CRÓNICAS DA MINHA PRACETA – AS COISAS MUDARAM MUITO, POR AQUI

CRÓNICA 2

1973. Viemos ver a casa. Estava para alugar. O Sr. Borges, que era caixa lá no Banco, disse: “Um rapaz da minha criação tem uma casa para alugar, ao pé de mim. Você pode ir lá ver. Eu apresento-o ao meu amigo. É numa praça baril. Pára o comboio mesmo em frente… há autocarros próximo… um mercado… tem lá tudo, mesmo tudo”.

O senhor Borges, que morava no Largo Conde de Otollini, entre a Estrada de Benfica e a Conde Almoster, era um tipo bem caçado. Enquanto os clientes não apareciam na caixa, fazia música com a esferográfica a tocar nos dentes. Isso mesmo. Emitia som com a garganta e, com a esferográfica a tocar nos dentes, ao mesmo tempo que ia fechando ou abrindo a boca, de acordo com a melodia, conseguia surpreendentes interpretações de grandes êxitos. A melhor era no “besa me mucho”. Era sempre após o almoço que vinha o “besame mucho”. Depois de irmos ao Texas, no Cais do Sodré, onde tomávamos café e um digestivo, chegávamos ao banco e dava-lhe para aquilo. Um espectáculo!

Fomos ver a casa. O Verão estava no fim. Porém, imenso calor. O filho às cavalitas. Subimos ao segundo andar. A sala era grande. A casa inundada de luz. Viemos à varanda e olhámos a praça. Ficámos conquistados. Nem sequer demos pelos detalhes das imperfeições. Só mais tarde. Depois, as burocracias. Mas foi tudo rápido. Era preciso um fiador. Nada difícil. O senhor Borges prontificou-se. Só que a renda… bem mais de metade do meu ordenado.

E assim foi. A casa que começámos a chamar nossa. Num prédio com quase trinta anos. Naquela altura, quem morava na praceta – a maior parte em casas alugadas – distribuía-se entre empregados em bancos, no comércio, no Estado, professores, pequenos comerciantes. Também alguns operários.

Crianças, havia muitas. Adolescentes, também. Saíam de manhã, com as suas batas de ir à Escola, regressavam para almoçar, ou mais tarde, no fim das aulas. Havia as porteiras. E também as criadas. Chamava-se assim às empregadas domésticas. Agora, o nome já é outro. Disse-me há dias um amigo: “espera aí, não te oiço porque a minha técnica de limpezas domésticas está a aspirar…”.

“Sabe uma coisa?”, perguntou o senhor Henrique. Era a primeira vez que falávamos. O senhor Henrique, vizinho, chegou à praceta dois anos após a inauguração da praceta. Sabia do que falava. “Sabe uma coisa? A nossa praceta, no princípio, tinha um bonito jardim. E um lago. Era ali, no meio. E no lago havia dois patos, que tinham uma casota. Era ali…. Bom… depois desapareceu tudo. Um dia até roubaram os patos. Nunca mais cá puseram outros. Mas era bonito, isto aqui”.

Quando chegámos à praceta, já no tanque do lago não havia água. Lá, os rapazes mais crescidotes faziam jogos de bola. Jogos que eram uns atrás dos outros. Tipo bota-fora. Ou então, jogavam aos quatro-cantinhos. Chutavam uns contra os outros e saía do jogo quem fosse apanhado pela bola, até que ficavam dois, e cada um deles tentava acertar no outro. Ganhava o jogo aquele que, na final, acertasse no outro. Assim passavam horas. Isto era se não viesse a polícia. A polícia vinha e eles raspavam-se. A polícia levava as bolas. Uma vez, até furaram uma e deixaram-na lá. Imprestável, pensavam os polícias. Mas os rapazes fizeram mais uns jogos, mesmo assim, logo que os polícias foram embora.

Outras vezes, era o jogo da carica. Horas e horas. Quase deitados sobre os lancis. A impulsionarem as caricas, com os dedos, ao longo dos lancis. Um dedo contra o polegar, como se fosse uma catapulta apontada à carica, e lá vai ela… As regras? Nunca as percebi… Mas, no mínimo, a carica não pode cair do lancil.

As raparigas… saltavam à corda, ou andavam com uns arcos, ou com umas cordas que faziam girar, em volta dos tornozelos. Ou jogavam à macaca. Ou jogavam olhares para os rapazes. Ou… algumas até já jogavam à bola… mas isso eram as excepções. Rapazes e raparigas, seriam uns vinte. E mais pequenos, talvez o mesmo.

2010. Nos andares, os mais velhos são a maioria. Viúvos e viúvas. Vivem sozinhos. Talvez sós. Casais que viram partir os filhos. Estão reformados. Agora, vêm os netos. Uma, duas vezes por semana. Ou por mês. Ou por ano. Apartamentos sem gente, também há. Melhor fora que, entre cortinas, assomasse um rosto, um olhar, uma ruga. Regularmente. Melhor fora. Mas é raro.

Porém, nem tudo envelheceu. A praceta tem árvores jovens a toda a volta. Alguns prédios com cara lavada. O jardim foi recuperado. Mas os cães descarregam na relva o que lhes vem de dentro. Que é o que os donos querem que eles façam. E rapazes e raparigas, talvez cinco. Crianças, talvez cinco. O alarido, o riso, o grito, a correria, o jogo, a brincadeira, a luta, as mães a chamarem os filhos para casa… tudo coisas do passado. Agora, silêncio, quase.

Em alguns andares, casais jovens. E estudantes. Mistura de origens, também. Brasileiros. Um apartamento para não se sabe quantos. E bicicletas penduradas nas varandas, do lado de fora. Mais um chapéu de sol, para a praia, aplicado como tapa-sol. E uma bandeira verde-amarela. E um cabo eléctrico, que vem da sala até à praceta. Passa por uma árvore. Depois é só ligar a uma máquina, usada na reparação de automóveis. Ali, no passeio. De vez em quando. A polícia já veio e disse, aqui não. E voltou. E voltou a dizer. E o cabo ainda lá está.

Africanos. Silenciosos. Excepto quando, já noite dentro, se plantam na cabine telefónica. Tempos infinitos. A gritar para a terra. Em dialecto só deles, claro. A gente desculpa. Dois ou três de leste. Distantes. Elas, bem vestidas, cores garridas. Na roupa e na face. Loiras. Os velhos da praceta a segui-las. Com o olhar.

Há muito que se foi a extensão de um externato. E a loja do senhor Zé, que era uma mercearia, à esquina. É agora uma casa de fazer baínhas, pregar botões e coisas assim. E a papelaria, que levou anos a definhar. No sítio, está agora uma casa de explicações. O mercado municipal, antes bancadas cheias de hortaliça, fruta, peixe fresco, pregões, conversas, sorrisos, perfumes de salsa, hortelã, queijo, louro, alhos, flores… vive agora o silêncio antecâmara da morte. Dois, três vendedores. Os pombos devassam o espaço. A clientela foi-se. Para minis, supers e outros mercados. Que os há, um pouco por todo o lado. Aqui e por todo o nosso país rectangular.

Parece que foi ontem. Os melros continuam a meter os bicos, relva dentro, à cata das minhocas. Andam por ali, aos pulinhos. Depois dão uma corridinha, param. Parece que ficam à escuta, ou será que cheiram?… e, de súbito, apontam o bico longo e amarelo à relva, e zás, filam as minhocas. Elas debatem-se, eles sorvem-nas e, já está. E a seguir, nova corridinha, que a vida é curta e há que sacar mais minhocas debaixo da relva.

As árvores, agora nuas, quase todas, não tarda vão cobrir-se de verde, que a Primavera e os rebentos estão aí. E logo logo os pintassilgos vão voltar a fazer ninho naquela árvore folhosa. Os velhos, outrora pais jovens, passeiam agora, devagar, os corpos cansados, sacos de memórias às costas, passados que teimam em voltar ao presente, para ali ficarem, à frente dos seus olhos baços.

Parece que foi ontem. Mais logo, quase lusco-fusco, vai haver um rouxinol a cantar. Ou será um melro? Se estivesse aqui a minha mãe, ia tirar-me as dúvidas. Ou o meu pai, que também sabia dessas coisas. Mas o meu pai já partiu. (sabes, hoje, dizem, é o Teu Dia, o Meu Dia, o Dia do Pai?!… Já não me ouves, mas… um grande abraço, Pai…). E a minha mãe está longe. Talvez esteja a ouvir cantar outros pássaros. Na natureza ou na sua cabeça. Que é agora, se calhar, o seu mundo.

Parece que foi ontem. 

Manuel Sá

Nokia 791
O ninho de pintassilgo da minha praceta

 

 

Autor: 60emais

Português.

7 opiniões sobre “CRÓNICAS DA MINHA PRACETA – AS COISAS MUDARAM MUITO, POR AQUI”

  1. “Parece que foi ontem”. Espantoso. Usei há pouco a frase, não num contexto tão poético. E garanto que ainda não tinha lido este belíssimo texto. Bem sei que é uma frase muito comum, mas aqui, até pela repetição, adquire uma força expressiva incrível. Parabéns, Manuel, e obrigada por partilhar as emoções e as memórias que o seu bairro lhe evoca. Afinal, quanto de inspirador nas coisas do quotidiano, não é?

  2. É isso aí, amigo. Resta-nos a memória, a memória do que foi o nosso mundo, a nossa vida. Soubémos ou não, vê-la, apreciá-la e, até, (quantas vezes?) deplorá-la. E hoje recorda-mo-la nas pequenas (e grandes) coisas que a constituiram. É bom recordar, mas quanta dor custa a comparação com o nosso actual quotidiano? Que falta fazem os negros melros de bicos dourados esvoaçando livres sobre as hortas nas antigas madrugadas? E os trinados ao desafio que nos extasiavam, dos rouxinóis empoleirados nos loureiros dos entardeceres passados? E os risos cristalinos e despreocupados da nossa infância? Sim, parece que foi ontem, mas tu sabes trazer esse(s) passado(s) para o presente de cada um que te lê. Ainda bem.

  3. Soberba crónica. Faz viajar qualquer pessoa com memórias de outros tempos.
    Muito bem, Manuel.

  4. À Anália, ao Reinaldo (olá, meu GRANDE amigo de sempre!…) e à Mariana, o meu muito obrigado por “me” visitarem e pelas palavras de tão grande comunhão e incentivo.
    Abraço.
    Manuel

  5. Fez-me viajar e relembrar como a praceta era na altura. Muito bom! Já agora posso explicar algumas coisas, sim porque eu era dos rapazes que jogava aos 4 cantinhos, corrida de caricas, ao guelas, ás corridas á volta da praceta com marcações no alcatrão tipo atletismo e muitas outras brincadeiras….a arvore dos pirulitos (cada um tinha um lugar marcado em cima da arvore, e ai de alguém que apanhasse no meu lugar…) E no Santo António? Decorávamos a praceta toda com bandeirinhas em papel colorido e coladas umas ás outras com água e farinha. A fogueira era o ponto alto da noite. Enorme, tinha de ficar toda a noite a arder, até alguém chamar a policia e os bombeiros claro. 🙂
    Ficava aqui a lembrar episódios mais uma hora e a viajar pela minha infancia.
    Obrigado pela viagem.

    Ah só mais uma coisa, quando quiser saber as regras da corrida de caricas nos lancis, eu explico 🙂

    Abraço
    Nuno Afonso

  6. e vejam só… além do que a minha memória fixou, a quantidade de “coisas” que ficaram por dizer. Claro, quero aprender mais convosco… Obrigado!

  7. Já anteriormente tinha feito uma para tentativa deixar um comentário neste excelente texto que faz parte do seu baú de recordações. Também partilhei quando seu hóspede vindo de Angola no período da descolonização, de alguma vivência nesta sua Praceta aqui relembrada e que nos trás à memória outras muito gratas recordações.
    Um abraço
    Raul

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