CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – MEMÓRIA DO TEMPO DAS VINDIMAS (3)

O meu pai já andou a fazer a limpeza na nossa adega. Durante meses, quase tudo esteve quieto, ali. Nos dias de inverno, ao fim-de-semana, fez-se a poda, depois foi a amoiroa, a cava e a raspa. Também se fez a descava, para a enxertia. Os molhos de bacelos para enxertar trouxe-os o meu pai, não sei de onde.

Quando as cepas começaram a ganhar folhas, deu-se a primeira cura com sulfato, e outras mais se seguiram. E nós a levarmos a calda, nos canecos, do tanque até ao meu pai e minha mãe, de pulverizadores às costas. A cura. Com sulfato de cobre, que põe tudo de cor azul. Também se andou a enxofrar, e nós, de canudo na mão, a lançarmos o pó amarelo sobre os cachos, ainda verdes.

A minha mãe andou a visitar a vinha, há uns tempos. Basta-lhe dar uns passos, e logo se vê entre cepas, tão perto estão da nossa casa. Como de costume, ela vai com o sentido de ver se tudo está normal. Detém-se junto de algumas cepas, com as mãos afasta a folhagem, e espreita para dentro delas, para observar o crescimento das uvas, ou se há moléstias à vista, por exemplo, se há sinais de míldio,  se…

Houve um ano em que apareceram umas lagartas vorazes, que roíam as raízes das cepas. Lagartas cinzentas, gordas, roliças, duras. Uma praga nunca vista. Atacavam as cepas, e elas definhavam. Era de noite que o faziam. Quando descobrimos o segredo, foi de noite que passámos a atacá-las. Andávamos de lanterna a petróleo na mão, se necessário à chuva e ao frio, e escavávamos, com sachos, junto às raízes.  Procurávamos com as mãos e lá apareciam elas, as assassinas, a que chamávamos roscas. Íamos de cepa em cepa, procurando roscas, com rapidez, com decisão. E com raiva. Até que um dia o meu pai disse: há um remédio… Trouxe o remédio, deu-se uma cura geral, depois outra, e as roscas desapareceram. Para sempre.

De modo que a minha mãe anda sempre à procura de sinais de anormalidade. Conhece cada cepa, cada zona da vinha. Sabe as que são de uvas brancas, as de uvas pretas e as poucas que há de uva roxa. Sabe as variedades. Sabe as que são para pendurar, e por isso não irão para o lagar, apanha-as antes da vindima. Olha para uma cepa e inquieta-se se está com mau ar, pode ser que esteja doente. Arranca uma erva aqui, um cardo acolá. Levanta os finos ramos das cepas, para que as parras protejam os cachos mais expostos ao sol. Ficam as cepas como se tivessem um penteado protector. E o sol mais duro já não entra ali.

Quase fim de Setembro. Agora, está tudo pronto. Amanhã, sábado, vai começar a nossa vindima. Talvez um dia chegue. Em anos de maior produção, temos de continuar no domingo, na parte a que chamamos vinha nova, aquela que eu vi plantar. A outra parte vem do tempo do nosso avô materno. Foi encontrado morto, num barroco, o avô Toino da Velha. Foi ele que meteu a vinha. Antes de ser vinha foi charneca, com pinheiros bravios, tojos, carvalhos, silvas… É um foral. Que vem do tempo em que havia reis.

Amanhã vai ser a nossa vindima. Quando o sol raiar, invadiremos a vinha. Cestos de vime, tesouras, canivetes, rodilhas… tudo tem de estar a postos. Para os mais pequenos, cestas de vime. E facas pequenas ou canivetes mal afiados. E haverá sardinha assada ao almoço. E estarão preparados molhos de vides para o braseiro. A minha mãe há-de sair mais cedo da vinha, para preparar o almoço, com a minha avó. Depois há-de chamar-nos, de lá de cima, junto à macieira a que chamamos pereiro,  para irmos comer. Talvez nessa altura estejamos entre a figueira de figo rei e as macieiras reguengas. Talvez. Se tudo correr bem. Quer dizer, se houver muitas uvas.

E o meu pai… o meu pai há-de ver e rever a altura das uvas no lagar… será que vamos ter mais que no ano passado? Há-de espremer alguns cachos, há-de deitar o mosto no canudo de lata e lançar nele o medidor de açucar, a que chamamos “pesa”. Assim, ao longo do dia, medição a medição, irá prevendo a provável graduação do vinho do ano. O meu pai… há-de surpreender-se, há-de fazer caretas, há-de ser agoirento, diz a minha mãe.

Amanhã, quase todo o dia, sol. Calor intenso, mas talvez umas nuvens, grossas, escuras ou assim-assim. De chapéu preto, o avô Alfredo, esguio, silencioso o dia todo, parecendo lento, largará um nadinha a tesoura, para deitar na mortalha o tabaco de onça. Depois, acenderá o cigarro e o fumo, lenta, lentamente, irá esvoaçar sobre a vinha, até desaparecer, só fica o perfume, muito tempo.

Amanhã, as cepas ficarão vazias. Vai fazer-me impressão vê-las assim. Amanhã e sempre que atravessar a vinha, até que as parras hão-de começar a ficar arroxeadas, depois doiradas, e a seguir chegam os grandes frios. E então, a vinha vai ficar despida, as cepas com galhos à espera que o ciclo recomece: a poda, depois a amoiroa, a cava, a descava, a enxertia, a raspa, a sulfatagem…

Um eterno retorno. Na vinha. Na vida…

Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

4 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – MEMÓRIA DO TEMPO DAS VINDIMAS (3)”

    1. Obrigado pela sua visita e pelo seu comentário.

      Diz o povo, “recordar é viver”. E diz bem. Aqui vou dando o meu contributo para isso.

      Abraço.

      Manuel

  1. A vindima, proveito de preocupações e de trabalho duro de um ano.
    Bem retratado, bem escrito.
    Jorge

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