CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – O 1º DE MAIO

Os homens iam à praça. Aos domingos, de manhã. Iam chegando à taberna do Baeta e sentavam-se, à espera de ofertas de trabalho. Isso era “ir à praça”. Chegava um capataz, olhava para os braçais disponíveis e propunha o negócio. Mas não era a olho. Podia precisar de gente forte, homens jovens, ou então de pessoal mais maduro. Os mais velhos, só sendo especialistas ganhavam o interesse do capataz. Quase sempre, eles, os mais velhos, mais os complicados, os fraquinhos… não suscitavam interesse por aí além. Iam sobrando, sobrando, até que um capataz os quisesse, talvez por menos tempo, talvez para tarefas menos importantes, talvez por salário inferior, talvez por…

Os capatazes diziam ao que iam. Anunciavam o tipo de trabalho, a duração e o preço que os patrões iriam pagar. Havia quem pegasse na proposta. Havia quem não estivesse interessado. Havia quem regateasse o preço. Havia quem dissesse por esse preço não devemos ir. Havia quem falasse, à boca pequena, a mobilizar os outros para o não. Temerários. Ou indignados. Ou com consciência, com missão política a cumprir. Porém, as necessidades eram muitas, o dinheiro fazia falta e na próxima talvez se ficasse sem trabalho …

Na taberna do Baeta, os homens a irem à praça. Ao domingo, de manhã, os homens com uma roupinha lavada. Na taberna, uma luz anémica. Sentados, nos bancos corridos, alguns homens. À conversa. À espera. Fumam. Outros, entretidos na sueca.  Em redor,  silenciosos, alguns outros. Mirones. Um calendário na parede. Humidade e cheiro a vinho. Moscas. Vozes. A nuvem de fumo a subir, a pairar sobre as cabeças. Um capataz a chegar a acordo com alguns homens e logo o Baeta a encher copos. Para eles. E o capataz a pagar. Era esse o ritual.

Um dia, os homens não queriam trabalhar. Era baixo, o salário proposto. No campo, as cheias haviam-se demorado como nunca. Ninguém entrara na lezíria quase dois meses seguidos. Chuva e mais chuva. A água, teimosa, nas vinhas. E os homens, sem ganharem tostão, na taberna do Baeta, a passar o tempo. À espera, à espera. Em casa, a comida a faltar. Maio, à porta. De Santarém, chegaram ao Vale uns estranhos. Vieram também alguns da guarda. Uns e outros andaram por ali, pela taberna do Baeta. E por outras.

Anos antes, o Manelzico a ir preso. A ser espancado. Porém, o Manelzico a resistir. Firme. Valente. Preso, por falar sobre certas coisas… proibidas. Preso, porque não se podia fazer… política… greve… e tantas coisas mais. Porque não se podia ser pessoa, cidadão livre. Então… o Vale, sob o olho vigilante da pide e da gnr. O Vale, silencioso. A aguentar-se. Porém, medo. E eu, a ouvir o meu pai, pela 1ª vez, a falar de 1º DE MAIO. Mas o que é isso, do 1º Maio, isto era eu a perguntar. E o meu pai, em sussurro, a dizer-me isto não se pode falar com ninguém… com ninguém, ouviste?… Um dia digo-te o que é…

O meu primeiro 1º DE MAIO. Foi assim.

Manuel João Sá

Ago2007 - 32 (2) (400x288)
Vale de Santarém-Rua Marquesa da Ribeira Grande. As portas de cor verde davam entrada para a Taberna do Baeta, próximo da Fonte de Uma Bica. Era aqui a “praça dos homens”, dos trabalhadores rurais, e foi aqui, também, o local de actos de reivindicação do horário de trabalho de oito horas por dia e outras acções dos trabalhadores.

Autor: 60emais

Português.

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