O MEU 25 DE ABRIL

As coisas estavam aparentemente calmas. Porém… Antes tinha havido o 16 de Março. Das Caldas da Rainha haviam saído tropas, a caminho de Lisboa. Chegaram mesmo à auto-estrada, às portas da capital. Voltaram para trás. O movimento não estava organizado? Houve traição? E agora, se isto falhou, que vai acontecer? Quem estava minimamente a par, era o que perguntava. Nos jornais do regime, a fúria assanhada do poder. Velho poder, a cair de podre. Mas com a repressão, nas palavras e nas acções.

Dias antes, com outros, andara eu a distribuir papéis no Rossio. Ali, nas barbas da polícia. Meia hora, se tanto, por ali andámos. Em pequenos grupos, a entregar papéis nas filas de espera dos transportes. Papéis subversivos, dizia-se. Falavam  da miséria do país, da guerra colonial, de uma greve que tinha havido nos metalúrgicos… Falavam da imperiosa necessidade de democracia. De direitos humanos. De liberdade. Falavam do que era urgente conquistar, contra um poder caduco, repressor. Criticado na Europa, na América, nos países civilizados. Um poder abandonado ao seu estertor.

No sindicato, reuniões à hora de almoço, ao fim da tarde, à noite. Por vezes, alguns pides apareciam à esquina. Sobretudo, quando suspeitavam de reuniões ao fim da tarde ou à noite. Disfarçávamos. Passávamos palavra e desaparecíamos. Por vezes, voltávamos. Reuniões clandestinas. Proibidas. Quer dizer, se fossemos apanhados, íamos dentro.

O direito de reunião, de falar, de discutir os nossos problemas e necessidades, estava sonegado. Repressão. No entanto, havíamos feito duas manifestações na Baixa. Numa, saímos do Sindicato, até com dois cartazes, e distribuímos papéis aos bancários e a quem passava. Uma audácia. Caminhámos em filas, organizados, a toda a largura da rua. Com palavras de ordem.

Curiosamente, começámos nos Restauradores e já só quase no fim da Rua do Ouro apareceu a polícia de choque. Aguentamos a formação em filas, à largura da rua, até quase ao confronto. Então… Urros. Carga. Cacetetes. Cães. Correrias. Pancadaria desenfreada contra tudo o que mexia. Homens. Mulheres. Mulheres com crianças. Velhos. Na rua e nos estabelecimentos. Ódio nos olhos dos polícias de choque. Ódio e gritos nos seus chefes. Um deles, reconheci-o, tinha viajado comigo no Vera Cruz, como capitão do quadro, para Angola. Este sacana está do outro lado, disse, esgueirando-me antes da viatura dos jactos de água começar a varrer a zona.

Num ápice, a Rua do Ouro e laterais varridas por polícias de choque em histeria, aos gritos. De bastão em punho. Com um pequeno grupo, entro para uma casa de lavores, na Rua do Ouro. Pânico. Lá dentro, duas mulheres nas compras, mais o chefe de balcão e duas empregadas.

Entramos de rompante. Surpresa. Gritos. Aflição. Um de nós ordena: feche a porta!… rápido, feche a porta!… O homem resiste. Começa a gritar: não me metam em problemas, não tenho nada a ver com isso… Rodeamo-lo e intimamo-lo a fechar a porta, o que faz. Balbucia qualquer coisa como: se houver problemas a culpa é vossa. Mandamo-lo calar-se. Os polícias de choque a rondar a casa dos lavores, a rondar, a rondar. Olhos e rostos de animais ferozes. Dois deles empurram a porta de vidro, empurram, mas são chamados, em gritaria, por outro que comanda. Não entram.

Os minutos passam. Minutos que parecem horas. Alguns homens são levados presos. Lá vão eles, como animais, agarrados por dois ou três polícias, com armas preparadas. Alguns feridos, sangram. Uma mulher caída, no passeio, consegue encostar-se a uma porta, mas é abalroada pelos polícias em correria desenfreada. Polícias de choque para baixo, para cima, para baixo, para cima. Trânsito cortado. A Rua do Ouro deserta, quase. Lá, só a força policial. Da casa dos brinquedos sai um homem, e volta a entrar, depois de apanhar com uma matraca na cabeça.

Aqui e ali, gente atrás das portas, ou nas escadas. Os minutos passam. Na casa dos lavores, nós, os do grupo que ali se refugiou, conhecemo-mos mas até parece que não. Quer dizer, não falamos entre nós. Estamos em silêncio. À espera. Entreolhamo-nos. Não falamos entre nós, mas é como se falássemos.

Por fim, a polícia de choque abandona a Rua do Ouro. Rapidamente. Carros e autocarros voltam a passar. A polícia de choque sai e surge um reforço da polícia normal, alguns minutos depois. Queremos sair da cada dos lavores. O chefe respira de alívio. Abre a porta. Digo-lhe boa tarde… obrigado.

Uns saem para a esquerda, outros para a direita. Mais adiante, tropeço em objectos caídos, em vidros partidos. Uma máquina de escrever, talvez lançada sobre os polícias, espatifada no passeio. Sacos de compras, abandonados. Restos de comida. Um casaco. Um guarda-chuva. Na Rua do Ouro e nas laterais, restos da água largada em jacto pelo autotanque da polícia.

Penso para comigo: responderam tarde. E mal. Apesar de tudo, a polícia não foi eficaz. Percorremos mais de 500 metros sem sinal de repressão. Porquê? Algo está a acontecer.

É dia 25 de Abril. Um dia como outro qualquer. A rotina do costume. Levantar, ligar o rádio. Ir fazer a barba… Mas… que música estranha, no Rádio Clube Português… música clássica?… Enganei-me no posto… talvez… mas não, é o Rádio Clube Português… Bom… Vou à janela. Tempo fresco. Com nuvens, a prometer chuva. A música clássica continua.

De súbito: “Aqui posto de comando das forças armadas…”. Um salto. Um tremor. Uma inquietação. Um sorriso. Um abraço. A Cidália de volta da Adriana. Na caminha. Pouco mais de dois meses. Eu, a ir ver o Sérgio, com pouco mais de dois anos, no seu quarto. Hoje não posso levar-te ao infantário Alvorada, filho. Alvorada, curiosamente, é esse o nome. Fica no Campo Grande. A vovó Marta não irá ter lá hoje os seus meninos. Hoje não vou levar-te filho, porque há uma revolução e não podemos sair de casa… Que sabes tu sobre o que será uma revolução?… eu a perguntar-me. E que sabemos todos nós sobre o que será esta revolução, filho?…

O Sérgio a olhar, a não perceber nada. O Sérgio, na hora de fazer o almoço, a pegar no pacote de arroz, à sucapa, o arroz a espalhar-se no chão da cozinha, uma memória para sempre… Eu a querer sair de casa. Eu a ficar em casa. Nós a ouvirmos a rádio. Nós a vermos e ouvirmos a televisão. Rádio e televisão, os dois ao mesmo tempo. Eu a ir à caminha da Adriana e a dizer: filhinha, nasceste no ano da revolução!… uma lágrima a querer sair, outra lágrima e outra lágrima… Pensamento em tanta gente, em tanta coisa. Um turbilhão.

Nós a olharmos para a rua. Para ver se… Até parece que tudo está… como sempre. Mas não. Tenho que sair. Começam as conversas. Outras conversas. Conversas novas. Palavras novas. Diferentes. No que se diz e no como se diz. Aqui e ali. Na mercearia. No mercado. No café. Na rua.

Vindas das profundezas de não se sabe que sepultura… as conversas a ganharem… liberdade. Pode-se… falar? Talvez… A coisa vai… mudar? Talvez… Vou fazer um telefonema. E outro. E outro. E se… alguém está a escutar?… Ah… não pode ser, ninguém está a escutar… a rádio diz, a televisão diz… quem aparece é gente nova… diferente, sim, os capitães, os tais que vieram das Caldas, e mais outros e outros e outros… Não, não pode ser, isto vai para a frente!… Isto já não volta para trás!

Até ao dia seguinte, olhos e ouvidos nas rádios, na televisão. E jornais? É preciso comprar… ver o que dizem os jornais. Tarde. Noite. Madrugada. Já é manhã. São bem novas, esta madrugada e esta manhã. Imagens, vozes, emoções, gritos, medos, surpresas, sorrisos, risos, gargalhadas, abraços, convívios, confidências, inocências, generosidades, obrigado capitães, soldados, obrigado, flores, lágrimas, hinos, fotos, grupos, conversas, correrias, Carmo, Pide, tiros, mortos…

E nós, alguns do sindicato, ali ao pé. No meio de muitos outros. Tiros. Correria. Um frémito. De novo, o medo. De um lado militares e muitos populares. Do outro, os pides, no seu refúgio de repressão e morte. O cheiro horrível a pólvora a voltar-me às narinas. O cheiro a pólvora, náusea da guerra colonial. Um arrepio que conheço, a galopar, a subir-me à cabeça, quase a transformar-se em vómito. E os mortos, mais uma vez, são os que, com o entusiasmo da liberdade, não esperavam partir. Sobretudo, não esperavam partir agora. Partir, ali, na euforia já da liberdade, quando a liberdade está a chegar, a passar por ali, e por ali, e por ali, e mais além. Mas ainda há tiros para a atrasar.

Tantos anos… tantos anos de sepultura e, de súbito, das entranhas do silêncio, da fome, da repressão e do medo, a liberdade! A Liberdade!

Manuel João Sá

Na Rua da Trindade, próximo da sede da Pide

Autor: 60emais

Português.

7 opiniões sobre “O MEU 25 DE ABRIL”

  1. Li o seu texto com o som das palavras que já tinha ouvido antes, quando partilhou este episódio. Hoje fazem falta estes relatos de uma história muito recente, mas que parece muito distante para as gerações mais novas. Nasci em tempo de ditadura mas felizmente não a vivi, obrigado pelo seu contributo de Liberdade.

  2. Obrigado Alexandre, pela visita e pelo comentário. Cá estamos, para continuar esta missão de dar a ver, a perceber. Porque é preciso… Grande abraço.

    Manuel

  3. Impressivo testemunho pessoal. Continua a fazer sentido lembrar como era o 24 de Abril para que não se apague a memória… porque há quem na comparação das perdas e ganhos teime em menosprezar o que se conquistou… como se a responsabilidade pelos males sociais que nos afectam hoje fosse de assacar ao movimento dos bravos capitães que nos restituiram a liberdade, tantos anos sonegada.

  4. Aqui está uma excelente descrição, em jeito de diário. É bom ouvir histórias na primeira pessoa!

  5. Companheiro

    A tua crónica fez-me viver “in loco” um momento que vou lamentar sempre não ter vivido – estva em paragens mais distantes.
    Fizeste-me sentir o clamor, o medo, a alegria e, acima de tudo, aquele gosto desejado e estranho da liberdade, dessa liberdade que nos faltava e pela qual tanto ansiámos.

  6. Foi o dia em que os meus filhos só comeram papas…o meu desassossego de correr da televisão para a rádio, da rádio para o telefone…não me permitiu fazer-lhes a sopinha…. No dia 26 dei banho aos meu filho com lágrimas nos olhos afirmando que ele já não iria à guerra! – Só no dia 27 os deixei, por um bocadinho, entregues a uma vizinha para ir a correr ver a chegada da coluna militar a Santarém!

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