A PAPELARIA FERNANDES DA MINHA MEMÓRIA

1957. Fiz exame de admissão. Fiquei bem. Dizia-se assim, ficar bem. Só mais tarde soube que o termo a usar poderia ser outro. Passar. Ou Chumbar. Portanto, ao passar, em Outubro iria entrar para o Ciclo Preparatório. De modo que, tendo ido para Lisboa, nas férias, a minha tia tenha decidido dar-me, entre outros, um presente especial. Ela disse: ficaste bem… mereces um presente especial. E eu fiquei à espera.

Estive lá em casa mais de três semanas. Era num 3º andar, da Praça das Flores. Subíamos, subíamos, uns degraus de madeira velha mas secos e sãos, um corrimão para ajudar na íngreme caminhada, até que aparecia uma porta larga, castanha, um postigo por entre frestas verticais, uma chave a rodar, com um ruído único, que ainda me está cá dentro, algures. Nítido. As chaves umas contra as outras e contra a madeira da porta. E um cheiro a casa velha, com história. E o sorriso da minha tia, por entre as frestas.

A Dona Umbelina vivia lá. Era a dona da casa, de onde só saía uma vez por ano, para ir até à terra, p’rós lados do Fundão. Quinze dias. Ia por causa das frutas e da água, dizia ela. Tirando isso, nunca saía à rua.

A Dona Umbelina alugava uma parte da casa aos meus tios. Então, os meus tios moravam numa parte de casa. Era assim que se dizia – moro numa parte de casa. Um quarto, uma sala virada para a praça, com varanda. Um luxo. E uma parte esconsa, onde eu dormia. Ah, e também nos servíamos da cozinha e da retrete da Dona Umbelina – estava no contrato. 

Com um quarto esconso, uma varanda para a Praça das Flores e uma retrete, sentia-me ali um privilegiado. O banho… o banho era num alguidar enorme, de zinco, com fundo de madeira, que se punha no quarto esconso – era preciso fechar a minha cama, que tinha o colchão assente numa rede de arame grosso.

Então, com tais comodidades e o aliciante do bulício da praça – sobretudo os pregões das peixeiras, pela manhã – a grande excitação estava à volta do tal presente especial. Até que veio o primeiro sábado das minhas férias e a minha tia me disse: hoje vamos ali à papelaria ver uma coisa… 

Subimos pela Marcos Portugal, depois pela Imprensa Nacional, a seguir virámos à esquerda, ao entrarmos na Rua da Escola Politécnica e, aí chegados, perguntei: tia, onde vamos? Vamos ao Rato, disse-me. Eu, que não sabia o que era isso, do Rato, perguntei: mas qual Rato?

Andámos mais uns metros e a minha tia disse: vamos à Papelaria Fernandes… vamos comprar o presente para ti… vais precisar, agora que vais para a nova escola.

Chegámos ao Largo do Rato. Movimento de carros, eléctricos, autocarros. Pessoas nas compras. Um cheiro a fritos. Um cauteleiro a dizer: há horas de sorte. Nós a entrarmos na Papelaria. E eu a dizer, para mim: nunca vi uma coisa assim. 

A minha tia disse ao que ia. O senhor do balcão sorriu para mim e disse: parabéns… então queres um compasso… já vou trazer. A verdade é que eu não tinha dito nada à minha tia sobre aquilo, do compasso. Eu nem sabia o que era um compasso. Nem sabia se iria ser preciso para a escola nova, como acabou por ser. Só que a minha tia, que tinha só a 2ª classe, ouvira dizer que sim, que era preciso…

O senhor trouxe três caixinhas. Eram pretas e sobre o comprido. Forradas por dentro, também a preto. Tinham, numas ranhuras mesmo à medida, umas peças encaixadas, reluzentes. Um espanto… O senhor disse para que serviam as peças e depois mostrou como se montavam.

O senhor foi muito simpático. Aconselhou a minha tia a escolher uma das caixas, e depois fez um embrulho com laço e tudo. Por fim disse: toma rapaz… ainda bem que a tia sabe do que tu precisas para a escola.

O compasso durou muitos anos. Não tantos como a memória da Papelaria Fernandes: da loja, na primeira vez que lá entrei, e da qualidade do atendimento daquele senhor. Memória que se prolongou pela vida fora, sempre que lá voltava, algumas vezes talvez só para recordar esse momento histórico do primeiro compasso…

Nós, cá na família, somos clientes fiéis da Papelaria Fernandes. Ainda não há muito, foi lá que comprei algumas coisas para mim e para os meus netos, inclusive um globo com iluminação interior, para o Miguel. Agora, tempos terríveis, a Fernandes está… mais próxima do fim, dizem as notícias. Ou seja, a empresa, os accionistas, os trabalhadores… perante um futuro doloroso.

Como se chegou aqui? O que não se deveria ter feito e se fez?  O que se poderia ter feito e não se fez? Ou estas perguntas não têm qualquer cabimento?

Segundo diz o administrador, vão-se manter as duas lojas mais simbólicas – a do Rato e a da Rua do Ouro.  

Oxalá. Porém, é grande a perda: para os accionistas, para os trabalhadores, para os clientes. E para o País.

Manuel Sá

Autor: 60emais

Português.

Um pensamento em “A PAPELARIA FERNANDES DA MINHA MEMÓRIA”

  1. Também eu passei, minutos, uma ou outra hora completa nessa emblemática Papeplaria. Nos tempos da Faculdade ia lá todos os começos de ano, renovar o material escolar, comprar mais fichas para os sagrados ficheiros de Línguas, tudo catalogado, por ordem alfabética. Ainda antes, nos tempos em que achava que poderia seguir Artes, ali passava horas, a escolher tudo, papel vegetal, papel de Cenário, lápis a Carvão, vários, canetas, borrachas especiais… Era cara, a Papelaria Fernandes, e única. Não havia cá confusões histéricas de hipermercados (onde tudo é hoje mais barato, é certo, mas comprado à lufa-lufa, para não perder o lugar na fila).
    Ali, passávamos os olhos por verdadeiros tesouros, papel enrolado que parecia vir de outros tempos, de outros mundos, blocos e mais blocos, caixinhas com lápis, vários modelos,ordenados por número. Postais de aniversário e de Festas cheios de cores. Outras cores, com outro sabor.

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