CRÓNICAS DA MINHA PRACETA – OS VELHOS E O CICLO DIÁRIO DO SOL

CRÓNICA 1

Nas traseiras, nos estendais, açoitada pelo vento agreste, a roupa anda num badanal. Frio. Céu limpo. Azul esbranquiçado. Vejo-o por cima dos telhados, para lá das antenas, duas meio tombadas, sobre as telhas. Hoje, os pombos não fazem delas o seu poleiro. Recolheram-se, decerto, noutro local.

De manhã, no café, ia alta a manhã, o frio nas conversas. Não se percebe o tempo, concordavam duas amigas. Chove de mais… logo a seguir o frio. É de mais!… Uma disse, a outra concordou: hum, hum!… E acrescentou, o croissant a meio: uma pocaria. Isso mesmo. Um erre a menos. Engolido com um naco de croissant.

A minha Praceta é uma aldeia

Na praceta, os velhos rodam ao sabor do sol. A praceta é em ferradura. O sol, quando aparece, depois de galgar os prédios, entra pela parte aberta do U da ferradura. Depois, vai avançando até quase à curva do U. Vai rodando, rodando. Na praceta, vai nascendo a sombra. Um certo frio. O sol poisa depois, mais tempo, na rua que, do lado esquerdo, dá acesso ao U da praceta,

O movimento varia com a época do ano. Óbvio. E com a altura do sol. Então, os velhos andam de banco em banco, ao longo do dia, na zona ajardinada da praceta. Como nem sempre há banco onde poise o sol (erro de plano dos paisagistas da câmara) eles usam cadeiras. Trazem-nas de casa. Dispoem-nas em círculo e assim ficam, a conversar. Parece uma mesa-redonda. Sem mesa. Conversam. Riem. Metem-se com os vizinhos que atravessam a praceta. Os vizinhos respondem. Quando começa a pingar, recolhem-se sob as varandas ou nas entradas dos prédios.

Hoje, lá andaram eles, a girar, com o sol. O grupo anda entre os três (há três que são permanentes) e os seis. Por vezes, são oito, mas isso é no Verão. Começam a chegar à praceta pouco depois das nove, nove e meia. Trazem jornais. Trocam jornais. Trazem que comer. Tremoços. Amendoins. Pevides. Rebuçados. Quando é tempo, castanhas. Fruta. Precisam de canivete. Partilham. Como partilham as histórias, os saberes, as informações, as brincadeiras. Há os do Sporting e os do Benfica. Parece que também há um do Porto. E outro do Belenenses.

Discutem de tudo. Política. Futebol. A vida dos vizinhos, em voz baixa. Os programas da televisão. O que faz, ou não, a câmara. O que faz, ou não, a junta. Os preços. O estado das ruas. O trânsito. Os ladrões. Os cães, que estragam a relva. Os donos dos cães, que os levam ali para aliviarem a tripa e a bexiga. O desacato que houve, altas horas, em casa do vizinho tal. A ambulância que chega, luzes azuis a girar. O vizinho que adoeceu, ou partiu. O acidente que houve, ou foi por um triz… No dia seguinte, igual rotina. E talvez mais uma novidadezita qualquer. Como: o vizinho do 11, o arquitecto, trocou de carro outra vez… os do 5, que chegaram há dois anos, divorciaram-se, parece…

Chegado o meio-dia, vão saindo aos poucos, para o almoço. Antes das duas, alguns já lá estão. Juntam-se para o café. Há os que vão à praceta só de manhã e os que vão só de tarde. Os três permanentes, só interrompem no almoço. Mais tarde, até por volta das sete, juntam-se alguns na antiga leitaria-hoje café tipo tasca, para uma suecada. Depois, é o regresso a casa.  

Por vezes, o grupo desaparece da praceta. Vão dar uma voltinha. Vejo-os a caminhar. Três, quatro, por vezes cinco. Passo lento, uma certa organização. Há sempre dois que vêm à frente. Ou que dinamizam a conversa. São os líderes. Um fala mais e mais alto. Foi jogador de basquete. Contou-me: aqui há vinte anos, o doutor… dava-me dois anos de vida. No máximo! Veja bem a qualidade deste bicho. Ainda cá ando… nem a morte quer nada comigo… mau com’ás cobras!… Outras vezes: uma ocasião… E vai por ali fora.

O outro líder é mais… pausado. Tem a voz grave. Vem-lhe das entranhas. Junta-lhe o sorriso. E o brilho do olhar, por detrás dos óculos-quase-fundo-de-garrafa. Costuma andar a trautear umas canções a atirar para o lírico. Disse-me, há tempos: sabe, fui vendedor. Fancaria, sabe?… Corri o país todo. Gostava mesmo daquilo, se gostava!… Passei bons tempos… Os clientes a quererem isto, e mais aquilo, e eu… zás e vira… zás e vira!… Ele a dizer-me isto e o outro: deves ter embarrilado poucos, deves… E lá ficaram os dois a rir.

Na minha praceta, os velhos são talvez a maioria. E na praceta quase só comparecem homens. Há duas mulheres que, de vez em quando, também fazem sala. Um bocadinho. Depois, vão embora. Nesses dias, há alguma contenção nas anedotas e brejeirices. Quando a conversa descamba, elas raspam-se. Com um sorriso matreiro, por vezes.

Os velhos da minha praceta, estão muito ocupados ao longo do dia. Não é só conversar, ler jornais e passear. Eles: 

– informam onde há espaço para estacionar.

– abrem as torneiras embutidas na relva, para a rega.

– vêm avisar-nos, a casa, se deixamos a porta do carro aberta, ou com um vidro em baixo.

– informam sobre casas comerciais, ruas, serviços.

– fecham as portas de entrada nos prédios, se as encontram abertas.

– estão atentos a desmandos ou lutas entre os mais jovens.

– avisam sobre quem faleceu, o local do velório, a hora do funeral e o cemitério.

– comparecem no funeral.

– zelam pelo parque infantil.

– deitam no lixo garrafas e papéis que, altas horas, alguns, de passagem ali deixam.  

Enfim, os velhos da minha praceta, têm um papel importante nesta nossa pequena comunidade.

E mais do que isso. Cumprimentam-nos. Conhecem-nos, assim como aos nossos filhos. Rejubilam com os nossos netos. Um dos líderes, o antigo jogador de basquete: lembro-me de o senhor trazer o seu filho às cavalitas… um dia de muito calor… parece que foi quando vieram ver a casa, pela primeira vez… agora já o senhor anda aí com o seu netinho, veja bem… é parecido com o pai… ah pois é… é… é!

A minha praceta, é uma pequena aldeia. Onde os velhos, nos dias frios, fazem o mesmo que todos os velhos. Em todas as aldeias do nosso País. Os velhos da minha pequena aldeia, são meus companheiros na vida. De todos os dias. Faça sol, faça chuva. Da Primavera… à Primavera. Um ano a seguir ao outro. Enquanto existirmos. Eles. E eu.

Por isso, a primeira das CRÓNICAS DA MINHA PRACETA, é-lhes dedicada.

Manuel Sá

Autor: 60emais

Português.

5 opiniões sobre “CRÓNICAS DA MINHA PRACETA – OS VELHOS E O CICLO DIÁRIO DO SOL”

  1. Eu moro nesta praceta e era mesmo assim. Tenho pena que já não seja tanto assim.
    Crónica muito boa.

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