O TEMPO DOS BICHOS-DA-SEDA

De súbito, um de nós dizia: tenho bichos-da-seda. Ou: os meus bichos-da-seda já nasceram. Daí em diante, um corre-corre. Subir às amoreiras para apanhar folhas, alimentar os bichos. E também: limpar os cocós pretos tipo granulado, mudar os bichos, quando mais crescidos, para caixas maiores.

Voltar às amoreiras, uma, duas, três vezes… e dar folhas aos bichos, hoje, amanhã, depois… limpar os cocós, o ruído típico dos cocós a rolarem nas folhas secas, ou no fundo da caixa. Folhas verdes, folhas secas, folhas verdes, folhas secas. Por vezes, de tanto roerem, os bichos a deixarem só as nervuras. E o ruído deles, rucrucrucruc… no silêncio da noite… rucrucrucrucruc…

Se os bichos eram muitos, o melhor era espalhá-los no tabuleiro de madeira, peça sobrante da arte de cozer-o-pão-em-casa. Coisa já do passado, que o senhor David,  na padaria ao cimo do pombal, há anos se ocupava da função para quase toda a aldeia.

O tabuleiro, de madeira leve, noutra função, com os figos, um a um, bem intervalados. O calor forte, no pino do Verão, na rotação terrestre sob o sol, a dar côr tostada aos figos, o açucar a apurar, o melaço a sair aos pouquinhos. As abelhas por ali, a zumbir, a pousar, a zumbir, a pousar… O tabuleiro, antes disso, dos figos ao sol, era eu que o ocupava com os bichos-da-seda, brancos uns, brancos com anéis em preto outros. E também pretos, ou quase, outros ainda.

A avó Constantina a ver-me ir buscar o tabuleiro. Estaria na adega ou na casita de arrumações. Mas só dizíamos casita, era o bastante para situar o espaço e a serventia que tinha. A avó Constantina a não se importar, a avó a sorrir… chá de folha de oliveira, por causa do coração, não era, avó?…

Depois, eu a passar um pano para tirar o pó ao tabuleiro, mais alguma teia-de-aranha aos cantos. Olhando mais a preceito, eu a ver milhares de buraquinhos à mostra na madeira do tabuleiro, arte de outros pequenos bichos-lagartas-roedores, um pó fino à beira dos buracos, resultado de outro incessante rucrucrucruc… noite e dia, noite e dia, ano após ano.

E eu, vá de transferir os bichos-da-seda, um a um, para o tabuleiro. E então, alguns a hesitar pousar as nunca-soube-quantas-patas no tapete verde de folhas de amoreira, em camadas, chão fresco, aroma inconfundível, está na memória, como foi possível?!… Uma vez lá, os bichos como que indagando o novo espaço, talvez a sentir o perfume, eles em exercícios de perscrutar o ambiente circundante, depois acalmando e toca a rucrucar… rucrucar… rucrucar…

Uma vez, não um mas dois tabuleiros. Ambição desmedida? Ou procriação enorme? Trabalho a dobrar, no mínimo, para o criador. Mais de três centenas de bichos-da-seda. Era preciso trepar muito mais vezes às amoreiras. Um dia, veio o cansaço. O cansaço, mais uma saída até tarde, não autorizada, lançam o criador no incumprimento das obrigações. No regresso, noite dentro, o pai à porta, à minha espera. Havia luar, e umas nuvenzitas lá em cima. Na terra, o ruído leve, sereno, da noite, mais o das botas calcando os pequeninos seixos, ao caminhar.

Não houve tempo para cumprimentos. Vamos ali ver os bichos-da-seda, disse-me. Esperava tudo, menos tal convite-ordem. Lá fomos. Os bichos sobressaíam, nítidos, por entre as nervuras secas do que haviam sido folhas verdes, há dois dias. Havia bichos à procura, à procura, cabeça no ar, outros exangues, mais-para-lá-do-que-para-cá, naquele emaranhado de nervuras. Cocós granulados em profusão, isso sim, quase tapando o fundo dos tabuleiros.

Então, que dizes, perguntou meu pai. Não respondi. Em troco, outro convite-ordem. Então agora vais buscar comida para eles, disse-me, seco. Lá fui. E ele atrás de mim. Ir à quinta ao lado era o que estava mais perto. Era preciso saltar o gradeamento. E passar pelas vacas, deitadas ou vagueando pelo terreiro.

De noite, entre vacas e dejectos, largos, enormes, passar por onde, gostava eu de saber, com as nuvenzitas agora a encobrir o luar. A noite a por-se escura de mais. E as vacas, surpreendidas, àquela hora, a levantarem-se, lentas, enormes, inquietas, a respiração profunda ali rente à minha face. E as amoreiras lá, bem no meio do espaço, protegidas por um círculo de armação em ferro.

Lá passei. Subi a armação. Levava uma saca de linhagem. Empoleirei-me na amoreira grande. Ripei, ripei folhas e mais folhas. As vacas a passar por baixo. Não contentes, pela invasão do espaço, pelo desassossego… e eu a dizer, para mim… estúpidas!… não vêem que estou enrascado?… Uma fez um fuuuuuuuuuuu tremendo, ficou o eco pela noite.

Apareceu o maioral lá ao cimo, a figura recortando-se no difuso da noite. Silêncio. Até mais perto, vieram os cães do maioral, o preto à frente. Meu pai, do outro lado, na semi-obscuridade. Os cães a ladrar. Por fim, os cães a calaram-se, como se aguardassem qualquer ordem, e o maioral a perguntar… quem está aí… com voz grave. Eu, primeiro quieto, depois a saltar da amoreira grande, a saca de folhas às costas. Eu, por entre vacas, a esgueirar-me, rápido, porém a tropeçar no bojo de uma, a cair, a levantar-me, dejectos e mau cheiro debaixo das botas, o gradeamento exterior à mão, eu a por-me a salvo da correria canina, a respirar, por fim.

Atravessámos por outro lado, até casa. Meu pai não disse mais nada. Nem no caminho nem quando chegámos a casa. Eu também não. Depois, fiquei mais de uma hora nas limpezas e na alimentação dos bichos. A ver os que ainda viviam e os que iriam para a morgue, apesar de tudo, poucos.

Há dias consegui alguns. É tempo deles. E é o tempo de os mostrar aos netos. Agora já estão na azáfama dos casulos. Talvez os netos perguntem… avô, que estão eles agora a fazer lá dentro?… a mesma pergunta que eu fazia. Para a qual, verdadeiramente, nunca encontrei resposta. Um dia eles saíam de lá, isso eu sabia. Mas que faziam lá dentro, até se transformarem em borboletas?

Agora, os netos. Assim se vai continuando o tempo… da descoberta. Das pequenas coisas da vida. Das pequenas e das outras.

Manuel

Autor: 60emais

Português.

4 opiniões sobre “O TEMPO DOS BICHOS-DA-SEDA”

  1. Que belas recordações me evoca este texto! não tanto da minha meninice, mas da do meu filho… quantas vezes tive de ir apanhar folhas de amoreira a outras terras vizinhas, porque havia os bichos na nossa casa em Santarém mais os da casa da avó… e o gozo que era ano após ano assistir à renovação e à metamorfose! e o rucrucruc… outra vez tão nítido como se os bichos da seda estivessem ali na salinha ao lado… recordar é viver!

  2. Todos nós temos estas recordações, as minhas, graças aos meus pais, que souberam perpetuar esta iniciação. É realmente uma iniciação, à responsabilidade, à paciência, à curiosidade. E nunca mais se esquece todo o processo. Também me lembro de ver a minha mãe, na sala, a olhar para cima, e a dizer: “Fizeram casulos em todo o lado, acho que temos uma praga!”. E passados dias, lá estavam as borboletas, 10 ou 20, por aqui e por ali, um corropio de voos beges. Não sei o que foi feito delas, de cada vez. Sim, porque estas pragas voltavam todos os anos :-). Paciência a dos pais, que ainda assim nos deixavam repetir a dose, anos após ano. Até, provavelmente, os bichos terem perdido o interesse, quando as barbies e o ZX Spectrum começaram a falar mais alto!

  3. Tinha-me esquecido completamente dos bichos-da-seda!
    Outras práticas, zoológicas ou não, afastaram para longe essa recordação da infância.
    Também os criei, também tive que apanhar as folhas nas poucas amoreiras de que tinha conhecimento, também fiquei pasmado e encantado com a metamorfose de uma lagarta escondida no casulo, numa borboleta (parideira).
    Mas uma dúvida ficou até hoje (porque hoje me recordaste o assunto):
    Dizia-se que um determinado peso de casulos valia alguns escudos. Nunca vendi os meus casulos e nunca soube de ninguém que os vendesse.
    Seria isso um mito, como o dos pirilampos que deixados numa caixa de fósforos, “punham” um tostão durante a noite?

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