CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – O TEMPO DAS SARDINHAS

Era ao romper da manhã. Na praça, a Rosária, a Mari Rosa, a Mari Mendes e o João Barbeiro aguardavam as camionetas da Nazaré, que deixavam os caixotes de madeira e, lá dentro, vivíssimas, as sardinhas. Vinha outro peixe, mas a sardinha era rainha, logo em fins de Maio. A praça a cheirar a maresia, a sal. A praça com vida. Cedinho, começava a azáfama, depois a disputa de todos os dias entre os quatro, cada um com os seus argumentos, modos de falar, artes de convencer, para ganhar e prender as clientes.

A praça. Que era o mercado diário da aldeia. Lugar único, quando não havia senão semelhantes praças-tipo mercado noutras aldeias, vilas, cidades. Para a massa, o arroz, o café, o carvão, as chitas, o sabão… para isso as mulheres iam às chamadas lojas, que eram as mercearias. Mas, para o peixe, iam à praça, no centro da terra, perto da Fonte das Três Bicas, ali mesmo encostadinha à escola primária.

A praça. Um quadrado, cobertura de folha-de-flandres, que só cobria as bancas. No meio do quadrado, olhando para cima, via-se o céu, sol aberto, ou nuvens, ou chuva, conforme. Vigas redondas de ferro, a suportar o telhado, onde por vezes, no ondulado da cobertura, os gatos se deliciavam com restos de peixe. As bancas, em cimento. Cada vendedeira a ocupar o seu pequeno espaço. Os caixotes, as balanças, os pesos. A separá-las, um rebordo também de cimento. Lá estavam elas, lado-a-lado, nem sempre de boa catadura umas com as outras. Pequenos arrufos, invejas, chega p’ra lá, enquanto… oh Maria, olha que sardinha tão linda, mulheri, anda cá, tens aqui da mais fresca p´rá tomatada, p’rá assar…

Havia, claro, bancas com outros produtos. Hortaliças, frutas, ovos, batatas, cebolas, algumas bugigangas. Mas, para mim, a praça era… para o peixe. Era a novidade, o que vinha de fora, apesar de o António Pescador, quando a vala levava peixe, se meter no barco mais a mulher e trazer de lá enguias, ou carpas, barbos, sabogas. Porém…

A sardinha, sobretudo. Por vezes alguma sarda ao lado, nas bancas. A sarda. Esverdeada. Raiada. Uns riscos às curvas, era o que eu dizia à minha mãe. Eu a perguntar… a sarda é a mãe da sardinha?… e a Rosária a rir, depois a explicar-me, enquanto amanhava o peixe, com rapidez, num frenesim, uma faísca permanente no olhar, as argolas a dar a dar, a palavra solta, um ar guerreiro vindo dos lados de Vila Franca, de lá saiu por amor ao célebre pegador de toiros, Edmundo de seu nome.

A sardinha. Por vezes algum carapau também, peixe para doentes, assim fui concluindo, pelo que se dizia, e o chicharro, azul, ou era eu que o via assim, o chicharro, com aquele grande olho que parecia de vidro, a fitar-me, na sua cara de pós-morte. E também a pescada – lá ia a minha mãe, a ver se a pescada dava para a dieta do meu pai, umas postazitas pelo menos, foi assim quase toda a vida, por mor de uma úlcera que ele jurava estar sempre assanhada. Tretas.

Mas a sardinha… de Maio até bem depois das vindimas, nas bancas, a atirar-se p’rós nossos olhos. Havia uma que tinha uma mancha amarela junto às guelras, outra que tinha uma mancha… encarniçada. Seria encarniçada? Ah, e as petingas, que nem sempre apareciam nas bancas, a minha mãe comprava-as poucas vezes, talvez porque as sardinhas enchessem mais, ou coisa assim…

Julho dentro e a minha mãe a ir à horta, a trazer tomates maduros, enormes, e a pô-los primeiro em água um pouco quente, só um tempinho, para ajudar a depelar. Depois, um a um, de faca na mão, a minha mãe a tirar-lhes a pele, e a seguir a tirar-lhes, com saber, a maior parte das sementes, a juntá-los à cebola às rodelas. Só isso. Mais um pouco de água, sal e… uma panela grande, o lume nem brando nem forte. Quando via ou lhe cheirava ser o momento, ou talvez as duas coisas ao mesmo tempo, ela a pôr as sardinhas, uma a uma, devagar, na panela, lado a lado, depois uma nova camada por cima, a tomatada ficava ali a ganhar corpo, as sardinhas a absorverem aquela nata vermelha, uma fusão, uma delícia completa, acompanhada com pão de mistura, ao almoço.

As sardinhas. Ainda as vindimas vinham longe e já era o tempo de as comer assadas, mais gradas, uma gordura inimitável a espalhar-se pela fatia de pão, o perfume a inundar tudo em redor… Íamos buscar molhos de vides, era só pô-los a arder, e logo as labaredas a fazerem um generoso brasido, o sal a estalar…

Era o tempo das sardinhas. Ainda é assim. Ainda bem. Embora a praça-mercado da minha aldeia seja agora quase só uma memória. Simplesmente.

Manuel

Autor: 60emais

Português.

6 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – O TEMPO DAS SARDINHAS”

  1. OH Manel olha que parece-me que ainda cheira a sardinha de tomatada com uma ou outra tira de pimento !
    A tua escrita é cor e odor.

  2. Manuel falaste e bem do mercado diário, mas há um tema que deveria ser explorado aí do Vale, a “Actividade Económica” dos anos cinquenta e sessenta. Mostrar aos mais novos o que foi o Vale, e no que está hoje, nesse tempo as pessoas eram todas ou quase todas “cinzentas” hoje são a cores mas o Vale está muito parado – a meu ver – um braço e boas sardinhadas.

    1. Muito importante o que dizes, José. Esse assunto e outros da nossa história, mais antiga ou mais recente, estão a ser trabalhados, aos poucos, por um grupo de amigos Vale-Santarenos que, a seu tempo, irá publicando/divulgando o que estiver em condições para isso. Contamos, aliás, com uma entrevista que ainda tivemos possibilidade de fazer ao teu falecido pai, sobre as suas memórias enquanto cidadão da nossa terra, depois de termos falado contigo para esse objectivo. Já fiz outras entrevistas e tenho mais para fazer. Está para breve uma divulgação pública desse grupo de cidadãos do Vale de Santarém que se juntaram e estão a trabalhar diversos assuntos, relacionados com o Vale: o seu passado e de suas gentes e o seu presente.
      Abraço.
      MJSá

  3. Uma vez mais obrigada Manuel Sà !pois au ler a tua cronica senti o cheiro et o sabor da sardinha que nessa altura era o prato dos pobres et igualmente o bacalhau ! Continua ( a nous faire rêver ) !!

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