2011. CRISE. E QUE MAIS?

Falta pouco. Pouco mais de vinte e quatro horas. Vamos ter-te pela frente, Ano Novo.  E, para além da crise, que mais vamos ter?

Crise. Que muito antes de ser o que é, palpável, quase física, é primeiro que tudo outras coisas. Alguns a sentirem-na até à côdea que, afinal, já não têm, a viverem-na até ao frio que greta, faz dores e esfarela os ossos, a odiá-la até ao vómito dos dias de solidão, desespero e abandono. Outros, perdidos, porque espoliados, por ilusões que prometiam paraísos sem parar, que bom, vamos ter, e ter, e ter… agora a remoerem na encruzilhada das armadilhas em que caíram.

Crise. Que é, primeiro que tudo, no fundo no fundo, a ausência de cidadania, de sabedoria e da capacidade de duvidar, duvidar sistematicamente das sereias que cantam. Milhões e milhões de pessoas, mesmo no chamado mundo evoluído, com desconhecimento, crentes, cegos, iludidos por miragens, milhões e milhões nas mãos de artistas da prestidigitação, encartados, boa apresentação no vestir e no falar, cheios de palavras solenes, marketings sedutores, etc. e tal…

E no entanto… Ano Novo. Apenas mais uma volta de 360 graus que termina, outra vai começar. Talvez não valha a pena pensar que, por haver como que um ponto de chegada e um novo ponto de partida, seja forçoso encontrar nesta simples coisa um motivo ou um momento de reflexão. Talvez. Mas eu, que desde criança não consigo escapar a esta lógica da passagem de um ano a outro, sinto sempre que algo terminou, algo vai começar. Fechou-se um ciclo, abre-se outro.  

Mesmo sem nos empenharmos em saber o que dizem analistas, videntes e outros, mais ou menos especialistas na previsão de futuros próximos ou distantes, salta à vista que 2011 é apenas um período curto de um ciclo longo de dificuldades, para muitos insuperáveis, mesmo contando com as medidas dos poderes instituídos (coitados, tão arrependidos…) e as solidariedades, de todo o tipo, entre cidadãos.

Custa acreditar que, numa altura em que se assiste a tão avançado desenvolvimento em tão diversas áreas das ciências, abarcando vastas dimensões da vida do universo e do ser humano, num ritmo que cresce e vai continuar, nos tenhamos deixado enganar e nos precipitemos, com estrondo, em tão grave situação. Dir-se-ia que era impensável. Impossível.

Porém… foi possível. Quer dizer, mesmo sem sabermos onde “isto” ainda nos vai levar, nunca mais deveremos dizer que… é impensável, é impossível. E, muito menos, deveremos agir como se fosse impensável, impossível.

Foi possível. Possível porque estamos ainda, e estaremos sempre, provavelmente, aquém da preparação necessária, do suficiente saber colectivo, do saber avançado, da atitude consciente e da prática sistemática que sejam capazes de prever e combater as acções contrárias ao bem comum, por mais bem-intencionadas e embrulhadas que se apresentem.

Somos nós, pessoas, que fazemos ou não fazemos. Que pensamos, ou não. Que queremos, ou não. Claro, há as instituições, as organizações, os poderes, os líderes, os que têm dinheiro, os que movem influências, fazem chantagens… Há tudo isso. Mas tudo isso é construído, movimentado, exercido… por pessoas.

Portanto, esta é uma crise que não é senão uma crise originada por pessoas. Quais pessoas? Pessoas que dirigem instituições e organizações, que têm poder (es), que são líderes (ou que era bom que fossem, mas no sentido do bem comum) que têm dinheiro, que movem influências, que fazem chantagens… Muitas dessas pessoas escolhidas (eleitas) por nós. Ou colocadas no (s) poder (es) face à nossa demissão, ou ausência, ou… falta de assunção de cidadania. Não assumimos sermos cidadãos. Sim, é isso. Um problema. Eterno?

E que tal… se 2011 fosse um ano para pensarmos e agirmos como cidadãos de qualidade? Participativos. Activos. Exigentes. Colaboradores. Críticos. Com acção e com voz… Um objectivo de longo prazo. Que tem que ter um ponto de partida.

E eu. Quero eu assumir este objectivo? Quero?

Querer. Querer, a chave de tudo.

Manuel

Autor: 60emais

Português.

3 opiniões sobre “2011. CRISE. E QUE MAIS?”

  1. É, meu amigo, é isso.
    É de cidadania responsável que precisamos, e muito.
    Sabemos que durante a travessia alienada destes anos, ser cidadão de qualidade, participativo, activo, exigente, colaborador, crítico, com acção e com voz, passou a ter uma conotação – digamos – perigosamente extremista.
    Todos aqueles que não se ajoelham no altar do “politicamente correcto” são hoje considerados, no mínimo, de agitadores.
    Eles, os detentores dos poderes, verdadeiros artistas da prestidigitação, conseguiram a façanha (já antes conseguida) de transformar todo um povo de gente honesta, num bando de neófitos irresponsáveis, incapazes, vagabundos, marginais.
    Entretanto, perdeu-se o saber colectivo, ao mesmo tempo que crescia, exponencialmente, o individualismo egoísta. Apagou-se aquela chama que, mesmo bruxuleante, aquecia a vontade do cidadão agir para o bem comum.
    E o que restou dessa metamorfose da sociedade?
    Apenas a alienação colectiva, o desinteresse, a apatia, um vazio frio.
    E eles, os detentores dos poderes, sub-repticiamente, com boa apresentação no vestir e no falar e cheios de palavras solenes, dominaram-nos impiedosamente, roubaram-nos tudo: a voz, o querer, o pão, a responsabilidade, a integridade, a cidadania.
    Pergunta-se: Que fazer para reverter esta situação?
    Podia apresentar aqui algumas “soluções”, mas todas seriam uma fraude, porque hipócritas, porque “politicamente correctas”.
    Aquela que considero mais justa e eficaz (tu e muitos outros sabem qual é!) não a direi aqui e agora, porque o momento é de esperança de um ano novo melhor. Quem sabe se ela não estará contida na palavra: esperança?

  2. Esperança! Tu sabes, aquele velho poeta chamado António Ramos Rosa, tem um poema “danado”, como dirão os teus amigos do Brasil – se calhar o termo é aplicado com um sentido que não é o que penso que tem, mas enfim… – que se chama O BOI DA PACIÊNCIA. A certa altura ele diz que “a vida é uma vitória que se constrói todos os dias…”, mas mais adiante ele diz… bom, vale a pena ler.
    E então, brindemos a nós, e especialmente a ti, que és o primeiro a comentar, em 2011, um texto meu, aqui no 60emais.
    E continuemos!
    Abraço
    Manuel

    1. Como nunca, lembro uma palavra que tem estado em desuso – PACIÊNCIA !
      È verdadeiramente preciso estar em serenidade para que esta virtude se compreenda.
      Sobretudo nós, que viemos dum tempo em que se cantava – … vá vamos embora que esperar não é saber…quem sabe faz a hora,não espera acontecer…
      Manuela Marques

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