfumes.

Pais à coca. Mães entre o incentivo – elas a voltarem anos atrás, a verem-se lá – ou com um olhar protector, à distância, ou até a darem ordem de “com esse não…” Porém, se fosse sim, lá íamos, para o dar de braços, o enlace, o apertar de mãos. Lá íamos, para o passe de dança, a fruição do momento, tão breve, a distracção gostosa a dois, o frufru de vestidos e calças e zás… desculpa, que lá te pisei… Até que… vinha o “damas ao bufete”… a ingenuidade, a singeleza de tudo aquilo, era assim, ou o que hoje me parece.

A SOCIEDADE RECREATIVA OPERÁRIA. Operária, mas só no nome, que albergava todos, sem distinção de qualquer espécie. O que terá sido uma vantagem, um suporte, um cimento, que ajudou a solidificar o que hoje permanece e, estou certo, vai perdurar. Assim queiram os seus associados. Assim queiram os valesantarenos. Oxalá! Para continuar a história.

História à qual vou dedicar a minha atenção, brevemente. Porque a S.R.O. e os que a edificaram e continuaram até hoje assim merecem. Porque este património, cultural e histórico, carece de ser relevado e lembrado. Para sempre. Para benefício dos que, sócios ou não, vivem ou venham a viver no VALE DE SANTARÉM.

Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

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