ANDRÉ SARDET…

… Vou tratar-te por tu. Isto, porque és cá de casa. E tens idade para ser meu filho. E os meus filhos e os meus netos gostam de ti. Eu também. Nós não te conhecemos, pessoalmente. Mas é como se conhecessemos.  Os meus netos e os pais já te foram ver actuar num espectáculo não sei onde. E vieram de lá cheios das tuas canções. Os pais e os filhos. Ou seja, os meus filhos e os meus netos. Não me disseram que te iam ver. Ou então disseram, mas devo ter tido outra coisa para fazer. Se calhar menos interessante. Ou menos importante. Mas foi assim. Eles foram estar contigo, com as tuas canções, com mais uma série de miúdos e seus pais e talvez, também alguns avós. E eu… ausente. Fica para a próxima.

Comecei a ouvir-te há uns tempos. Já nem sei bem. Mas foi quando saíu um disco teu e uma das canções andou meses e meses na boca (e na cabeça) de montes de gente… graúdos e miúdos. E aí foi a minha primeira surpresa. As crianças “agarraram” música e letra e… era vê-los e ouvi-los contigo ao colo. Boa! Se calhar querias apontar para a idade mais acima e afinal… as crianças tomaram também como suas a letra e a música. Ou então, foi mesmo de propósito. Depois, ouvi-te em canções que entraram em peças de teatro para crianças. Também se costuma dizer “teatro infantil”. Cá para mim, é teatro. Bem vistas as coisas, dirige-se a todos: adultos e crianças. Isso mesmo. Interessa a todos.

Mais recentemente, saíu o disco que tem aquela canção do “ Adivinha quanto gosto de ti…”. Aquilo pegou mesmo, na cabeça de graúdos e miúdos. Os meus netos sabem-na toda. Por vezes, quando os vou buscar à escolinha e me atrevo a trauteá-la – não dou uma para a caixa, nesta coisa de cantar – é muito vulgar esquecer-me da letra. Já para não falar da música. Altero tudo. Então, fico exposto à crítica impiedosa deles. Claro. “Oh avô, não é assim, avô!…” Eu digo “tá bem”, e eles então começam a cantar como deve ser. Eles é que sabem.

Mas é nos dias em que, no carro, preciso de fazer viagens mais longas, que dou por mim a querer ouvir o disco todo. Canção a canção. Sozinho. Calmamente. Ouvir e “olhar” para dentro da música. Que eu não sou capaz de reproduzir, mesmo a acompanhar-te. Mas é sobretudo nas letras que eu me detenho. E chego a voltar a ouvir uma canção para ouvir-te repetir os versos. E a tua forma de os cantar, como tu fazes. Sim, porque isso tem que se lhe diga. A tua forma de dizer, cantando, os versos. Forma de dizer que implica, também, as passagens entre as palavras, ou seja, os mini-silêncios entre as palavras. Aquele tempo preciso. Não mais. Não menos. Não percebo nada disso, mas sinto que… só podia ser assim. Mini-silêncios, digo eu. Em termos técnicos, a designação será outra. Paralinguagem. Provavelmente. E isso que fazes, e em que eu reparo, é parte muito importante da forma de dizer o poema. E da sua ligação à música, formando um todo. Que é coerente. Em que verso e música, e a tua interpertação são… unha-com-carne. Fundem-se. Está lá tudo. E muito bem.  Ponto final.

De vez em quando, vou à procura de novidades para os meus netos. Livros. Vídeos. Discos. Os discos andam quase sempre no carro, para ouvirmos. Foi a olhar o mar que me pus a ouvir o disco, pela primeira vez. Havia um solinho entre nuvens. Então, a certa altura, uma das canções “acertou-me” em cheio. Pelo poema. Pela tua interpertação. Foi a canção da “Boneca Joana”. A meio, já eu sustinha as lágrimas. Paciência. Não consegui aguentar. Bela. Profunda. De uma verdade arrepiante. De um alcance… que chega ao horizonte longínquo, num fim de dia de nitidez total… E no entanto, simples. Simples. Isso mesmo. Simples. De uma eficácia… estrondosa!…

Tenho o disco à minha frente, enquanto escrevo. Aqui estás tu, sorridente. Tens razão para estares assim. Direi melhor… para seres assim. Isso. Deves ser assim. Leio o que dizes, na “papeleta” anexa:  “Agradeço e dedico este álbum à Maria e à Catarina. Com elas partilhei e vivi a criação destas músicas e nelas está reflectida a não quantificável felicidade que senti nesses momentos e que quero eternizar com esta gravação. Foram ímpares e irrepetíveis os intantes que me fizeram redescobrir a fantasia, o sonho e a imaginação, sempre sem limites ou preconceitos. Este projecto é especial, para vocês e por vocês. Obrigado, do fundo do meu Mundo de Cartão… sou muito feliz convosco. Agradeço ao Hugo, Diogo, à minha Mãe e acredito que o meu Pai, onde quer que esteja, está a torcer e a vibrar. Também é vosso. Também é teu, Zé!… Agradeço ao Telmo…

Parabéns! Muitos parabéns, por tudo o que já nos deste! E agradecemos, os meus netos e eu, pelo teu trabalho. Pelo teu empenho e qualidade. E decerto, muitas crianças, seus pais e avós, educadores em geral e… muitos outros, hão-de querer também agradecer-te e aguardar outras obras tuas. Que tenhas longa vida. E que a tua inspiração e felicidade continuem. Sempre.

E… até sempre. Com um grande abraço.

Manuel 

Autor: 60emais

Português.

Um pensamento em “ANDRÉ SARDET…”

  1. A questão está na complexidade da simplicidade. É isso mesmo. Toca lá, onde é preciso, este senhor. Durante muito tempo, nem sei bem porquê, senti necessidade de esconder que gostava de o ouvir. Estereotipos socias. Hoje em dia digo-o sem preconceitos, “gosto de André Sardet, e mais uma vez, devo ao meu irmão, esta abertura de alma” :-).
    O que diz é mesmo assim, quem ouve, e vê, e lê todas as palavras contidas nos poemas, não consegue ficar indiferente. A Boneca Joana é uma das minhas preferidas, e também “Anjo da Guarda”, que sempre me faz lembrar da mesma pessoa.
    Obrigada por partilhar este gosto, Manuel.

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