OS CÃES DA MINHA PRACETA NÃO SABEM LER!…

Pela manhãzinha, antes das sete, já os cães da minha praceta andam pela relva, no primeiro xixi e cocó do dia. Chegam, largam o produto, depois correm, saltam, longe ou perto dos donos. Os donos, esses seres inteligentes que têm a faculdade de pensar. Supostamente melhor e mais rapidamente que os bichos. Os donos. Mulheres e homens, raramente crianças. Os donos. A verem os animaizinhos largarem a mijada ou a poia na relvazinha. Relvazinha que deveria ser da menina ou do menino. Mas é dos cãezinhos, alguns, cãezões façanhudos.

Os cães, por vezes, até parece que querem ler o que está numa placa. Diz: Este jardim também é teu. Respeita-o! Mas os cães, ali parados a olhar a placa, desistem. Concluo: os cães da minha praceta não sabem ler. Ou então até sabem, mas não ligam. Isto porque, logo após, até podem largar mais uma vez o produto. Se for cocó, ainda se põem a arrasar a relva com as patas traseiras. Há dias, uma mistura de terra, relva e produto canino atingiu-me em cheio. Nas  pernas. Vá lá… E o cão, sob a complacência e indiferença da dona, lá continuou, naquele jeito de quem anda-e-quase-corre-aos-saltinhos. Feliz da vida. Da dona… nem um pio, como um “desculpe”…

Após ter sido plantada, a relva deve ter estado sossegadinha talvez… uma semana.  Agora, rolinhos por todo o lado, buracos, terra à vista, círculos carecas de relva, em volta de arbustos, onde os cães fazem volteio. Como os cavalos, no picadeiro. E os donos, sorridentes, a assistir. A ver qual dos cães – e há pelo menos dois buldogs e três rot-não-sei-quê – faz a curva mais em grande speed e, logicamente, em menos tempo. O que os donos sorriem?!… E o que eles falam das performances dos seus q-u-e-r-i-d-o-s?!… Um encanto!… Há dias era sobre as rações… as que deixam o pêlo assim e assado…

Se alguém, como se costuma dizer… chama a atenção… oh, o que pode ouvir?!… Insensibilidade… não são amigos dos animais… os animais também têm direitos… a relva não tem uso nenhum, as crianças não vão para lá… os cães precisam de um espaço na rua…

Ou… meta-se na sua vida… o cão está a ficar nervoso… devia mas era ver outras coisas que estão mal na cidade… tens é inveja de não ter um cão como o meu… E há os que podem dizer: estás aqui estás a levar… Esses são os que vêm de noite, altas horas. E levam os cães para o parque das crianças. E divertem-se a ensiná-los a subir e descer o escorrega, ou as escadas da paliçada.

Pensam que é só na minha praceta?…Tá bem, tá… A praga chegou a todo o lado. Do Bairro do Calhau às Avenidas Novas. Do Bairro da Boavista a Telheiras ou Alvalade. Em Lisboa, no Porto. Por todo o lado. Quem não tem cães e não está de acordo com esta invasão canina, que se cuide. É que os cães são muito duros de cabeça. Não aprendem a ler, e portanto… Pior, não aprendendo, não podem ensinar os donos. Que, pelos vistos, vão ter ainda mais dificuldade em aprender, os coitados.

Já estive para chegar ao pé de um cão e perguntar-lhe: então, já puseste o teu dono na escola?… Olha que ele precisa!… Mas acho melhor não o fazer, que o bicho pode zangar-se e largar-me a mijada em cima. Ou atirar-se a mim. Se os donos não gostam de ouvir as verdades, como é que os cães hão-de gostar?!… Ná, nessa não caio eu.

Manuel Sá

 

Autor: 60emais

Português.

3 opiniões sobre “OS CÃES DA MINHA PRACETA NÃO SABEM LER!…”

  1. pois. assim é na verdade.Mas assim como somos responsveis por uma criança que se inicia na linguagem do mundo que veio habitar,também o devemos fazer pelos animais.Eles ignoram a propriedade, com vedações…daqui até ali é meu; preceitos de higiene (mesmo assim é notável o cuidado em tentativas vâs que têm de cobrr os dejectos) ou sentidos de conveniência civilizacional. A cidade grande produz estas desarmonias- vencer solidão com aquisições de seres que simulam vinculo afectivo…estejam as pessoas preparadas ou não para tudo o que implica ter a vida de um ser à nossa guarda . tenho três animais que eram abandonados…bem não sei se os tenho ou se eles me têm .Aqui tenho um pinhal onde nos passeamos uns aos outros.È claro que quando mudo de casa procuro que tenha as condições para não incomodar ninguém (nem a mim ).Somos felizes. Eu, sou mais eu depois que abri caminho para contar com eles nos meus dias.Eles respondem com rabitos que sorriem enquanto abanam felizes por terem um lugar para viver.
    Que a Zanga pelas condições desagradáveis que relatas não se vire injusta para os nossos irmãos cães,Toda a criação é louvor à VIDA. Mas isto a que chamamos vida, que tão mal se harmonisa com a própria natureza, subverte a própria análise de quem somos, do que devemos aos outros, e até dos direitos e deveres inerentes.
    Quem disse que viver é fácil ?

  2. Pois, os cães não têm a culpa dos donos que têm… mas nós, os cidadãos, e as cidades (ruas, passeios e jardins) que são de todos também não deveríamos ter de tropeçar a toda a hora nos dejectos deixados pelos donos irresponsáveis. E não será possível desencadear uma campanha de sensibilização?

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