2010 – O QUE DIZ “A FOLHINHA” BORDA D’ÁGUA

BORDA D'ÁGUA O VERDADEIRO ALMANAQUE, ou "A FOLHINHA"

Ano Novo, Vida Nova! Palavras. Desejos. Que se se começam a assumir quando, ainda criança, se é “apanhado” pela evidência de que há ciclos na vida. Ciclos que se chamam anos. Na passagem de um ciclo ao outro, todos querem que o seguinte seja melhor. Natural.

É útil ter estes ciclos anuais na vida. Correspondem a verdadeiros ciclos da natureza. Isso liga-nos a algo muito evidente , que “se mete pelos olhos dentro”. De um modo geral, por muito distraídos que sejam, quase todos se sentem mais organizados e equilibrados se pensarem nestes termos: estamos a sair de um ano, vamos entrar noutro.     

Também eu estou “apanhado”, desde sempre, por esta lógica, aceite e assente,  dos ciclos anuais. Anos que têm quatro estações: Primavera, Verão, Outono, Inverno. Que começam e terminam durante a noite – logo, logo após as zero horas do dia 1 de Janeiro e as vinte e três  horas e cinquenta e nove minutos e cinquenta e nove segundos do dia 31 de Dezembro. Rigorosamente. Podíamos ir mais longe: aos décimos, aos centésimos… de segundo.

Precisamos disso. Desse rigor. Desses balizadores. Cada um de nós. O mundo precisa disso. Em todos os seus lugares, em todas as suas dimensões, em todas as suas actividades. Dá-nos segurança. Tranquiliza-nos. Orienta-nos. Guia-nos. Estabelece linhas de fronteira.  Dá-nos referenciais comuns. O antes, o agora, o depois.

Por mim, a passagem de um ciclo anual a outro poderia ser em qualquer altura. Em tempo, as chamadas “férias grandes” definiam os meus ciclos. Acabavam as aulas, seguiam-se os exames. Em Agosto e Setembro, o pousio. Em 7 de Outubro, exactamente, a escola voltava. Nesse dia, a passagem de um ciclo a outro. Dia inesquecível, fantástico. Para mim e para muitos da mesma idade. Depois, vieram outros ciclos, com o avançar da idade.

Há os que preferem os ciclos definidos pelo dia de aniversário. A idade a avançar. Como tijolo sobre tijolo. A sentir-se que se avança. O dia de anos como mais um passo para a não-vida:  a perda de energia, de capacidades… Os horizontes a baixarem… O que era bom vai-se indo.  

Mas há também quem sinta o dia de anos como a vitória da vida. Contra a não-vida. Sabe-se que a não-vida há-de chegar. Mas, enquanto há aniversários, há vida. Então pensam: já cheguei aqui, pelo menos. O caminho faz-se caminhando. Um dia e mais outro… Um ano após outro. Enquanto houver vida.

E há ainda os que, a partir de certa idade, mandam às urtigas a roda da vida. Dizem algo como: não faço mais anos. Decidem ficar com a idade de quando decidiram tal coisa. É uma saída. Bem lá no fundo, não se esquecem de que… fazem anos. Mas não se importam com isso. Ou dizem que não se importam. Sobretudo, não querem que lho recordem.

O normal é querermos passar muitos desses ciclos anuais. Os do calendário geral, ou qualquer outro que nos sirva. Falamos sobre isso. Lemos sobre isso. A comunicação social lembra-nos esses ciclos e põe em destaque as passagens entre eles. É assim.

Ainda não sabia muito bem o que era o Ano Novo, da passagem de ano e afins, e já ouvia pais e avós falarem da “folhinha”. E a “folhinha” era um caderninho que dizia muitas coisas: sobre os astros, sobre o tempo, a agricultura, as hortas… Mais tarde descobri que a “folhinha” se chamava, afinal, “Borda d’Água”, a mais antiga publicação que conheço, e cujo conteúdo interesssava a quem a sabia ler e a quem não sabia.  

É uma publicação com 81 anos de existência. Em papel de jornal. A preto e branco. Pequena. De 24 páginas. Facilmente manuseável. Na capa diz que é “O Verdadeiro Almanaque Borda d’Água”, um “Reportório útil a toda a gente”. E ainda na capa: “Contendo todos os dados astronómicos e religiosos e muitas indicações úteis de interesse geral”. E tem o calendário do Ano, além da indicação da Editorial Minerva, sua localização e o preço: 1,50€, IVA incluído.

Compro todos os anos o “Verdadeiro Almanaque”. É  vendido nas ruas. Borda d’Água, porque anunciava as marés e era afixado nos cais, à beira da água. Traz ainda na capa o “velho da cartola”. Meteorologista, com ar simpático, óculos, cabelo comprido, libré e colete. Com o guarda-chuva e o almanaque debaixo do braço. O velho pendurava o almanaque na margem do rio, com alfinetes ou molas.

E o que diz o Almanaque? Por exemplo, em Abril, no crescente (ou seja, estando a Lua em fase de quarto-crescente) deve-se semear na horta, em local definitivo: abóboras, alfaces, batatas, beterrabas, brócolos, cenouras, couves, favas, melão, melancia, nabo, pimento, rabanete, salsa etc. Em viveiro, semear: morangueiros, cebola, pepino e tomate. Na 2.ª parte do mês, semear feijão temporão.

Mas o almanaque do “velho da cartola” também se preocupa com o aquecimento global e as alterações climáticas. E na última página, assinada por Célia Cadete, que dirige a publicação, lê-se, sobre 2010: “Vai abundar a água, o Inverno será rígido e frio; a Primavera ventosa; o Verão húmido e aprazível”. E ainda, que: “Os mantimentos serão em abundância, mas caros. A vindima muito boa, o azeite e o mel de excelência”. E muito mais se pode ler. 

Vale a pena comprar o Borda d’Água. Uma memória do tempo, que sobre os tempos (anos, dias, horas, minutos, movimento dos astros, festas, feiras, romarias, agricultura, jardinagem, animais…)… sobre os tempos, informa, sugere, prevê, aconselha, ensina… E ainda oferece algumas anedotas, poesia e ditados populares. Enfim, é “O Verdadeiro Almanaque”! Há 81 anos!

E, já agora… Bom Ano Novo!

Manuel

Autor: 60emais

Português.

9 opiniões sobre “2010 – O QUE DIZ “A FOLHINHA” BORDA D’ÁGUA”

  1. O meu pai costumava comprar o Borda d’Água no adro da igreja, depois de ter assistido à missa. Uma vez por outra, quando o tempo estava convidativo gostava de ir à sua missinha, mas sem exageros. Tinha uma relação saudável para com a igreja, o que eu achava muito bem, contrariamente à minha mãe, que sempre que por qualquer motivo de força maior, tivesse faltado à missa semanal, sentia-se tão culpada como se tivesse cometido o maior dos pecados. Coisa nada saudável, portanto. Mas eu estava a falar do Borda d’Água, mal o meu pai chegava a casa eu açambarcava-o logo e lia-o de fio a pavio. Depois, durante o ano, consultava-o sempre que pretendia cortar o cabelo, para me inteirar de qual a fase da lua. Dizia-se então, que era conveniente cortar o cabelo na fase do quarto crescente, porque favorecia ao seu fortalecimento. Verdade ou não, o certo é que havia muito quem seguisse este preceito. 😀

  2. ola eu gostava de saber se enviao para casa o borda d’ agua.porque eu nao vivo em portugal mas sim na irlanda e gostava de ter o borda d’agua porque eu quando vou a portugal compro sempre e trago para ca.
    um grande abraco a toda a equipa do borda d’agua,fico ha espera de resposta.

    1. Caro Carlos Santos, muito obrigado por ter vindo ao meu blog. Em relação à questão que põe, venho dizer-lhe que vou tratar de apresentar a sua petição à direcção do Borda d’Água. Estou certo de que tudo irão fazer para lhe enviarem o de 2010.
      Terei muito gosto de continuar a tê-lo como visitante e agradeço os comentários que deseje fazer.
      Abraço do
      Manuel

  3. Bom ja agora pq nao mo mandam aqui pra inglaterra pois tenho uma horta e sempre que preciso dele tenho de me deslocar a portugal e nem sempre la vou.

  4. Caro Vítor Silva

    Agradeço ter vindo ao meu blog 60emais. Quanto ao pedido que me apresenta, e uma vez que eu não tenho nada a ver com o Borda d’Água – sou apenas um interessado no almanaque tal como o Vítor – a sugestão que tenho para lhe dar é ir ao Google e ver lá os contactos com esta publicação. Com base nisso, escreva para o Borda dÁgua e solicite que eles lhe enviem um exemplar. Penso que isso é possível, desde que indique qual a sua morada. Não sei o preço, para o Estrangeiro, mas eles saberão informá-lo.
    Entretanto, enviei o seu pedido para a Editorial Minerva, que é quem publica o Borda d’Água.
    Até breve.

    Manuel

  5. o borda dàgua é um espectaculo e compro todos os anos pq ta sempre certo nao sei como!!! adoro este mini jornal é o melhor do mundo. vejo as luas todas devido ás minhas amigas q tao de bebe e acerta sempre claro pq quem manda no mar é a lua quanto mais nos seres humanos q sao muito mais pequenos!é o melhor e nao ha hipotese

  6. Caro Manuel,

    Encontrei o seu blog através de uma pesquisa que estava a fazer sobre o Almanaque e fiquei bastante esclarecida com a sua explicação sobre esta publicação que também eu gosto muito. E concordo plenamente consigo quando diz que o Almanaque Borda d’Água é ” Uma memória do tempo, que sobre os tempos (anos, dias, horas, minutos, movimento dos astros, festas, feiras, romarias, agricultura, jardinagem, animais…)… sobre os tempos, informa, sugere, prevê, aconselha, ensina…” porque através dele nós e as gerações seguintes poderão ter acesso a informações importantes sobre o nosso país, para além de ser um testemunho da nossa cultura e das nossas tradições.

    Melhores cumprimentos,
    Cláudia Silva

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