2010 VEM AÍ!

C

Precisamos das datas. De referenciais. De épocas. De tempos. Habituámo-nos a isso. Aprendemos isso – foi-nos dito, apreendemos isso. Ficou nosso. Ficou “cá dentro”. No cérebro. No corpo. Na comunicação. Na comunicação – connosco próprios e com os outros. Até na comunicação com e sobre a natureza. Por exemplo, há dias, ao olhar uma árvore da minha praceta, dei comigo a dizer-lhe: “No ano passado, por esta altura, não tinhas nenhuma folha verde. Este ano já tens, porquê?” A árvore não respondeu, claro. Afinal, eu estava era a falar para mim. A interrogar-me. E também não encontrei, por mim (e para mim) a resposta.

É normal pensarmos, na altura da mudança de ano, noutras mudanças de ano que já vivemos. Quantas ficaram gravadas, de forma particular, na nossa memória? Quer dizer, quais  nos vêm á cabeça hoje – por boas e más razões? Razões que são… recordações. Não serão muitas. De umas e de outras – boas e más. Uma forma talvez interessante de fazermos uma revisita ao nosso passado. Em torno das passagens de ano.

Quais as que mais recordo? Aquelas que passava a dançar, na sociedade recreativa operária lá da terra? A primeira passada em Lisboa, na Casa da Comarca de Arganil? A dançar, claro. E a beber uma cervejita – aliás, foi aí que provei cerveja pela primeira vez. E a comer um cachorro, coisa também novidade. Ou seria um prego, designação que, na minha terra, só se dava a material de ferro, para pregar tábuas e coisas quejandas?…

Ou a primeira na guerra de Á frica? Ou a segunda? Ou a primeira depois de ter sido pai? Ou a primeira, já em regime de liberdade, depois do 25 de Abril?

Talvez todas essas tenham sido marcantes. Mas, quando chego próximo da data e, sobretudo no dia 31, vem-me sempre à memória que, teria onze anos, talvez, o meu pai me disse que iríamos ver a passagem de ano na televisão. Seria a primeira vez, para nós dois. Só nós, lá de casa. Iríamos caminhar cerca de quilómetro e meio até à sociedade recreativa, para vermos a passagem de ano. Depois disso iríamos regressar. Mais quilómetro e meio. A pé. Por entre olivais.

Estava uma noite fria. Uma noite a que costumo chamar noite branca. Luar. Dizia um dos meus livros da primária: não há luar como o de Janeiro. Assim estava. Mas eu chamo-lhe noite branca porque, não havendo nuvens, além do luar, está tudo calmo e sente-se gear. E o luar não é amarelo, ou dourado. É esbranquiçado. Quando assim é, diz-me a experiência, no dia seguinte, no solo, sobre o verde, há um manto branco. De geada. Por isso, passei a chamar-lhe noite branca. São, para mim, noites brancas. Se pudesse dar um nome a essa cor diria, cor branca fria. Não sei se há. Mas para mim é essa cor.

Então… Pusemos por cima o que tínhamos de mais forte, para suportar a geada da noite branca. Meu pai colocou-me sobre a cabeça uma boina. Contra a maresia, disse ele. Boina à espanhola, dizia-se. Mas era uma boina basca. Havia à venda, nas feiras. Era preta. Meu pai lembrou-se de ir ver onde estava o nosso cão. Era costume ele aparecer a saltar à nossa volta sempre que saíamos a porta, de noite. Mas ele não pareceu.

Era rafeiro. Atarracado. Porém, ligeiro. Ao andar, parecia que dava uns saltinhos. E andava um pouco de lado, dizia eu. Era muito bom de vigia, o nosso Tejo. Ladrava em volta da casa, quando sentia alguém por perto. De noite, aplicava-se ainda mais. Fomos ver dele, antes de nos fazermos ao caminho. Não o vimos. Chamámo-lo. Não apareceu. Fomos buscar a lanterna. Demos voltas e mais voltas. Até que ouvimos um gemido, muito ténue. Vinha da casita, nome que demos a uma pequena arrecadação. Ainda hoje é… a casita. Abrimos a porta. Iluminámos com a lanterna. O Tejo estava a agonizar, na casita. Em cima de umas palhas de milho. Sofria e olhava para nós, ali deitado. A pedir ajuda. Como se falasse. Pegámos-lhe. Gemeu mais ainda. Um dó. Pousámo-lo, devagarinho. Vomitava sem parar. Quis levantar-se, ele mesmo. Num esforço supremo. Mas tombou de seguida. Para sempre.

Quando passa o ano, muitas vezes sinto, ainda, o calor do nosso Tejo, a ir-se, lentamente. Eu com a mão a fazer-lhe festas no corpo. O cabelo castanho doirado a ficar rijo. O Tejo a ficar hirto. Com um sorriso, era o que me parecia. O meu pai ali ao lado. A passagem de ano na televisão a desaparecer completamente. A noite branca a avançar. A geada a começar. Enquanto, em silêncio, nós dois voltávamos a casa.

Saberíamos dias depois que o Tejo fora assassinado. Carne envenenada, foi o que lhe tirou a vida. Na noite branca. Pouquinho antes de ser Ano Novo.

O melhor 2010 possível!

Manuel

Autor: 60emais

Português.

Um pensamento em “2010 VEM AÍ!”

  1. Uma história muito bonita e contada com muito sentimento, tal como deve de ser.

    Ao lê-la não pude evitar lembrar-me de um cãozito, rafeiro, que um dia foi nosso, meu e de toda a minha família. Chamava-se “Quiço”. Em tempos pertenceu a uma família que tinha uma filha com a qual me dava muito bem, por isso eu era uma visita frequente naquela casa. Um dia houve, em que numa das minhas visitas aos seus donos nos cruzámos, eu e o cão, que passou por mim como quem não quer nada, sem tugir nem mugir! Não tinha ainda dado dois passos, quando completamente assarapantada, senti uma dor forte na barriga de uma das pernas. O cão, traiçoeiro, havia-me surpreendido nas minhas costas e ferrou-me uma valente dentada. Foi nesse instante que compreendi o sentido do adágio, “cão que ladra não morde”, porque este não ladrou, passou por mim com sobranceria e mordeu-me à traição. Alguns anos depois deste episódio, esta família mudou a residência para Lisboa e o cão abandonaram-no à sua sorte. Um dia passei por ele, que me reconheceu e seguiu-me até à minha casa. A minha mãe, que sempre foi uma pessoa muito sensível à causa dos animais, ao vê-lo logo tratou de o alimentar. Ritual que se repetiu por mais uns dias, até que não mais deixou a nossa casa. Ele adoptou-nos como a sua nova família. O mais curioso desta história é que o animal parecia ter entendido que lhe havia sido dada uma mão. Era absolutamente obediente, deixava até que dois gatitos, sobreviventes de uma ninhada, lhe fizessem todas as tropelias, mordiscando-o no corpo até em locais pouco apropriados para mordidas, o que fazia exasperar a minha mãe, que achava que ele numa atitude de nunca sobrar, permitia tanto atrevimento, e era ela quem lhe acudia, enxotando os intrépidos e juvenis gatitos.
    Mas o que mais nos comovia era o facto de ele ir buscar a minha mãe ao emprego. Umas vezes adiantava-se e ficava pacientemente à espera. Outras vezes desorientava-se na medição do tempo e ao pôr-se a caminho encontrava a minha mãe a meio do percurso. Enfim, quanta dedicação, quanto afecto aquele animal sentia por nós!
    Um bom ano para si!

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