NA A25, EM 23 DE AGOSTO DE 2010

A chuva. De súbito, a chuva. Uns pinguitos sem jeito, eu a estender a roupa e, de repente, a chuva. Molha-tolos? Ou algo mais? Estico o braço. Lá ficou o braço esticado, p’ra ver se a coisa era a sério, e nisto a vizinha de baixo a tirar a roupa dela do arame e eu, a concluir, se uma mulher o faz, tu, que não sabes nada desta poda, alinha por ela. Ponto final, tirei a roupa. Ah, e antes tirei o braço.

Visto isso, onde é que está o estendal? Sim, esse de armar na varanda?… Há que tempos que não o usas… está, está… eu sei lá?!… Voltas e mais outras e… ah! na varanda, pois claro. E lá estava. Ao pé de uns sacos. Uns sacos com livros. O costume. Uns livros em fase de rearrumação. Há uns tempos ali, os livros. Portanto, vá de mudar a roupa para o estendal de recurso.

A chuva. Em Agosto. Quando acontece, parece sempre que vem cedo demais. Na aldeia, começava logo a cheirar a vindimas. Umas nuvens, uns calores húmidos, hoje, amanhã e zás, uns pingos a cair. Uns pingos  parvos. Os pingos, a cair a despropósito, e a minha mãe, testa enfernizada, a dizer, p’ra que será isto, só p’ra fazer mal, daqui a nada as uvas a estragarem-se, naturalmente, e o meu pai, espírito de contradição, ou lá o que era, deixa lá, pode ser que engrosse as uvas, dá mais vinho… há-de ser, há-de… isto era a minha mãe a começar uma discussão que durava até… ao fim da vindima. 

A roupa toda no estendal de recurso – é sempre pequeno para uma máquina de roupa, muito mais pequeno se há toalhas de praia a estender – e eu a ligar a televisão. Não sei porquê, mas deu-me p’rali, p’ra ligar o aparelho. Nisto… mortos e feridos na A25. Pois… A25, ou seja, aquilo que era o IP5, que deu no que deu, enquanto não foi A25, mas que ainda não é uma auto-estrada a sério. Nevoeiro. Choques em cadeia. Nevoeiro e chuva têm contributo nos acidentes, dizem na televisão. Mas não só, penso eu.

Não me apetece jantar em casa. Saio. Vou ao restaurante do senhor Manel, digo para comigo. Na praceta, silêncio. Silêncio e os pingos parvos, sem jeito. Olho em volta. Prédios sem luz. Quer dizer, conto os andares, e vejo que um ou outro estão iluminados, mas só em parte.

Prédios tristes. Desabitados? Gente de férias? Estão todos a ver a televisão, os mortos da A25 e… todos os televisores, na casa deles, estão do outro lado dos prédios, de modo que por isso não se vê luz?… Fim de dia triste, este. Lá vou, por entre prédios sem luz. Sem gente. Tristes. Levo as imagens dos acidentes na cabeça.

O senhor Manel diz-me: os filetes já acabaram. Também não queria, pensei, mas não lhe disse. Preferi antes dizer, obrigado. Lá estive. A televisão a debitar informação, informação, os reporteres a cumprir a função deles, muito bem, todos molhados, enquanto isso as câmaras (quem estava por detrás delas, ou quem punha as imagens no ar…) a não resistirem a mostrar corpos, vidas que já foram, e em rodapé: dois dos mortos são crianças.

Há sempre esta coisa de eles entenderem que é bom, ou correcto, ou informação com mais impacto… falarem nas crianças. Na mesa em frente houve logo quem tivesse ficado apanhado pelo destaque e, vai daí: duas crianças, coitadinhas… Podiam ter dito: tantos homens, tantas mulheres, tantas crianças. Mas não. Só destacaram as crianças.

O senhor do lado, bem mais de setenta, é acarinhado pelo empregado brasileiro, cheio de samalaleques. O senhor diz qualquer coisa, inaudível. Minutos depois, o empregado traz-lhe um prato com bife e ovo lá em cima. É o que consigo ver, por entre um monte, enorme, de batatas fritas. O senhor do lado come as batatas fritas. Todas. Só depois se atira ao bife, por fim ao ovo. Come depressa. Antes de se levantar, olha para o televisor e diz: coitados. Vai a sair, olha para mim – reparo que tem lágrimas nos olhos – e diz-me: ali… também eu perdi a minha mulher. E sai. Os passos, aos solavancos. Curtos. A custo. Devagarinho. O corpo a abanar.

Lá fora, continuam a cair uns pingos parvos. Pingos sem jeito. Num fim de dia triste. Na A25. E aqui, no coração do senhor da mesa ao lado, ao jantar.

Manuel.

Autor: 60emais

Português.

3 opiniões sobre “NA A25, EM 23 DE AGOSTO DE 2010”

  1. Uma desgraça. Uma grande desgraça,hoje todos chocaram, alguns com a morte.
    Mais uma vez parabéns, Manuel, o seu texto diz muito, do dia de hoje. E logo essa coincidência. Talvez que o senhor do lado tenha também saído de casa para fugir. E fugiu novamente.
    Belas palavras.

  2. respira-se medo. Os fazedores de actualidade, de factos mais ou menos dramáticos,sabem bem como vivemos em sobressalto. O caso não era para menos. Ficamos todos submersos nessa onda de dor … ansiedade pelo que nos traz o futuro, as nossas vulnerabilidades… Todos lamentamos porque nestes momentos somos todos um. E também porque nos sentimos frágeis nesta roleta … e se fosse alguém nosso? – A mente serena faz a margem que nos separa dessas terríveis realidades. Temos que estar preparados para, no meio da maior catastrofe,ter compaixão,e sabedoria para saber que nada sabemos… para além dos malfadados pingos de chuva.
    Beijinho Manel,
    Manuela Marques

  3. Companheiro
    No meio de tanta tristeza, parabéns pela tua crónica.
    Dá que pensar. Afinal (quase) todos perdemos alguém no trânsito…
    São poucos de cada vez, o povo nem dá conta. Faz lembrar os mortos na guerra colonial: todos os dias noticiavam a morte de dois soldados em África… em acidentes de trânsito…
    Falamos tanto em genocidas mundialmente conhecidos: Hitler, Saddam, Bush e outros, mas se pensarmos bem, há um genocida (às vezes involuntário) escondido em cada um de nós. Basta sentarmo-nos ao volante de um carro. Aí sentimo-nos reis ou deuses com o direito de vida e morte sobre todos os outros. Às vezes, também, são as condições atmosféricas, ou piso da estrada em mau estado, ou, ou… que provocam os acidentes, às vezes!
    Não sei porquê, mas surgiu uma palavra na minha mente: CIVISMO. Estranho!
    Abraços

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