CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – AS ALCUNHAS

AS ALCUNHAS DA MINHA TERRA

Não sei quantos anos teria quando comecei a perceber que algumas pessoas da minha terra tinham nomes que não eram… nomes. Por exemplo, lembro-me de toda a gente chamar Gimbrinhas ao farmacêutico. Mas isso era quando não estavam na frente dele, porque senão, ele que era pequenino e muito arrebitado, atirava-se a quem lhe chamasse tal coisa. É que, de verdade, o nome dele era Dionísio. A minha avó disse-me um dia: vamos ali ao senhor Dionísio da botica comprar a cânfora. A cânfora era pró reumático. Ora eu, ao chegar à botica, perguntei: avó, quem é o senhor Dionísio? Ela, que estava à espera de ser atendida, disse: é aquele que foi lá dentro buscar a linhaça para a senhora Inácia. Eu, que não estava a perceber nada, perguntei-lhe: então aquele não é o Gimbrinhas? Num repente, a minha avó fez um chiu que se ouviu até à entrada da aldeia, esticou um dedo na minha direcção, como se me quisesse furar um olho, e disse com a voz rouca de uma leoa assanhada: se voltas a dizer isso vais ver!…

Nunca mais chamei Gimbrinhas ao senhor Dionísio à frente da minha avó. À frente dele, muito menos. Aos poucos fui sabendo que o senhor Dionísio, por uma razão que nunca cheguei a descobrir, era para toda a gente o Gimbrinhas, embora ele não gostasse. E foi também a partir daí que passei a estar interessado nesta coisa das alcunhas. Tenho andado, até, a fazer um apanhado das da minha terra. E algumas são de se lhe tirar o chapéu. Como, aliás, acontecerá noutras terras.

As alcunhas são tão importantes na vida de uma comunidade, sobretudo nos lugares ou aldeias mais pequenas, que levam a que as pessoas sejam conhecidas muito mais pelas alcunhas do que pelos nomes próprios. Há até casos curiosos, como o que vivi há tempos, e que vou contar.

Tendo eu estado na tropa, em Angola, e procurando reencontrar um rapaz que lá esteve comigo, dirigi-me à aldeia onde, disseram-me, ele estaria a viver. Sem o número de telefone, sem saber morada, fui perguntar onde ele moraria em todas as tabernas, cafés e lojas , dizendo: o meu amigo chama-se José Andrade. Eu bem me esforçava. Até dizia que ele tinha cabelo encaracolado, voz grossa, pernas arqueadas, talvez fosse da minha altura, talvez tivesse 62 anos… mas nada. Depois disso tentei ir à junta de freguesia, mas estava fechada, era domingo, e não estava ninguém da junta na terra. Estava quase para ir embora quando vi três homens de mais idade debaixo de uma oliveira grande. Disse-lhes o que procurava. Eles tentavam, puxavam pela cabeça, mas iam dizendo: não senhor, não há cá ninguém com esse nome. Agradeci-lhes, fui na direcção do meu carro, e foi nessa altura que ouvi: espere, espere…oh senhor!… Voltei atrás. Quando cheguei ao pé do grupo, um dos homes dizia para os outros: oiçam lá, atão esse tal Zé Andrade não é o Zé Quintas, o filho da Hermínia Quintas, a que está casada com o Toino da Pederneira? E os outros dois, quase em coro, responderam: ah, pois é, o Zé Quintas, pois é… sabe, a gente cá não o conhece por Andrade, é o Zé Quintas… mas faça favor de não lhe chamar assim, senão…

Pois é, as alcunhas são uma realidade em todas as terras do nosso país. Se calhar também haverá alcunhas em terras estrangeiras, mas daquelas que há na minha terra posso eu falar. É que se algumas são normais, digamos assim, outras são originais. E outras são, até, um bocado ofensivas. Mas não é por isso que deixam de ser usadas. Vou só dizer algumas. Pela leitura, vê-se logo de que tipo são: se normais, se originais, se ofensivas. Algumas nem se percebe o que querem dizer. Ora aqui vão algumas: A Petinga, O Vai de Banda, o Escadote, O Sem-Picha, O Manel Caca, O Pipi Mania, O Zé do Bode, A Pata Cagada, O Marreca, O Moscambilha, O Sobe e Desce, O Pé Leve, O Sardão, O Deus Nosso Senhor, O João Aldrabão, O Cara de Chibo, A Isabel Marreca, A Mari Faz Tuda, O Caralheta, O Zé Encarnado, O Chico Sucata, O Tamanco, O Toino Parvito, O Fininho, O Saguim, O Comboio, A Preta, O Perna de Pau… e O Gimbrinhas, claro.

Bom, na contagem que fiz, já vou nas 270 alcunhas. Mas decerto ainda descobrirei mais algumas.

Manuel João Sá.

Autor: 60emais

Português.

5 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – AS ALCUNHAS”

  1. Companheiro
    Cá estou eu de novo. e a culpa é exclusivamente tua!
    Achei deliciosa a narrativa da tua ida com a tua avó ao «Gimbrinhas». Recuei a um tempo (já antigo), que é o tempo das nossas memórias mais puras, em que o mundo era assim, porque sim…
    Habituámo-nos a conhecer as pessoas pelas alcunhas que, aliás, os próprios ostentavam e usavam como se fosse o seu próprio nome. Hoje, temos dificuldade em identificá-las de outro modo. Para nós, serão sempre o «bebé», o «marreco», o «titi», o «crocodilo», o «cairú», a «tilinha», o «banana» e tantas outras alcunhas que povoavam o nosso quotidiano.
    Por estas tuas crónicas, só posso agradecer-te, comovido. Nunca imaginei que uma viagem ao passado pudesse ser tão agradável.

    Abraços

    Reinaldo

    1. Cá estamos, para este diálogo de sempre, que nos trouxe até aqui e que promete levar-nos, pouco a pouco, até onde vida houver. E o nosso passado, que convocamos, dia-a-dia para o presente, vai-nos ajudar a ir por aí, pelos caminhos conhecidos e pelos que ainda temos de desbravar, que ainda somos rapazes para isso, claro.
      É muito bom ter a tua opinião e companhia, que retribuo conforme posso e sei. Vou continuar nas histórias que nos são comuns. E essa é a forma que tenho de retribuir.
      Abraço Amigo.
      Manuel

  2. Um abraço ao Amigo Manel.Passo com alguma frequência pelo blog, para recordar com rapazes de boa memória tempos idos,recordações de um Vale que deixa saudades a qem passou por esses tempos.despertou-me especial atenção o tema sobre as alcunhas,mas fundamentalmente a recordação da tia Alexandrina, mas regressando ao tema em concreto, aqui recordo, o que por esquecimento te escapou. Então o Toino Fastudo,o Russo, o Ganilha,a Maria Meilitra,o Cavilhas,e o Franco com os seus sacanitos atados com um cordel aos artelhos.UM grande abraço do amigo “Segismundo”

    1. Meu Caro e Velho Amigo
      Mesmo que não estivéssemos em tempo de Natal, já considerava um presente de muito apreço teres aparecido a falar comigo, por aqui. Outro presente é dizeres que passas com alguma frequência pelo blog. Presentes destes são uma riqueza que não podemos desperdiçar, antes devemos manter e reforçar. E nós temos muitas e boas razões para o podermos e devermos fazer, enquanto vida houver.
      Também é muito reconfortante dares a tua ajuda, neste tema das alcunhas, como noutro qualquer, se assim desejares, pois as tuas opiniões, sugestões, críticas, enfim, o que achares por bem trazer até aqui, serão sempre bem-vindas e importantes. Vens muitas vezes à minha memória, porque foram muito felizes e intensas as nossas vivências na Escola, onde tu eras um dos melhores e mais aplicados alunos do nosso grande professor Fernando Jaime Soares Costa, mais conhecido por professor Costa, que foi um dedicado e muito sabedor formador de homens, na nossa terra. Foram gerações e gerações!…
      As alcunhas de que falas no teu comentário constam já do meu arquivo, com excepção doToino Faztudo, embora tivesse já a da MariFaztuda. Como eu disse, já tenho mais de 200 alcunhas e algumas pessoas do Vale têm-me dito mais uma ou outra, e assim tenho aumentado a colecção. A minha mãe, agora com 89 anos e, felizmente, ainda uma boa cabeça e memória, desencanta de vez em quando mais uma ou outra. Dela e do meu cunhado Vítor recolhi eu muitas dessas alcunhas, que fluíram no meio de conversas sobre , o Vale, as pessoas, a vida. Outras habitam comigo há muitos anos.
      Embora a minha mãe esteja desde há um mês e pouco num lar, quando eu estou lá a falar com ela, por vezes sem ela dar por isso diz mais uma dessas alcunhas. Então eu tomo logo nota, depois pergunto-lhe quem era, e a conversa estende-se, e em vez de uma alcunha nova, podem aparecer mais algumas. Esta colecção tem em vista algo que estou a trabalhar há uns tempos, mas que por agora não vou divulgar.
      A terminar: renovo o meu sentimento de surpresa e muito prazer com o teu aparecimento e o comentário que mandaste. O meu obrigado. Um dia destes combinamos encontro, pois tenho saudades e precisamos de falar sobre os nossos tempos, o nosso Vale e sobre aquela ideia de juntarmos o pessoal da nossa idade, rapazes e raparigas de então, pois essa ideia está por concretizar há muito. Volta sempre!
      Abraço.
      Manuel

      1. Olá caro avô já vi que andas empinhado neste site, E pelo o que eu li Até agora parece ser de muito interesse… Gostei de vêr o teu comentário E agora é tudo Xau beijinho 🙂

        Miguel Azenha

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