CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – O DIA DA ESPIGA

Ramo de espiga – copiado de Algarve Central.net
O trabalho parava, todo o dia ou só de tarde, conforme. Uns dias antes falava-se na coisa. As raparigas, com as mães a dizerem como era, ou a fazerem elas quase tudo (as mães, as mães sempre, as avós por vezes, se ainda pudessem pôr prego e estopa, se ainda tivessem voto na matéria…) as mães e as avós a passarem a tradição, a não deixarem cair o costume, elas a prepararem o dia, ou seja, qualquer coisa que se comesse, qualquer coisa que se bebesse, se mais não houvesse para beber ia-se buscar água às fontes da aldeia, a das três bicas lá p’ra cima, perto do Centeno, a da uma bica ali entre a Emilha Paulina e o Eduardo das Bicicletas, e estava o caso arrumado.

Dia de soltura, de iniciação, de aproximação entre rapaz e rapariga, se tal não tivesse começado já. De modo que, namorados ou não, os jovens lá se faziam ao campo, a maioria das vezes sem os pais, tios, avós… à ilharga. Quase sempre dia de sol, um ar fresco ainda, calor a sério a aparecer só mais lá para o verão. E no entanto, um desejo enorme de sentar na erva fresca, de deixar escorregar o corpo, pouco a pouco, até que se deitasse, sob os salgueiros, os freixos, e a água da vala, ainda correndo, um espelho sereno, enquanto nas margens as conversas, as primeiras conversas de aproximação, as confidências, as brincadeiras, a iniciação ao toque quanto possível, os rubores, hesitações, risos, devaneios de juventude, a experimentar, à procura, à procura…

No lanche, a toalha sobre a erva, uns bichitos por ali, enfadonhos, o grupo em volta, as raparigas a imitarem as mães, as avós… as raparigas a fazerem o lugar da mesa, assim improvisada, e a deixarem na toalha o que viera de casa, umas sandes, uns pastéis e outras coisas de comer, algumas surpresas pelo meio. Os rapazes… no seu papel, quase sempre, disfarçando com o cigarro que já lhes ocupa os dedos, o cigarro que lhes dá a quase pseudo maioridade, que os entretém… que disfarça o sem-jeito, que encobre o nervoso, fortes mas fracos, mas é assim.

Ia-se apanhar a espiga. Mas naquele meu tempo já não, ficava-se por ali, a certa altura a brincadeira a ganhar forma e raízes, mãos com mãos, ou tentativas, suores pelo meio, perfumes da terra e dos corpos a misturarem-se, ou era o que parecia sentir-se, a cesta da comida – ou o que fosse que tivesse servido para tal – já arrumada, junto a uma moita de feno ainda verde, e por detrás de outras moitas algumas mantas ou panos, ou lenços estendidos, e deitados ali alguns casais, formados como que por acaso, ou talvez não, olhando o céu ou o quer que fosse que andasse no turvo redemoinho das suas cabeças, o calor dos corpos a subir, porém olhares indiscretos, inquietações, alertas, avisos de oh Maria temos de ir, temos de ir, é melhor, é melhor… talvez ciúmes, talvez desejos, e o sol a cair, a cair, ainda há pouco aqui chegámos, oh!…

O tempo corre. Depressa. Ou somos nós que corremos, velozes, sobre ele? Nós. A nossa vida. Esta manhã saí à rua e pouco depois dei com a mulher do ramo de espiga, sentada no seu banquinho, na boca mais buracos que dentes, ela na venda do costume, só hoje e ponto final, p’ró ano há mais. E então, a vir-me à memória o que ainda é possível, o que ela, a memória ainda me faz reviver, e que é muito. Lá comprei, com gosto, os raminhos do costume: um cá para casa, mais um para casa de cada um dos filhos. Que têm eles a ver com a tradição, pergunto eu. Não sei, se calhar nada. Mas sempre fizemos assim. Parece que dá sorte, está ligado com a fertilidade, com o nascimento, o desenvolvimento, a força da terra, a força da natureza. Pois, isso… faz-me bem pensar assim. Mas tenho de saber de onde vem esta tradição e o seu significado… É melhor, é…

Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

3 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – O DIA DA ESPIGA”

  1. Só agora li sobre a espiga. Aí vão os simbolos :
    Espiga – O pão
    Malmequer – Ouro e prata
    Papoila – amor e vida
    Oliveira – Azeite e paz
    Videira – vinho e alegria
    alecrim – saúde e força
    Entrego-te virtualmente este raminho de espiga, que a abundância invada a tua vida !
    Manuela

  2. E eu que a recebo, com gosto prazeroso, correspondendo ao dito e ao teu estar comigo, que a vida é… o dia de hoje… uma vitória que se constrói todos os dias… é sal e é fermento, pão e a sua ausência, na boca e nas entranhas do pensamento… e amanhã é um novo dia, faça sol ou faça chuva, e vai ser preciso continuar o caminho, que só se faz…. caminhando.
    Abraço.

  3. Bonita crónica, amigo! O Dia da Espiga ou a Quinta-Feira da Ascensão é uma festa cristã que celebra a subida de Jesus ao céu. O povo, como sempre fez, apoderou-se dela e transformou-a numa festa pagã, que tu relatas admiravelmente.
    Abraços

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