Crónicas do Vale de Santarém – O rio da minha aldeia

Chamávamos-lhe rio, e ainda hoje assim dizemos. Mas não é mais do que um ribeiro. No Verão, um regato, se tanto. Ficavam umas poças, uns peixitos a sobreviver ali, enquanto podiam. E umas folhitas verdes, minúsculas, sobre a água, muito encostadas umas às outras. Quando o vento lhes dava, moviam-se em conjunto. Todas iguais, faziam como que um rendilhado verde, pousado sobre a água estagnada, ou quase. Um dia disseram-me “são limos”, mas eu ainda não sabia o que isso era. Porém, sabia que, por debaixo, havia peixitos a lutar pela vida. Peixitos e uns bichos ridículos, para o preto, cabeça arredondada e rabo curto, muito irrequietos, sempre agitados. Nós a tentarmos apanhá-los e eles a escorregarem-nos das mãos. Os girinos.

Onde nascia o rio, poucos sabiam. Ou era o que parecia. Só muito mais tarde comecei a ouvir falar da nascente. Fica lá para cima… para lá do moinho de cima… Para lá do moinho de cima era muito longe. Naquele tempo, um lugar onde os rapazes só se afoitavam quando já andavam na terceira classe, ou por aí. O moinho de cima, ou o primeiro de nove moinhos de água que havia ao longo do ribeiro, a contar da nascente. O moleiro, que veio de Manique mais a família, deixou aos filhos um nome que não era nome, mas alcunha. Alcunha de profissão. Ainda hoje todos dizem: o Zé Moleiro, o Manel Moleiro…

O rio, ao longo do vale, uma benção para as hortas, alinhadas junto às suas margens, como jardins. Courelas de vida, encostadas umas às outras, para a sobrevivência das famílias. Dava-se-lá tudo, que era próprio das hortas. O rio a engravidar no inverno. Enxurradas loucas, águas barrentas e revoltas, inundações, e depois a fúria a desaparecer, uma capa de lama a deixar ver as cebolas derrubadas, as couves a ficarem como se plantadas numa placa de argila, depois a apodrecerem, se não se fizessem as drenagens..

E eu a ir ao rio, após a enxurrada, ao cair da noite, com o Ti Manel d’Abrã, o maior especialista na pesca da enguia. Adorava aquelas enxurradas, o Ti Manel, alto, magro, de barrete preto e barba branca, a quem puseram a alcunha de deus-nosso-senhor. O Ti Manel, sempre a fumar longos cigarros de mortalha. O Ti Manel, a sentir as enguias a morderem as minhocas do isco, vá de levantar o pau-que-fazia-de-cana-de-pesca e zás, as enguias a caírem no guarda-chuva preto, cabo virado p’ra cima, pendurado no marmeleiro, assim se armava a estrangeirinha para a pescaria dos tempos de enxurrada. Levávamos um candeeiro a petróleo, que era de lata e tinha um vidro grosso. Também fazia parte da estrangeirinha, o candeeiro.

A estrangeirinha, era como ele chamava ao sistema de pesca com que arrancava tanta enguia ao rio. Uma estrangeirinha… era também como a ti Mari da Velha chamava às dezenas de enguias que saíam do saco, quando o Ti Manel chegava a casa, e ela se via perante tanta enguia para amanhar. Dizia… isto é que está aqui uma estrangeirinha…

O rio de lavar a roupa, quando não havia enxurradas. As mulheres saíam de casa, alguidares de barro vidrado à cabeça, enormes, pesados, mais tarde de zinco, a roupa a dançar, lá no cimo, com o balancear das ancas, as mulheres de pés descalços, a andarem como se deslizassem, faziam um pequeno ruído ao caminhar, era como se afagassem a terra, depois veio o alcatrão, mas os pés continuavam a afagar o caminho, era como um bailado, as ancas,  volumosas, dançando, sob as saias ondulantes, um não sei quê de fascínio…

As mulheres, com uma rodilha, enrolada em redondo, a aguentar o peso da roupa e do alguidar sobre a cabeça, e a cabeça protegida ainda por um lenço castanho, com algum verde e ramagens suaves, ou preto, nas viúvas. Por vezes, crianças ao colo, ou enganchadas de lado, na cintura. As mulheres e os filhos, nas margens do ribeiro, ou com os pés, lá dentro, não tarda…

As mulheres chegavam ao rio e diziam bom dia, como se cantassem, ou era ao que soava, e depressa se punham a falar com as que já lá estavam. Sobre a pedra de lavar, escorregadia, lustrosa, a cheirar a sabão – cada  mulher tinha a sua – se cumpria a função de pôr a roupa novamente desencardida, por vezes o cuspo a ajudar, para as nódoas mais renitentes. Cuspo, sabão e vá de esfregar!… Por vezes, cloreto, que a lexívia veio mais tarde. Depois, roupa erguida até ao alto, e vá de bater com ela na pedra, uma, duas, três vezes… depois torcer, voltar à água, talvez mais sabão, talvez mais água, deixa-te cá ver, estás boa para estender, alguma logo ali, sobre a erva, a corar, num tufo de verde, tufo de vida.

E as crianças mais pequenas, quando era altura e o tempo deixava, a ficarem numa alcofa de vime ou num caixote de madeira, com cobertores a fazer de acolchoado ou, no Verão, sobre uma saca de linhagem, protegidas do sol por um avental ou lençol, estendido sobre o silvado, de vez em quando uma espreitadela, ou uma mama a sair da blusa às cores, para o leite, o bebé, sôfrego, a chupar, a chupar, a mãe a franzir a testa, a dizer ui, ui…

As mulheres, a falarem. De muita coisa. Uma vez, era o caso da menina que havia sido roubada, dizia-se, por… não se sabia quem. A menina, com um sinalzinho no corpo, mesmo entre o umbigo e o peito, salvo seja. Era o que dizia o jornal O Século. Quem sabia ler, lia para as outras, que paravam a função, escutavam, as mãos apertadas contra o peito, depois lançavam nas águas do rio ós de espanto e lágrimas furtivas, uma a dizer… credo… ai só me lembra se fosse a minha Mariazinha, minha rica menina… e olhava para a menina a dormir, talvez a sonhar… o meu anjinho!… sob o lençol estendido por cima dos arbustos, na margem.

Outra vez era sobre uma jovem, que ficara grávida… antes do tempo. Estar grávida antes do tempo, ou ter sido desonrada. Isso. Ter sido desonrada. Pior, se era antes do tempo, o tempo do casamento. Era ter sido ainda mais… desonrada. Outra vez, era sobre o novo namorico do Zé, que já ia na terceira… nunca cá se viu uma coisa assim… as mulheres, umas a condenar, outras a sorrir, na cabeça de algumas talvez… faz ele muito bem…

Outra vez, foi sobre a água do rio. Coisa grave. Uma fábrica de tripas fora construída lá para o moinho de cima. Nós, os rapazes, fomos lá ver. Só o moinho escapava à imundície e mau cheiro, porque ficava antes da fábrica. O professor Costa ensinou-nos: antes de um certo ponto, no rio, é a montante. Isso, a montante. As tripas eram lavadas e os dejectos vinham rio abaixo, causando estragos, ódios e maldições. As regas das hortas faziam-se com águas mal-cheirosas, putrefactas. As hortas a definhar. Nos locais de lavagem, as mulheres a quererem  desencardir a roupa com água que a encardia ainda mais e a deixava a cheirar a quintal-de-galinhas-com-porcaria-acumulada-há-anos.

As mulheres, no rio de cima, no rio das patas, no rio das paponas, no rio da quinta, no rio dos loureiros, no rio da praça, no rio da eloia, no rio da cabine, no rio da guiomária – um só rio, com os nomes dos locais de lavagem a corresponderem aos nomes dos pontos por onde passava – as mulheres a juntar suor, indignação e vontade de agir. As mulheres, sem água para lavarem as roupas, água canalizada oh oh, onde é que ela estava?!… assim como casas de banho, fossas, e outras coisas…

As mulheres fizeram um abaixo-assinado, alguém lhes deu a sabedoria para isso… elas diziam baxo-assinado, porém muitas não sabiam ler nem assinar. As mulheres fizeram isso e foram entregar os papéis à junta, mas o presidente não quis receber. Outra solução era o regedor ou cabo-d’ordens, ajudante do regedor, mas a resposta foi a mesma. Foi então que um grupo delas quis ir entregar os papéis ao governo civil, em Santarém. Mas… mas o que elas queriam fazer?!… Alguém soube, antes da entrega, talvez os da pide, e…

A guarda republicana começou a aparecer na terra. Hoje uma patrulha, amanhã ou depois outra. Vinham sempre dois, um de cada lado da estrada, botas sem fazer ruído na aproximação. Também vinham a cavalo, os animais inquietos, nervosos. Os guardas chegavam aos locais de lavagem e ali ficavam um tempo, o que não era costume. Então bom dia, minhas senhoras… disse um deles, entre bem-disposto e provocador, e elas nem um pio. Ele a insistir, a pôr mais peso nas palavras, a querer receber resposta, e uma a dizer bom dia, muito sumido, outras a seguir, porém algumas… moita. Depois, o outro, que era o cabo, a repetir a provocação, numa voz aflautada, a fazer-se bonzinho, mas soava a falso… Nem mais uma palavra p’ròs guardas!…

Foi assim muitos dias. As mulheres combinaram não ir lavar sozinhas, mas em grupo. Até que, durante um tempo, deixaram mesmo de ir ao rio. Não se sabia se era por causa da água putrefacta, se por causa da patrulha. Só lá iam buscar água, para as lavagens mais rápidas e inadiáveis. O rio estava silencioso o dia todo. Órfão. Lá, só os rouxinóis. Um dia, ouviu-se dizer que a fábrica ia fechar se não fizesse modificações. Fez as modificações, mas mais tarde fechou mesmo. Nunca se soube ao certo porquê.

As hortas quase desapareceram. Atacou-as a febre da construção. Um projecto de vivendas que se arrasta no papel ou não se sabe onde e porquê. Um projecto com novas ruas e prédios, mais um jardim, obra da junta, e diversas casas em banda, quase acabaram com as hortas, verdadeiros jardins ao longo rio. E nos locais de lavagem, já não há pedras de lavar, nem mulheres vergadas sobre elas. E ainda bem… Nem crianças, a palrar ou a dormir. De tudo isso, resta a memória…

Porém, o rio da minha aldeia lá continua a correr. E ainda por lá cantam os rouxinóis… Dá gosto ouvi-los!…

Manuel João Sá

 

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Vale de Santarém – Local designado por “Rio da Quinta”, um dos principais locais de lavagem. Aqui, o ribeiro passa pelo antigo jardim da Quinta de Rebello da Silva, ou “das Rebelas”
ValeLavadeirasLoureiros
Vale de Santarém – Local designado por “Rio dos Loureiros”, um dos locais de lavagem da roupa.

 

Autor: 60emais

Português.

Um pensamento em “Crónicas do Vale de Santarém – O rio da minha aldeia”

  1. Bons tempos esses, meu amigo, os do(s) rio(s) da nossa aldeia. Por um misterioso desígnio, qualquer deles estava sempre próximo da nascente, e nós, em expedições de simples curiosidade, tentávamos atingi-la para ver o simples brotar de um fio de água límpida…
    O meu rio era esse da fotografia, o rio dos Loureiros ou dos Rouxinóis, e a minha Ti Virgínia está lá com a Anabela. Lembro-me, quando era criança, de chupar a água da roupa depois de lavada (o gosto era equivalente ao de uma gasosa…), mais tarde, quando já não havia mulheres a lavar roupa, raspava a lama junto às pedras e espalhava-a em cima de uma das pedras. às vezes achava um tostão e com sorte, dois.
    Hoje, o nosso rio dos Loureiros corre envergonhado no interior fétido de um esgoto, os loureiros morreram de desânimo e os rouxinóis que neles cantavam ao desafio, devem andar por aí tentando encontrar, numa porfia sem fim, os loureiros banhados pelos entardeceres grandiosos de antigamente…

    Um abraço grande

    Reinaldo

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