CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – MEMÓRIA DO TEMPO DAS VINDIMAS (2)

É quase meio-dia. A minha mãe está a meter o tacho na cesta de verga. O tacho, o pão, uma colher, um garfo e uma pequena toalha. Fica tudo bem aconchegado. A cesta é mesmo à medida. A verga da cesta já está um pouco queimada do sol. Há um pauzinho redondo, preso por um cordelinho à cesta, que a minha mãe tem agora na mão, e que vai fazer passar por entre duas alças, de verga também. É assim que fecha a cesta. E diz-me: anda, vai lá… olha, não balances muito a cesta… pode-se entornar…

A minha mãe está com gotículas de suor, mesmo no centro da testa, onde tem um sinal. É de nascença, garante. Disse-me um dia, com ar grave: a minha prima, que morreu, coitadinha… era da minha idade… também tinha um sinal aqui… tal e qual… no mesmo sítio. Repetirá isto dezenas de vezes, pela vida fora. Dantes eu respondia qualquer coisa, como: eu sei mãe… Agora só oiço. E a minha mãe fica satisfeita.

É quase meio-dia. Desço a encosta, a correr, pelo carreiro que me leva ao Vale. Apesar da cesta, e do conteúdo, corro como um coelho. Não corro, salto. Tenho uma missão: esperar o meu pai, que há-de chegar à curva, e entregar-lhe a cesta. Ele disse-me: esperas-me ali à curva do Manel d’Oliveira… é na subida… sentas-te no “pial” da porta… quando vires a Tãmes, deve ser meio-dia e meia hora.

É a primeira vez que vou levar a cesta, com o almoço para o meu pai. Passo a Quinta da Rebelas, depois a curva do caminho para o Rio das Patas, e subo pela rua que começa no pombal. Chego ao sítio. Sento-me e ponho a cesta ao lado. Tenho as sandálias cheias de pó. Da cesta vem o perfume da carne de carneiro com massa, ou arroz. Uma dieta que ele  faz há anos. E que continuará a fazer, para vencer uma úlcera. Mais tarde já não precisará da dieta, mas está apanhado por ela. Tem medo de mudar. Comerá toneladas de carne de carneiro, pescada, massa, arroz.

Lá vem a Tãmes. Uma camioneta de carga, com uma cara feia, achatada, esborrachada, em cinzento-escuro, como as viaturas da tropa. Lá vem ela, devagar, a deitar fumo, a fazer a curva apertada à esquerda. Lá dentro só o meu pai, com uma camisola interior branca, de alças. O meu pai, a sorrir, queimado pelo sol. Encosta a Thames à direita, o mais que pode, e grita: anda, sobe!

A Tãmes não é Tãmes, mas Thames. É de origem inglesa. Tem nome de rio, que é o Thames. Mas isso é coisa que eu só irei saber daqui a alguns anos. Gosto dela, da Thames. É feia, mas gosto dela. Porque é diferente. É única. Tem o volante à direita. Tem umas mudanças que se fazem com um cabo enorme. O meu pai faz as mudanças com a mão esquerda. Ao fazer as mudanças, o cabo, a que o meu pai chama trambolho, bate numa tampa redonda, que é o que tapa o motor. O motor está dentro da cabina, ali mesmo por debaixo. Quando a Thames está a trabalhar, aquilo treme tudo. É um inferno ali dentro. Calor. Um barulho de engrenagens em toda a volta e dentro do nosso corpo. Até parece que as nossas entranhas são o próprio motor. O meu pai também gosta dela, mas trata-a mal. Chama-lhe cara unhaca, não sei por quê e o que isso quer dizer.

Anda, sobe!…Como a Thames tem o volante à direita tenho de entrar pela porta da esquerda. É uma porta alta. Chega-se à cabine pondo os pés nuns estribos, um cá em baixo, outro mais perto da porta. Levo a cesta. Abro a porta e o meu pai diz: põe aí, desse lado… aqui faz muito calor. Ele mete a mudança, acelera e arrancamos. À frente, a Thames tem os vidros do pára-brisas afastados. Há uns ganchos, que estão levantados e que suportam os vidros, de modo que, ao avançar, o vento entra por debaixo e acerta-nos no peito. É bom, para o Verão. Entre mim e o meu pai há a tampa do motor. Quer dizer, estamos separados, na cabine, por uma coisa que parece um cilindro de lata. Devo estar admirado com uma série de coisas. O meu pai olha-me e sorri.

A Thames leva duas dornas. Olho através do vidro da cabine, para trás, e vejo as dornas cheias de uvas. Vamos para o Cartaxo, para a adega cooperativa, diz-me o meu pai. Vais ver o que é uma adega grande… vais ver, e eu… tá bem… Com o vento, vem um calor diferente.  Mesmo assim, é melhor este vento do que o sol que andam a apanhar as mulheres lá no campo… isto sou eu a dizer para os meus botões.

Ontem, lá na vinha grande atrás da tapada, o meu pai chamou uma rapariga mais nova. Disse: ó … Mariana!… A Mariana veio caminhando, devagar, até nós. Trazia os olhos no chão. Respondeu: diga, senhor… E o meu pai: quero apresentar-te o meu rapaz… e ficou a sorrir, a ver no que dava. Ali ficámos os dois, um e outro sem nada para fazer ou dizer, até que ele pôs fim à situação:  bom, vai lá trabalhar. E ela foi, os pés nus, a caminhar pelo pó escuro, entre carreiras, até às cepas por vindimar.

Além da Thames, dezenas de camionetas, num vaivem de manhã à noite, entre as vinhas grandes e as adegas. Uma camioneta a carregar, na vinha, e outra em viagem, a caminho da adega. Além da Thames, o meu pai anda também com a Ford. Essa é bonita. Tem uma grelha à frente, em verde, com lâminas pintadas de amarelo. O resto da cabine é verde escuro. Ele diz-me: amanhã, quando vieres trazer o almoço, se calhar trago a Ford. É uma V8… sabes qual é? E eu: sei, sei… e também traz duas dornas?… Pois claro!… diz ele. Adianta: anda mais, mas esta tem mais força…

Chegamos ao Cartaxo. Estamos a virar para o lado da adega cooperativa, penso eu. Chegamos. Há uma fila de mais de dez camionetas. O meu pai salta da Thames e diz: esperas aí…  vou ver como está isto. E foi. A Thames parada, a descansar, penso eu, que já trabalhou muito. Calor. Na cabine e fora. Moscas, abelhas e vespas sobre as uvas. O cheiro a uvas cortadas. Mosto na estrada. As camionetas, ao avançar, é como se passassem por cima de melaço. E oiço: djiiiiiiii…

Estou a olhar para diante. Lá vem o meu pai, peito a sobressair da camisola branca com alças, cabelos a cair para a testa. Grita: vamos almoçar! que isto vai demorar… e ali ficamos, debaixo do sobreiro, até que veio a ordem para avançar…

Autor: 60emais

Português.

3 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – MEMÓRIA DO TEMPO DAS VINDIMAS (2)”

  1. Vejo, oiço e sinto a tua escrita colorida com bagas de suor e poeira das estradas. Oiço as vozes no calor do dia, o praguejar, e vejo-te miudo a observar, a registar, a colar aos olhos retratos de outro tempo.
    Parabéns Amigo e obrigada por esta viagem ao passado que se faz hoje porque tu escreves e eu leio.
    Abraço
    manuela m.

  2. Obrigado, Geninha. É o meu contributo simples para ajudar a compreender a comunidade que fomos e que, pelo menos para os da nossa idade, ainda está presente.

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