CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – MEMÓRIA DO TEMPO DAS VINDIMAS (1)

As nuvens altas. Castelos formando-se, ao longe. Vêm do Alentejo, dizia a minha mãe. Sempre a mesma coisa, e isto dizendo demorava-se a olhar o lento caminhar dos novelos, lá no alto, são de algodão-em-rama, era eu a dar o meu parecer, sem ninguém me ligar. E o calor. Mas um calor que já não era do tempo dele, sentia-se, mas eu não sabia explicar isso. Só sabia que era um calor diferente. Havia dias em que parecia que olhávamos tudo através de uma gaze, noutros as nuvens lançavam enormes sombras deslizantes sobre tudo, sombras sobre o Vale, mais ao longe sobre a cidade, e até sobre a serra azul, em Montejunto. O ar pesado. Irrespirável. E eu a querer que a trovoada desabasse. Como uma libertação.

As nuvens altas. O calor. E a Ti Mari da Velha a olhar de través o horizonte, a rogar pragas. Pequena, só genica, a puxar das entranhas, com um ronco, um bocadito de cuspo esbranquiçado, quase só espuma, e a atirar aquilo para a frente, contra o pó do macadame e a dizer, cá estão elas, as malvadas. As malvadas, eram as nuvens… traumente vão dar cabo das uvas, as filhas da puta!… oh Manel, e se fosses apanhar ervas p’ra tapar as uvas, em vez da taberna, homem?… rais ta parta!…

Trovoadas, no horizonte dos dias. As noites, porém, já um nadinha frescas. Trovoadas. Para as vindimas, melhor secas que molhadas. Relâmpagos ao longe, depois aproximando-se, aos poucos, daí a nada uns pingos grossos, aqui, ali. Por vezes, um trovão mais forte. A seguir, silêncio e… cinco, dez minutos, meia hora de pingos redondos, enormes. E chuva intensa. Assim sendo, uvas arrancadas das cepas, esgalhadas, e parte da colheita no chão.

No Vale, as carroças a caminho dos lagares. Chegando à fonte-das-três-bicas, os homens a conduzirem os animais à pia. Ofegantes, lentos, os animais a sacudirem as moscas, com o tremer da própria pele, e a sorverem litros e litros de água, à mistura com roncos saídos das profundezas dos seus corpos luzidios. Músculos e suor. E moscas.

Começando a subida, os homens do Casal Doiro, a terra próxima, a puxarem também as carroças. Os animais a firmarem nervosamente os cascos, o alcatrão a escaldar, os homens ao lado deles, nos varais. Na parte mais íngreme, os rapazes a esperarem as carroças. Lá vinham eles. Homens e animais. Lado a lado. Tão íngreme, a subida. E o sol, desdenhoso, a lançar mais calor. Pequenas labaredas, fugidias, sobre o alcatrão. E os animais, ofegantes, com a cabeça a dar-a-dar. Chegando à curva, nós, por vezes a ajudarmos, pelo empurrão na traseira, ou puxando também ao lado dos animais. Outras vezes, nós, sacanas, a subirmos à carroça, só pelo prazer de furtarmos um cacho da dorna, contra a fúria de homens e animais, alagados em suor e sofrimento.

Sobre a lezíria, as nuvens altas a concentrarem sob si o calor. Pelas duas da tarde, um sol abrasador. As vinhas, carreiras paralelas, longas, longas, a ocultarem mulheres, em grupos, que parecem bandos de formigas que escarafuncham as videiras. Ouve-se o tic-tic das tesouras, os cachos a cair, nos cestos de lata, com um som quase não-som, por vezes uma conversa aqui, uma cantiga acolá, tudo para que o tempo passe e o calor se vá. E as mulheres, cestos cheios, a erguerem-nos até à cabeça, a assentá-los sem custo na rodilha, que ali se enrola, mãos lestas, num farete.

As mulheres. As mulheres sob as nuvens altas, espessas, enormes, ora brancas, tipo algodão-em-rama, ora cinzentas, daqui a pouco a puxar p’ró negro, medonho. As mulheres, vindas dos lados da Benedita, talvez de Turquel, ou de Venda-das-Raparigas, ou de casais dispersos, distantes entre si, porém tão iguais, em tanta coisa elementar, que é precisa para a vida, mas que lhes falta. O que mais têm é… a falta de quase tudo.

As mulheres. Arrebanhadas por um capataz, ele próprio contratado pelo grande agricultor, por um mês, talvez um pouco mais. As mulheres, jovens, algumas quase crianças, a saírem com lágrimas de casa dos pais, para a viagem até ao Ribatejo, em camioneta de carga, durante a noite. Têm de se deitar, por causa da guarda, dizem-lhes, e elas assim fazem, quilómetros e quilómetros como gado, a granel. Em silêncio. E lágrimas.

As mulheres. Dias e dias de sol. Suor. Cansaço. Talvez nuvens. Talvez chuva. E também sorrisos, e cantigas, em corpos doridos. Talvez carta da mãe, talvez carta do rapaz. Para ler à tardinha, se souberem ler. Para dar a ler, se não souberem.

As mulheres. Depois do comer, a noite a chegar e as mulheres a estenderem os corpos, lado a lado, na esteira que faz de cama. Traz o nosso cobertor, era uma a dizer. Um singelo cobertor para duas, contra a humidade da madrugada. Que amanhã, é tempo de vindima. Que o trabalho amassa o corpo. Que o sol queima a pele. Que o calor seca a alma. Até que a adiafa há-de chegar. Enfim, a emoção de partir. Regressar à terra. Para… talvez p’ró ano possa vir outra vez. Talvez….

Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

5 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – MEMÓRIA DO TEMPO DAS VINDIMAS (1)”

  1. Boa tarde!

    Não pude deixar de comentar este texto, não só porque retrata um pouco do que se passava nesta nossa tradição tão antiga que são as vindimas, mas também pela forma como esse “retrato” nos é transmitido. Ao ler este texto senti-me “transportar” para o lugar onde tudo se passava e apesar de nunca ter presenciado um momento igual sinto uma crescente admiração por aqueles que o faziam e continuam a fazer. Para além disso sou apologista da divulgação e do relembrar das nossas tradições, que são tão ricas e tão importantes para a identidade do nosso povo e do nosso país.
    Agradeço-lhe também este partilhar de memórias e experiências que estou certa serão sempre úteis para todas as gerações.

    Melhores cumprimentos,
    Cláudia Silva

    1. Cláudia, agradeço a visita e o comentário. Ainda bem que esta publicação lhe pôde dar esse “transporte” para o lugar onde tudo se passava.
      Tudo de bom para si.
      Manuel

  2. E as carroças a passarem no alcatrão negro, negro como breu, que derretia com o calor e onde nós moldámos os pés; e o sulco de mosto na estrada, tal como a esteira que um navio deixa no mar; e o cheiro do mosto que perfumava o ar; e as moscas irritantes, por todo o lado; e o roubo das uvas nas tinas das carroças, sempre seguido pelo grito de alguém: chicote atrás!; e o pisar das uvas no lagar, atolados até às virilhas…; e os risos; e a alegria; e a pureza dos tempos que já não voltam.
    Obrigado por me fazeres recordar.
    Abraços

    1. Pois , meu amigo. Companheiros e protagonistas das mesmas realidades, como se estivessemos l, naqueles tempos, que para ns so tempos de hoje, to impressivas as memrias que deles nos ficaram. Para sempre. Obrigado pelo teu comentrio, que me trouxe, de novo, o ambiente, as cores, os sons, os gestos, as tradies… Abrao.

  3. Obrigado meu amigo Sà pelo filme que me fizeste reviver, filme com muitos atores , no qual eu participei pois sao cenas inesqueciveis que jogavamos uma vez pour ano et eu queria meter uma outra com os meloes muito mais dificil pois eram tranportados en tractores et pequenas camionetas et nos a rapaziada de baixo os nossos pontos estrategicos era a passagem de nivel et a fonte de uma bica pois eram obrigados de relantir et là os coyboys sem cavalos et sem armas atacavam a diligencia !! muito obrigado et un grande abraço !!

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