CRÓNICAS DA MINHA PRACETA – O TEMPO DAS FAVAS

CRÓNICA Nº 3

As favas. Comprei-as na mercearia ao pé da minha praceta. Elas no caixote, eu a mirá-las e a dizer: olha favas!… há quanto tempo as não como assim, frescas. Daí à compra foi um farete. Um farete. Já fui ao dicionário. A palavra não existe. Mas era a minha avó materna que a utilizava, sempre que queria dizer qualquer coisa com o sentido de… num instante muito pequeno. Assim como… num ápice. E então, assimilámos essa ideia-palavra: a minha mãe, eu, os meus irmãos, mas o meu pai… não, nunca o ouvi dizer num farete… onde é que eu ia… ah, as favas, pois, foi num farete que as comprei, as favas.

Mas as favas são vegetal que pede companhia. E o senhor António só tinha os coentros, ou seja, uma parte dessa companhia. Faltava outra verdura: a rama ainda verde de cebola nova. Fui ao mercado municipal. Sim, aquele que é paredes-meias com a a minha praceta e que está quase às moscas, por mor dos ataques dos minis, dos médios, dos supers e hipermercados das redondezas.

E lá, no mercado com azulejos de mercado municipal e tudo, ao olhar para uma banca vi logo que havia cebola nova, branquinha, uns veios ainda de verde, e com a rama verde também. Esta gente sabe!… disse para os meus botões.

A senhora, que já não me via por ali há bastante tempo, numa recepção tipo olá, depois meio sorriso, ainda bem que aparece, disse, mas na cabeça talvez uma suspeita, se vieste hoje aqui é porque não te safaste por outro lado… vens aqui por um nadica de nada, até aposto… e eu a dizer… bom dia, como está… também meio sorriso, e ela, lá na sua cabeça, pois, pois, tá bem tá, desengoma-te, isto era eu a supor o que ela estaria a pensar, quem sabe se seria assim, mas na minha cabeça era mesmo, ponto final, e ela a dizer… então o que o traz por cá?… uma manifestação de supresazinha a demorar-se, no olhar, e eu, um pequeno engulho de quem parece apanhado em falta … olhe, precisava de umas cebolas, destas… das novas, e ela… e favinhas, não vai?… olhe que estão bem cheiiinhas, e carregou bem no iii, a ver se me convencia, a danada, e eu talvez um bocadinho corado, junto à perna o saco com as favas que tinha comprado na mercearia do senhor António, as favas quase a deitarem a cabeça de fora, ou seriam os coentros? ai os coentros que deitam cheiro!… ou era o que me parecia, por isso vá de de descair mais o braço, para ter coentros e favas fora do alcance do olhar perscrutador da dona… milésimos de segundo de silêncio, porém o suficiente para eu levar a mão livre à cabeça, à cata do nome na memória… bom, não vem… que diabo, eu sabia o nome dela, mas agora… pois, pois, fui dizendo, a querer dar resposta, mas a minha cabeça ainda à volta do nome da dona… mas como raio é que ela se chama?!… há tanto tempo que não vens aqui!… agora dá nisto… eu em crítica interna, enquanto ela, num farete… bom, então aqui tem umas favinhas que são um encanto… quer assim ou mais um bocadinho?… ela a mostrar o saco e a continuar… e leva aqui também uns coentrinhos, uma beleza!… ela a carregar na terminação de beleza, como se a palavra tivesse três ou quatro zês, a espertalhona, a dourar a qualidade do produto, a cara afogueada e sorridente e a continuar… olhe, isto das favas é num instante… a minha avó Constantina diria num farete… é num instante, vêm e passado pouco tempo já não as há, é coisa duns diazitos… há aí quem as tenha mais tempo, e nos supermercados, isso então!… mas eu cá não… ficam duras e depois… olhe, já nem prestam p’ra nada … e eu… tem razão, pronto, tá bem, não, não é preciso mais…  e ela… para a semana ainda tenho, pode cá vir buscar mais destas, são tão tenrinhas!… e deixou-se demorar por ali, no riiiinhas, e depois, em jeito de pergunta… mas o senhor queria também as cebolas, não era?… ora vamos lá ver, vamos lá ver… e nisto um pequeno molho de três cebolas passam num farete à minha frente, mostrou- mas num repentinho, e foi dizendo… estas é que ficam bem com as favas, pode levar a rama e tudo, que fica para dar sabor, sabe como é que se faz?… e eu a dizer… claro, a minha mãe também fazia assim… mas ela já a perguntar outra coisa… e então não quer levar as azeitonas… isto porque se lembrava de que era costume eu levar azeitonas, e eu, que nem já me recordava de tal coisa, eu a dizer não a meio gás, numa mentirinha de ocasião… agora estou retirado das azeitonas… um tempinho até ajuntar… pelos médicos, e ela a dizer, descontente…. eu também, por causa do hemorroidal, não é?… uma chatice, vai-se para velho e cortam-nos o que mais gostamos, não é senhor… por milésimos também ela à cata do meu nome na memória, mas ficou-se por ali, senhor… e eu… sim, sim… eu a querer saber… então quanto é tudo… e nisto ela a apresentar-me, num farete, a conta, no papel do costume, com os números e o traço da soma do costume, tudo meio atravessado, a subir da esquerda para a direita, e lá paguei, ela a dizer… bom dia volte sempre, senhor… o nome não lhe vinha, e eu a sair, num farete, como diria a minha avó, no tempo das favas ou noutro qualquer, quando uma coisa acontecia num instante, ou num ápice, assim como a dona… não me lembro do nome, me vendeu umas favas de que eu não precisava, os coentrinhos foram de borla, dizia eu para os meus botões, eu que, afinal, só precisava de umas cebolas novas, por causa da rama, para dar gosto ao guisado que iria fazer com as favas e os coentrinhos que havia comprado antes, na loja do senhor António, ali junto à minha praceta. Tudo num farete…

Manuel Sá

STA_5196

Autor: 60emais

Português.

8 opiniões sobre “CRÓNICAS DA MINHA PRACETA – O TEMPO DAS FAVAS”

  1. Uma delícia! o ritmo… o tom saudosista, levemente irónico, atravessado por algum sentimento de culpa… porque afinal somos todos permeáveis às mudanças mesmo que nos retirem algum do colorido da vida de outros tempos.
    Bom, e lá vai ter de comer as favas a dobrar… saborosa leitura mesmo para quem não aprecia lá muito a iguaria primaveril (talvez falta de engenho para as cozinhar a preceito).

    1. A primeira dose de favas, acabada de fazer em lume brando, com os conteúdos e condimentos a preceito (o julgador em causa própria costuma ver a coisa inclinada a seu favor, já se sabe…) aguarda que o cozinheiro se digne agora saboreá-las, talvez acompanhado pelos filhos e netos, onde também há quem goste muito e quem… nem por sombras!… Para esses, estou a pensar na alternativa…
      A segunda dose de favas, a tal que deu material substantivo e valioso para a crónica (muito agradeço o comentário, Anália) aguarda que haja tempo para a descasca e subsequente feitura (não poderão faltar a rama verde de cebola nova e os coentros, mais um pouquinho – qb – de folha de louro e dentes de alho, azeite, etc…) e posterior degustação, a lembrar aquela passagem dos Maias… Vai ser um regalo. Uma belezzzza, como diria a Dona… ainda não me veio o nome à memória.

  2. Há o tempo das cerejas…há o tempo dos figos… há o tempo das favas…há o tempo de….
    Cada tempo, pode ser embelezado por uma crónica, Poética,saudosista, graciosa…Escrita ao ritmo do pensamento, do recordar em catadupa do acontecimento. Com a pressa de ler, ao ritmo da curiosidade, quase esquecemos de respirar… Adorei!
    Também adoro favas. Com coentros e morcela
    Não tens que as comer todas, guarda para os jantares da Berta.
    Depois desta saborosa leitura (como muito bem diz a Maria)fica o apetite aguçado (não para as favas), para ler a próxima crónica…
    Gostei do “farete”. Fez-me lembrar a minha avó que dizia “num ai” Termos de outras eras…

    1. … e o tempo do regresso das andorinhas (dá para outra crónica…) e o tempo de fazer favas com… muitas coisas (depois vê-se) para os jantares da Berta. Obrigado por me teres visitado e pelo teu comentário… saboroso!…

  3. Uma delícia é o que escreve o Manuel. Bravo! Crónicas com futuro, só lhe digo!
    Obrigada por este momento de descontracção 🙂

  4. Amigo

    Tinha feito um comentário a esta crónica, mas as novas tecnologias são a minha desgraça e, inexplicavelmente, desapareceu. Se o encontrares, fica com ele, era para ti.
    Quanto às favas, quero dizer-te que voltei novamente à infância com esta crónica. Os cheiros dos coentros, favas e cebolas estão dentro de nós e não há uma única cidade neste mundo que consiga apagar os odores que inundavam as ruas da nossa aldeia.

    Nota: Nunca me convides para comer favas. Aburguesei-me, não gosto!

    Reinaldo

  5. Não, infelizmente não encontrei. Decerto teria aquela apreciação oportuna, com a qualidade e humor do costume. Mesmo que não gostes de favas. Cá para nós, não será porque te aburgesaste. É que, naturalmente, (como diria a minha mãe, com o sentido de “se calhar”, ou “talvez”)já não gostavas delas antes de te aburguesares…

    Obrigado, com um abraço.

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