CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – O PINHEIRO DAS AREIAS

O Zé Neves, a quem chamávamos Catitinha – alcunha que lhe ficou dos tempos de menino-rapaz, aprumado, a boa figura a sobressair, um certo ar entre o Elvis e um dos Everly Brothers – mandou-me há tempo o seguinte:

“Como prenda aqui te envio o certificado relativo ao símbolo que utilizas no blog: o Pinheiro das Areias. Como poderás ver, é o pinheiro manso com maior perímetro de base existente em Portugal. Dele tenho as maiores e mais gratas recordações da minha infância”.

(Ver “Árvores Monumentais de Portugal –Site do Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas)

Razões de prioridade levaram a que arquivasse, por um tempo, este e-mail do Zé Neves, que estou agora a resgatar. Para dizer mais alguma coisa sobre a nossa terra, o Vale de Santarém, lugar comum dos nossos dias do passado, quando crianças, adolescentes, adultos em formação a caminho de outros caminhos.

A nossa terra. Espaços, lugares, casas, recantos, esquinas, árvores, símbolos, até momentos do dia, épocas do ano, raios de sol, chuvas, tempestades, frios. E sons, silêncios, vozes, perfumes… e as memórias a borbulharem aqui, na minha cabeça. Que agora, passado o frenesi de outras ocupações, o tempo é de estar no presente, com o passado a reocupar um novo espaço na vida, porém burilado, transformado, adulterado, porque… é assim.

O Pinheiro das Areias, assim, com letra grande, como deve ser. Onde íamos por tantas razões, a primeira a acontecer-me quando fui levado por um grupo para ir lá, só isso. Porém, com os mais velhos no comando, saíu uma data de coisas de rapazes, a mais destemida das quais foi irmos judiar com a Mari da Serra, a velhota, vestida de negro, com uma chibata a querer dar cabo de nós, e a dizer que a bola não voltaria às nossas mãos, ai não, não. E assim foi.

Subir ao Pinheiro, trepar pelo tronco, uma aventura. Um desafio. Nós a medirmos a imponência do tronco. Uma coisa enorme, bruta. Uns de cócoras, a porem-se a jeito, para os outros treparem pelos seus corpos, até ganharem um apoio na casca rugosa. Houve até quem lhe cravasse uns pregos, para que pudéssemos subir mais facilmente. Depois, lá em cima, uma viagem de pé-após-pé, nós a pormo-nos mais acima, mais acima, um tremor nas pernas, é melhor… é melhor ficar por aqui e… descer. Para descer… só de marcha-atrás, novamente um desafio, até ao salto, para a areia.

O Pinheiro. Enorme. As ramagens formando uma copa soberba, a cobrir metros e metros, uma sombra descomunal na areia fina. O sol a surgir no horizonte, a subir, subir, pelo meio-dia a atingir em cheio a copa, quase na vertical, depois a tarde a começar, lenta lenta, verão quente quente, e nós a saborearmos a sombra, e um ruído a ouvir-se, quase uma voz longínqua, era o tocar da aragem da tarde nas agulhas da árvore, o ruído a fazer-se maior, como se fosse um mar…

Tardes de encontro, de convívio, de pouco comer e muito olhar, muito falar, muito querer amar. O sol a por-se, para os lados da Fonte Boa, e nós a termos de abalar, nós a termos de deixar a magia para o dia seguinte, talvez tudo pudesse, enfim, acontecer…

O Pinheiro das Areias. O pinheiro manso com maior perímetro de base existente em Portugal é este, o nosso, o do Vale de Santarém. Mas o Pinheiro das Areias está doente. Há uns tempos fui até lá. Um choque. Já me haviam dito, mas… foi um choque.

Aos poucos foram-lhe roubando a areia. Raízes a descoberto. Maltratado, o Pinheiro. Cortaram-lhe pernadas. A copa não é a mesma. Não cresceu. Diminuiu. Há animais, diversos animais em volta. Cheira a desprezo. A desrespeito. Asssim como acontece com as pessoas que, anciãs, são esquecidas, desprezadas, que o seu destino próximo é a morte, já não vale a pena…

Fotografei o Pinheiro. Fotografei, fotografei, fotografei… Uma das fotos é a que está neste meu blog. Desde o primeiro momento.

O Pinheiro. Ninguém saberá quantos anos tem, mas terá centenas, decerto. Forte, resistente, digno. Assistiu a milhares de dias, de sois, de invernos, de vidas…

O Pinheiro das Areias. Não há uma simples placa, ao menos isso, que diga qualquer coisa como: Pinheiro das Areias, o pinheiro manso de maior base de Portugal. Visite. Bastava uma simples placa, com uma seta, a indicar o caminho. Talvez houvesse quem, de fora da terra, quisesse ver aquele monumento da Natureza. Isso mesmo, MONUMENTO. De fora da terra porque, os da terra, já o conhecem. E alguns, infelizmente, não lhe dedicam a atenção, a protecção, o cuidado de que ele necessita. Antes pelo contrário. Isto para não falar nas entidades a quem, por dever, caberia tomar medidas para proteger este caso raro de envergadura e de longevidade de uma árvore admirável, fantástica, única, de entre os da sua espécie.

O Pinheiro das Areias. Ainda está vivo. Ainda viverá muitos anos. Vai sobreviver muito para além de nós. Nós, que não estamos a tratá-lo muito bem. O Pinheiro das Areias. Bem merece que um Grupo de Amigos tome iniciativas para o proteger. É só questão de pormos a ideia a caminho. Vamos a isso? 

Manuel

O Pinheiro das Areias, quando ainda não havia sido mutilado.
 
O tronco do Pinheiro das Areias

Autor: 60emais

Português.

Um pensamento em “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – O PINHEIRO DAS AREIAS”

  1. O Joaquim Pinheiro, meu amigo das andanças da Escola Industrial e Comercial de Santarém, mandou-me mensagem pelo correio electrónico que não podia deixar de trazer aqui. Diz ele:

    “Acabei de ler o teu artigo sobre o Pinheiro do Vale de Santarém. De facto, desprezado, tem a morte anunciada. Merecia que alguém lhe desse uma atenção especial. O pinheiro é uma árvore bastante resistente. Se não estiver atacado por umas doenças que andam por aí, pode ser que ainda dure mais uns bons pares de anos. Andei por aqui a ver se achava alguma coisa. Só me apareceu isto:

    http://www.arvoresdeportugal.net/

    Não vi grande coisa mas contacta-os. Na página inicial têm um pedido de informação de árvores monumentais. O Pinheiro do Vale cabe lá.

    O mês passado, no fim de um almoço/passeio, fui ver umas oliveiras perto de Pernes. Foi delas que, no século XVII, foram retirados os rebentos (não me recordo agora o nome técnico) que foram plantados no Brasil e pelas Américas. Todas as oliveiras velhas da América do Sul e Central, foram da nossa região. Há no Bairro de D. Constança, perto de Tremês, uma oliveira que terá perto de 2000 anos. Essa conheço-a”.

    Pelas achegas e, por mais uma vez, teres vindo visitar-me, grande abraço de obrigado Joaquim… Pinheiro.

    Manuel

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