ASSÉDIO MORAL

Encontrei o Chico. É um rapaz mais ou menos da minha idade. Entrou no banco na mesma altura. Talvez dois meses antes. Ele dizia-me: sou mais velho que tu. Mas não. Na idade, estou à frente. Um anito e mais uns pós. Na banca, sim, era mais velho.

Por lá andámos, pela banca. Quase 35 anos. Enfrentámos os mangas de alpaca. Aprendemos como fazer e como não fazer. Enfrentámos a revolução informática. No princípio, chamava-se processamento electrónico. Ou coisa assim. Depois, a loucura da bolsa. Tudo antes da revolução, a outra, a de Abril. No dia 25 ficámos com o banco à vista. Os militares não nos deixavam lá chegar.

Depois… a euforia. Liberdade. A alteração completa do poder. Na política. Na banca. Mas, além disso, acima disso, nas ruas. E nos serviços do Estado. Em todo o lado. Em todo o país. Uma transformação profunda. Com sede, com ambições, com dinâmica… com… com… e sem. Sem experiência, sem preparação, sem referenciais. Tantas vezes ao sabor dos ventos e das marés, de … é por ali, venham, é por ali. Ou, têm que ir… têm que ir por aqui, por ali…

Eu e o Chico fomo-nos encontrando menos. Mas assistimos às grandes transformações. Estivemos dentro delas. Sofremos o impacto. Gostámos do impacto. Puxando por nós. Pelas nossas capacidades. Evidenciando também as nossas fraquezas. A nossa impreparação. Todavia, aguentámos. Tal como antes, na luta para tirar o curso comercial. Depois, na entrada na faculdade. A meio, outras lutas. A tropa. E a guerra colonial. Felizmente, o regresso. Também, ao banco.

A banca em revolução. Bancos que desaparecem. Outros, aparecem. Bancos que são nacionalizados, que deixam de ser nacionalizados, públicos. Voltam a privados. Bancos que compram bancos. Bancos que vêm do estrangeiro. Bancos que engolem bancos. Serviços que concentram serviços. Serviços que desaparecem. Novos conceitos. Achatamento da pirâmide. Racionalização. Emagrecimento. E agências que fecham. E agências que abrem. Aos milhares. Agências que diminuem: em espaço, em pessoal. Mas engordam: em tecnologia, em ofertas, em produtos…

Culturas que integram. Culturas que destroem. Poderes que negoceiam. Poderes que arrasam. Vêm para isso. Arrasar. Bancários contra bancários. Os do banco comprador, integrador… orientados para arrasar os do banco comprado, integrado. Não interessa o saber. Nem o querer. Só o poder de quem compra, ou integra. Bancários divididos. Uma campanha, em massa, a atravessar todo o sector. Como, mais tarde, noutros sectores.

Mudança. Agressividade – palavras novas, no negócio. Em todos os negócios. Palavras-Ideias-Chave. A boca cheia de tais palavras. E nós a vermos que… a intenção é também outra.

Consequências. Diversas. Uma, a principal, para o Chico. E para mim. Também para muitos outros Manueis e Chicos. E para muitas Marias, Manuelas, Isabeis, raparigas da nossa idade. Mais ou menos. Isso, dizes bem, Chico. Mais ou menos. Que consequência?

Os de cabelos brancos ou, os de cinquenta ou mais… estão a mais. Dizia-se. Alguém punha isso a… correr. É preciso sangue novo. Ideias novas. Coragem. Capacidade de adaptação. Resiliência. Em vez de resistência. Maleabilidade, sim. Flexibilidade, sim. Dinamismo, sim. Risco, sim. Poder mudar todos os dias, sim, se necessário. Dizer, fazer hoje uma coisa e também o seu contrário, sim. E continuar como se nada fosse. Clientes! Clientes! Clientes! Objectivos! Objectivos! Objectivos! Resultados! Resultados! Lucro! Lucro!

O Chico, eu, muitos, muitos outros. Dispensáveis. Na lista. Porque… quase 50, ou já 50 ou, mais de 50 anos. De idade. A ouvirmos falinhas mansas: não contamos consigo… sabe, estamos numa fase de mudança … aconselhávamos a que pedisse a reforma… se fosse a si… sabe, é melhor aproveitar agora, porque esta hipótese é só para este ano… no próximo, as condições já não são estas, são inferiores… Porque é que não aproveita?… Depois não diga que não o avisei…

E o Chico, todos os Chicos, as Marias… postos sem nada que fazer. Numa sala. O vazio. Sem trabalho (não lho davam), sem ferramentas (não lhas davam), até sem chefes (não eram precisos) à espera, à espera… ou a mudar de sala, de andar, de edifício. Mas sem trabalho, sem ferramentas, sem chefes. Para os cansar, desanimar, vergar, vencer. Um telefone para todos… vá lá vá lá… Todos os dias. Dias a fio, a mesma vida. A verem novos a entrar. Por metade do preço (ordenado) ou menos. Pois, já percebemos…

Os Chicos, as Marias… Incapazes. Imprestáveis. Inaproveitáveis. Abandonados. Separados dos que iam ficando fora da lista. Por enquanto. Eles, contentes, por continuarem fora da lista. Porém, receosos por poderem entrar na lista. Servis. Ou convidados a sê-lo. Proibidos de falar com os da lista. Parecia mal, aos chefes. E aos chefes dos chefes. Por isso, não falar com eles. Com os da lista. Dentro ou fora das instalações. Na rua, passar para o outro passeio. Ou fingir que se vê a montra, se se aproxima alguém da lista. Sobretudo, não almoçar no mesmo restaurante. Ah, nem tomar café lado-a-lado. Não, nada disso. Parece mal, pois…

Assédio moral. Chama-se agora assim. Levou tempo a que se chamasse alguma coisa. Mas já existia. E sentia-se. Ainda hoje se sente. E continua a existir. Ficou gravado. Em memórias. Com palavras como injustiça, ansiedade, angústia, medo, revolta, mágoa… Deixou rastos na nossa geração. Depois de tantas lutas, experiências… deixou rastos inapagáveis. Mas agora já tem um nome. Um nome técnico. Ou será… científico?

O Chico deu-lhe outro nome. Desde o princípio. Super filha-da-putice. Isso. A pior coisa que o Chico podia dizer de alguém, ou de alguma coisa negativa era: filha-da-putice. Mas a esta juntou-lhe o super. Portanto, foi a pior coisa que lhe aconteceu na vida. Uma super-filha-da-putice.

Encontrei o Chico. Lá vai indo. A caminho dos 62. Nunca mais passei por aquela praça, disse-me. Nem a pé nem de carro. Nem mesmo de transporte público. Não quero passar lá, pá!… Custa-me… fizeram-me mal. Onde é que já se viu um gajo não valer nada aos 50, não me dizes?!…

E que fazes, perguntei. Deitou sobre mim o olhar que agora tem. Nada de importante, disse. Vou ao café, encontro-me com uma malta. Por vezes, vou buscar o neto. É o melhor de tudo. E vejo a televisão, o futebol. A mulher, farta de me ver em casa. Pareces um cão abandonado, homem!… Reage! Reage!… Sabes, ela tem razão. Ainda não consegui… se calhar não vou esquecer a super filha-da-putice. Está aqui – apontou para a cabeça.

Acompanhei o Chico até ao Metro. Foi-me dizendo: o Amadeu, lembras-te dele?… Ainda está pior. Meteu-se nos copos… Agora, a mulher largou-o… Um problema… um problema. 

O dia chegava ao fim. Marcámos novo encontro. Umas nuvens negras sobre a cidade. Os candeeiros com uma luz ténue, ainda. Umas bátegas grossas, espaçadas, a cair. O Chico, após o abraço, a descer as escadas para a estação. Acenei de longe… Até à próxima Chico!

Manuel João Sá.

Autor: 60emais

Português.

3 opiniões sobre “ASSÉDIO MORAL”

  1. Já que falou deste assunto, gostava de deixar aqui algumas considerações: Ser empregado bancário sempre pareceu ser uma profissão prestigiante, o objectivo de muitos. Pensava-se nesta actividade como um trabalho interessante, bem remunerado e limpo, isto é, não sujava a farpela. Para a mentalidade portuguesa estes eram itens mais do que suficientes para considerar esta profissão aliciante. Contudo, nem tudo o que brilha é ouro,e ser posto de lado era uma prática comum, conheço alguns casos, o que não deixa de ser um contra-senso, afinal é a partir dos cinquenta anos que uma pessoa está mais disponível. Esta é a cultura ocidental, por isso, todos por esta experiência um dia hão-de passar, mas nunca ninguém se lembra disto mesmo. Outro aspecto que pretendo expressar é que os funcionários bancários normalmente são pessoas que detêm estudos superiores, mas conheço dois casos no estrangeiro, um deles, na Inglaterra, onde um rapaz com cerca de 23 anos de idade arranjou um emprego num banco por ter visto na montra do próprio banco, um anúncio que pretendia um funcionário. Aqui em Portugal, actualmente teria de ser licenciado e além disso perfilar numa fila com mil outros candidatos. Seria muito cão para o mesmo osso, passe a expressão. É caso para dizer que “quanto mais pequeno é o pássaro, maior é a presunção”, estou-me a referir a este país e à sua cagança, costume que já lá vem detrás, do tempo da monarquia.

    Também já vivi assim um clima como representou aqui, em que o patrão sempre que filava uma vítima, incutia nos outros, ou seja, colegas do desgraçado, o espírito do ostracismo. Nenhum lhe podia falar, a não ser que também quisesse fazer parte da lista negra. Aquele ambiente metia nojo, todos a ver quem é que conseguia bajular mais. As bajulices incluíam rir sem vontade das piadolas do patrão e concordar com tudo o que dissesse, nem que fosse a maior blasfémia, coisa que me revoltava as entranhas. Por fim, se nós, colegas, nos encontrássemos na rua, o melhor seria mudar de passeio, não fosse o patrão passar de carro e ver-nos a conversar, pensaria logo que éramos um grupo coeso e conspirador, contra ele, portanto. A melhor coisa que me aconteceu foi despedir-me. Não fosse esse feliz acontecimento e ainda hoje tinha de lhe olhar para a tromba!

    1. Muitos bancários, assim como muitos outros profissionais noutras áreas de actividade, viveram estas situações aviltantes, que nada dignificam as entidades que as desencadearam. Essas entidades – organizações empresariais e outras – são constituídas por grupos de pessoas. Nesses grupos há as pessoas que têm o poder. Supostamente, deveria ser o poder de gerir, criteriosamente, com suficiente (de bom/boa para cima) conhecimento e capacidade e com sentido humanista. Ao fim e ao cabo, as organizações vivem com pessoas e para as pessoas, não é? É o que se diz, claro. Qualquer aluno de um curso de gestão, de economia, de … aprende isso, papagueia isso, enche a boca com essas palavras. Também por lá andei, pela universidade e tive que estudar isso. Ainda bem. Os princípios são fundamentais. Mas antes, a vida já me havia ensinado também muita coisa…

      Porém, a história é outra. E assistimos à situação de senhores, até muito “bem postos” quanto a cursos, currículos, nome na praça e até próximos dos meandros do poder político, ou a ele ligados (administradores e até presidentes de conselhos de administração) que fazem as maiores safadezas e arbitrariedades, com planos muito bem objectivados, planeados e desenvolvidos ao pormenor, no sentido de promoverem estas coisas de que aqui falamos. Servem-se, para isso, de umas marionetas que lá colocam ou, até, daquela gente menor que se lhes oferece, a troco de ficarem bem vistos e não irem embora tão cedo como os outros.
      Muitos milhares de bancários têm uma longa e interessante história para contar a este propósito. Sobre as indignidades de que foram vítimas e sobre as consequências que daí advieram para a sua vida. Ainda não há nenhum estudo ou trabalho sobre esta temática. Mas um dia vai aparecer. Estou certo.
      Obrigado Milu, pelo seu testemunho.
      Manuel

  2. Excelente crónica. Tim-tim por tim-tim, na forma, no conteúdo, nos sentimentos. Digna de publicação. Parabéns!

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