CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – O TEMPO DAS LARANJAS

Talvez oito e meia da manhã. Dezembro, no princípio. E o Natal nunca mais chega… isto sou eu a desejar que venha depressa. Minha mãe está levantada desde as cinco, cinco e meia, mas eu só vou dar pelos seus passos aí pelas sete e tal. Daí em diante, como de costume, acelera o passo, quase corre. Há almoços para acabar, para os que vão sair daqui a pouco. No fogão a lenha há também leite ao lume, no fervedor. Há café de cevada, que daqui a nada vai cheirar ao que é, e talvez o leite ferva tanto que transborde, fica o perfume no ar, na casa toda, e nós sabemos que a mãe fica arreliada. Ela a preparar o pão e a tirar a manteiga, ela a pôr as marmitas nas cestas de verga, e logo o leite a deitar por fora, e ela a dizer, oh rapazes, foi só um instantinho e pronto!…

Talvez oito e meia da manhã. Dezembro, no princípio. Vou para a escola, com a pasta de cabedal que o senhor João Correeiro me fez, que andar na 4ª classe já pede uma mala a sério, disse ele ao meu pai. Tenho umas botas de cabedal, daquele rijo, que me fez o senhor Manel sapateiro, ele a passar fio à suvela e a entreter os clientes com histórias do Benfica na era do Julinho, do Félix, do Chico Ferreira… 

Amanhã vais lá ao senhor Manel Sapateiro, p’ra ele tirar as medidas, ordenou meu pai. Lá fui. A dona Conceição, logo ao lado do sapateiro, à porta da sua loja de tecidos, ali como quem vai para a cabine. Na loja, chitas, flanelas, panelas, chouriços, banha, bacalhau, massa, arroz, batatas e… cadernos de duas linhas. Os melhores da terra, para as cópias. A Dona Conceição. Morena. Cabelo ondulado, armado em duas tranças amarradas atrás. Argolas pequenas nas orelhas e um cordão de ouro ao pescoço. Ela a movimentar-se, devagar, sempre, e o cordão a baloiçar, um pouco, no decote, que teria atraído olhares furtivos, em tempos.

Assenta aqui o pé… esticadinho, isso!… vá!… disse o Manel Sapateiro. Isto em Outubro. O calor a demorar a partir, e o Manel d’Oliveira, retardatário militante na vindima, ainda agora passou com a “caminete” velha, a tina lá em cima, as uvas a caminho do lagar. Pus o pé, descalço, em cima da folha de papel pardo. Ficou lá a mancha de suor, limitada pelo risco do lápis em volta do pé, ao passar pelo calcanhar o lápis deixou um rasto de cócegas. Pronto, já está, disse o senhor Manel Sapateiro, depois ele a dobrar o papel pardo, e a escrever, por cima da marca do meu pé, “filho do Manel Sá”, eu a enfiar as sandálias e a ouvir, agora vens cá provar… demorou-se ali um tudo nada, e continuou…  na semana que vem… pois, quinta-feira, tá bem?… vê lá se não te esqueces!… e eu, não senhor Manel, não esqueço…

Dezembro, no princípio, talvez oito e meia da manhã, aqui vou eu nas minhas botas novas de cabedal rijo, com solas de pneu. Já choveu, já fez frio, mas hoje… formou-se cá uma geada!… tudo branquinho… é a minha mãe a informar-me, quando saio à porta, do estado do tempo, que ela domina como ninguém. Caminho pelo carreiro, a descer, devagar, agora que estou a passar na greda que escorrega e se cola às botas. Até ali é duro o chão do carreiro, estala a geada quando ponho o pé, lá mais adiante tenho de limpar as botas no tufo de erva da regueira, se a geada não mo impedir, que as botas são novas e tenho opinião nelas.

Ainda não cheguei à regueira e viro à direita, que as laranjas do vizinho aguardam o meu ataque da manhã, e quando voltar da escola outro lhe hei-de fazer. Estou a avançar pela erva, que com a geada fica estaladiça, mas é um prazer ouvi-la a quebrar, a vergar-se ao peso dos meus passos em botas novas. Retiro duas ou três laranjas, laranjas da baía, ninguém há-de dar por nada. Vou descascando a primeira, vai ficar à minha volta aquele perfume que sei que chega ao nariz de quem estiver por perto, agora ou mesmo daqui a bocado. Vá, tens que te despachar daqui!… e retomo o carreiro.

As laranjas, em Dezembro. Amanhã, uns dias antes do Natal, nós, rapazes, a irmos aos pomares. O que é da tradição é irmos pela noite dentro, e trazermos de lá ramos de laranjeira com laranjas, grandes, redondas, bem amarelas. Actuamos como matilha, com prazer, e os mais velhos também hão-de subir à palmeira grande para cortar folhas, e nós havemos de ir à hera, que no Vale cresce em muitos lados e, para os lados da Quinta da Rebelas é mais verde, viçosa, brilhante. Há-de vir arame de qualquer parte, e com ele fixaremos as folhas de palmeira e a hera às colunas das duas fontes, a das Três Bicas cá em cima, junto à escola, a da Uma Bica, lá em baixo, encostada ao Eduardo das bicicletas. E, num enfeite que durará até aos Reis, ali ficam os ramos de laranjeira e, soberbas, as duas, três laranjas, que vieram, a jeito, de um pomar de alguém que, sem saber, colabora na tradição do Natal, no Vale.

Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

2 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – O TEMPO DAS LARANJAS”

  1. Companheiro

    Mais uma vez, esta tua crónica trouxe-me uma onda de nostalgia, daquelas que carregam o travo agridoce da saudade.
    E esta está recheada de factos já esquecidos.
    Achei deliciosa a imagem da medida das botas: ” o risco do lápis em volta do pé, ao passar pelo calcanhar o lápis deixou um rasto de cócegas…”. É verdade! Eu sentia o mesmo…
    E o roubo das laranjas da baía (de “imbigo”, como se dizia por lá) para a decoração das fontes no Natal, e não só. Lembro-me de como eram grandes e doces (contudo defendo que não temos memória gustativa, o que é um contrasenso).
    E a geada estaladiça das manhãs de inverno, e a película de gelo que se formava nas poças de água, termómetro infalíveis da época, e o cepo de Natal a arder…
    Continua a trazer-me recordações como essas, que eu agradeço-te.

    Abraços

    1. Por cá aparecemos e, um dia, damo-nos conta de que somos gente que, aos poucos, adiciona informação em si, sobre o que vê, ouve, sente… Guarda-se isso em muitos lugares íntimos de nós, tão íntimos que ainda andam, e hão-de andar, os mais sábios que nós noutras áreas, a estudar esta coisa que nós somos. Nós, o homem, a mulher, até outros animais. Depois, ainda mais complexo, a complexidade de cada um… a individualidade e a personalidade que lhe anda pegada, e que a projecta, à individualidade, no dia-a-dia. Bem ou mal.

      Bom, meu Amigo, meu Grande Amigo, é uma grande felicidade podermos falar do que já fomos, vimos, sentimos. Isto sem nostalgias (por vezes há um bocadinho disso…) mas sim neste exercício de viver. Um outro grande Amigo meu – Abel Magalhães, como estás, por onde andas?… – tem no seu cartão pessoal – aquilo que antigamente, parece, se chamava “cartão de visita” ou coisa assim – por debaixo do nome dele, o seguinte “Aprendiz de Vivente”. Sempre achei uma expressão muito… adequada. Sim, somos isso: aprendizes de viventes. Sempre. Mesmo que possamos falar das memórias, destas nossas memórias comuns. Que vão continuar a desfilar aqui. O passado. Ainda que a mente seja muito mais fértil, as memórias sejam muitas mais e ainda mais nítidas do que aparecem aqui, na escrita. Mas esse é outro fascínio, que é ao mesmo tempo uma enorme dificuldade,melhor uma impossibilidade: é que eu gostava de parar a mente para escrever o que a memória me vai trazendo, em golfadas de conteúdo e nitidez, mas, ela, a mente, ela a memória, são cavalos à solta… Assim, vou fazendo o que posso. Além disso, há também o futuro.
      Grande abraço.

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