CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – O TEMPO DAS FOGUEIRAS

CRÓNICA 2

No princípio de Maio, as papoilas a mostrarem-se, as maias por aqui, por ali, chamam-lhes lírios do campo noutros lados, e nós a irmos ao rosmaninho, em grupo. Raparigas e rapazes, organizados por zonas da aldeia, talvez os do Rio das Patas se juntassem entre si, assim como os de Cadima, ou da Torre, mas também nos juntávamos se namorávamos ou tínhamos pretensões, que o tempo era de experimentar, de raides furtivos, de inquietações e palpitações do coração…

Maio. Aos fins-de-semana. Pequenos grupos, armados de sachos e enxadas, algumas sacas de linhagem, alguma água e umas sandes e fruta, para a merenda. Maio. Rapazes e raparigas da mesma rua e das ruas em volta, num ritual que se repetia todos os anos, talvez 10 anos a fio, entre a idade de criança até ao fim da adolescência. Rapazes e raparigas que não olhavam assim tanto a condições sociais, juntando os que andavam em fábricas e oficinas, com quem andava na costura, no campo ou a estudar.

Maio a correr e as sacas de rosmaninho a virem dos pinheirais, da charneca em volta do vale, onde as flores da planta ganhavam cada vez mais vida e côr, à medida que o tempo das fogueiras se aproximava. As fogueiras. Todos queriam que a sua subisse mais alto que as dos vizinhos, numa disputa efémera, que durava e valia o tempo da queima, ponto final. Mas era assim. As fogueiras, e não as festas dos santos populares, que era coisa de que só se falava quando vinha à cabeça: agora são as do Santo António, agora são as do São João, agora são as do São Pedro. Era o tempo das fogueiras!…

Maio a correr, e os grupos a organizarem-se na acomodação do rosmaninho, um espaço protegido dava jeito, não fosse pôr-se a chover, ou algum dos outros grupos fizesse uma investida para, de noite, levar o que havíamos apanhado. Maio a correr, e os pares a formarem-se. Se não estavam já formados, era preciso que para a noite, de preferência a primeira, as coisas estivessem alinhavadas.

Maio a correr, e era preciso saber onde encontrar alcachofras. Havia as de corola quase rocha e as de corola branca. E havia que procurar algum alecrim, para misturar na fogueira, de vez em quando. E havia que trazer do mato as estaladeiras, para lançar nas labaredas e ver o crescendo de calor e luz, enquanto os estalos se ouviam, na voracidade do lume alto, rumo ao céu.

Maio quase Junho. Junho. Nas mercearias, nós a comprarmos as bombas, as bichas de rabiar e os valverdes. Um desafio para os rapazes, que aquilo eram coisas que não ficavam bem às raparigas. Quando muito, era tolerável que as raparigas segurassem, por instantes, um valverde ardendo, e então, na noite da fogueira, uma torrente de cor e luz, que se desejava que nunca se extinguisse, a rapariga envolta num arco-íris, mas era tão breve o tempo daquela magia…

Junho. A primeira fogueira quase a chegar. Toca a trazer dos pinhais mais um pouco de rosmaninho e estaladeiras, e talvez um pequeno madeiro para maior duração do fogo da noite. É preciso ter sandes, gasosas e laranjadas, talvez até algum vinho e cerveja, porque não aguardente e também chouriço para assar?… E elas, as miúdas, trazem pastéis e bolos, não é?… E uns bancos para ter em volta, para os pais e avós, se quiserem estar… e nós sempre a desejar que não quisessem estar.

Junho. A noite está quase aí. Falta ainda ver… se o gira-discos funciona. E se é possível aquela ligação eléctrica à casa da … será que o pai vai dizer que sim? Tens que ir falar com ele… ou com a mãe dela… isso, com mãe dela, que a ti ouve-te melhor, tem mais confiança em ti… se ela soubesse?!…

Ah… amanhã, por esta hora já lá estamos. E ainda falta tanta coisa!… Temos poucos discos… e se não há ligação eléctrica?… se o pai dela continua a dizer que não?… não é melhor irmos comprar mais pilhas… aquilo leva quantas pilhas?… quatro ou seis?… eh pá, tanto dinheiro… fala com a tua mãe, fala com a tua mãe, diz-lhe que estamos aflitos… isso, estamos em risco de não ter música, e fogueira sem música…

É a noite… temos tudo… estamos cá quase todos, só que as miúdas estão a chegar aos poucos… faltam algumas… e há mães a mais… quer dizer, nenhumas delas é cá precisa, mas… A música já ecoa há algum tempo, a fogueira já se vê à distância, a nossa fogueira é a mais alta, eu não dizia?… será que vamos conseguir saltá-la de mãos dadas, será que tu és capaz, vamos, vamos?… agora, daqui, que está fumo… a tua mão está tão quente… ninguém vai ver que estamos assim… de mãos dadas…

A noite a correr, a música que ora se ouve ora desaparece, uma comidita de vez em quando, qualquer coisa de beber, é preciso dançar… muito! Mas que música que tu arranjaste… não podia ser mais lenta?… Calor perto da fogueira, calor perto e longe para quem dança, para quem está de mão dada, corpo-com-corpo, afogueadas as faces, desejos na noite… e estão tão altas as labaredas, tão altas!… imagens de amarelo e azul, azul quase lilás, efémeras, que apetece agarrar e reter nas mãos, perfumes misturados de rosmaninho, alecrim, estaladeiras e fumos, muitos fumos e faúlhas, elevando-se, nós a olhá-las, como se perdem, loucas, fugazes, a caminho da escuridão, olha, olha…

Anda, vamos… temos ali as nossas alcachofras… vamos queimá-las… queremos que elas floresçam esta noite, queremos que elas floresçam… e logo, logo pela manhã vamos espreitar se sim se não… ver se está tão dentro assim, do teu, o meu coração… ver se está tão dentro assim, do meu, o teu coração…

Manuel Sá

Fogueira, pelo Santo António

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

alcachofra
Alcachofra

 

Autor: 60emais

Português.

3 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – O TEMPO DAS FOGUEIRAS”

  1. Companheiro

    As tuas recordações são igualmente as minhas.
    Pela tua crónica recuei no tempo e voltei a viver o tempo da nossa juventude, da inocência, da beleza campestre da nossa aldeia (que já não é).
    Nada mais tenho a acrescentar-lhe, a não ser o calor que recebíamos no rosto ao saltar as fogueiras, o cheiro do alecrim que perfumava a noite, e os risos cristalinos de uma alegria sadia e pura.
    Those were the days my friend…
    Abraços

    Obs. Se me permites, envio-te algo que escrevi há muitos anos. Tem a ver com a nossa infância:

    No Tempo do Sonho

    Vindo de outra eternidade
    amanheci entre os sorrisos e as fragrâncias
    das flores do verde Vale.
    Depois brinquei, brincámos juntos
    nas primaveras de outrora;
    brilhava-nos o sol nos olhos
    e florescia-nos a amizade,
    loucamente,
    junto aos velhos loureiros
    nas margens de um rio antigo.
    E o tempo da afirmação chegou,
    bruscamente.
    Como rouxinóis ganhámos asas,
    voámos pelos céus azuis da liberdade
    e sem remorsos,esquecemos os tempos transactos.
    No instante da vertigem,
    quando o presente e o passado se confundem
    e o sol repousa em suaves ocasos,
    chegam-me de longe
    os ecos nostálgicos de vozes adormecidas.
    São vozes da infância, as vossas e a minha,
    que cantam ao raiar da última eternidade.
    É com espanto e surpresa que vos pergunto agora:
    Será este um sonho que sonhei,
    ou serei eu o vosso sonho?

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