NATAL EM FAMÍLIA… E ALGO MAIS

Azáfama. Cansaço. O dia a chegar. Tanta coisa para fazer. Depois, faz-se. Quase tudo. Nós, os que temos, pelo menos o suficiente, quase sempre a exagerarmos. No que compramos. No que comemos. No que oferecemos. Que o tempo é de oferecer, de dar. De receber. De agradecer. De desejar.

E assim foi. Comigo. Pelo menos, um pouco. Agora, hoje, sábado, um tempo de paragem. Na azáfama com tempo marcado. No entanto, tanta coisa para arrumar… Como tive a ajuda da filha (obrigado filhica!!!) já está quase tudo no sítio. Só falta separar os últimos resíduos: papéis para um lado, plásticos para o outro. Depois, ver se tudo deve ir juntar-se às toneladas e toneladas de resíduos ou, antes, algo deve ser aproveitado. Há que economizar. Há que reciclar. Há que proteger o ambiente. E todos nós. E há tanta coisa que eu comprei que contribuiu para o contrário disso?!…

Lisboa fria. O País frio. Mas nós somos uns sortudos. Temos um óptimo clima, que dá para andar na rua, todo o ano, sem preocupações. Mas carpimos mágoas. Ficamos em casa. Ou vamos para centros comerciais. Cada vez gosto menos. Esta é uma modalidade desportiva que os portugueses descobriram e à qual estão a tornar-se fiéis. Modalidade desportiva menor. De “maria vai com as outras”. Para os que não querem olhar, para lá de olhar… para as montras e para os outros… que também andam a olhar as montras… e os outros. Ah, e há os que se sentam em tudo o que é Mac… etc. Oxalá convivam. E troquem ideias. E beneficiem com isso. Com vista a tornarem-se melhores. Precisamos disso. De nos tornarmos melhores. Como indivíduos. Como famílias. Como empresas, organizações. Como País. Esse, seria um bom presente de Natal. Para o ano. Para o ano a seguir, e por aí fora.

Mas a comunicação social, sobretudo a TV, ajudam nessa coisa de criarmos pavor a uns pinguinhos de chuva, a uma nevezita raquítica que há lá para o Norte, 15 dias (se calhar já é muito…) em três ou quatro pontitos do País. Não saímos à rua. Não fazemos caminhadas. Os meninos ficam logo em casa. Ou no cinema. Ou nos centros comerciais. Ou vão dar uma voltita com os pais, que também lhes apetece dar uma volta… de carro. A pé ou de bicicleta… tá bem tá!…

Bom, mas comi os tais coscorões da minha terra. Bem bons. Mas não fui eu que os fiz. Faltou-me o tempo, de tão azafamado que andei. Vou fazê-los agora, neste tempo de intermezzo até ao 2010. É estranho (ou talvez não) que estes fritos me saibam somente nesta altura do ano. Quer dizer, não é como comer pastéis de bacalhau ou pataniscas. Esses comem-se todo o ano. E amêndoas também é só na Páscoa. Deve haver uma razão para que assim seja. Se calhar é simples, essa razão.

Olha, pensei agora. Pasteís de bacalhau e pataniscas: podíamos exportar isso para o mundo. Assim como os italianos exportaram as massas deles. Que algumas nem são deles, mas enfim… Assim como outros nos enchem de enlatados, chili, picanhas, salsichas, tapas… agora temos cá tudo. Só nós não conseguimos ideias e formas de exportar… o quê… ora deixa-me cá ver… deixa cá ver… cozido à portuguesa, feijoada à transmontana e… pastéis de bacalhau e pataniscas, claro. E deve haver muito mais para exportar.

Tenho um amigo francês que vem cá com frequência trabalhar e que ainda não percebeu como não conseguimos exportar para todo o mundo o pastel de nata… de Belém ou aparentado. Diz ele que um povo que conseguiu essa maravilha do pastel de nata só pode ser um bom povo. Simpatia dele à parte, até acho que tem razão. Um povo que inventou o arroz-doce e o leite-creme, por exemplo (e tantas outras maravilhas da doçaria que agora nem consigo indicar…) bem podia candidatar-se a ter um outro lugar no ranking destas coisas.

Onde é que eu ia… ah, o Natal. Pois, está a ir-se, mas ainda cheira a ele. E as pessoas andam com ar de Natal. Reparei nisso há pouco, quando fui à rua. Não os que não têm emprego, é claro. Como é que hão-de andar com ar de Natal?!… E também não os que têm outros problemas.

Há pouco fui a um centro comercial – pois é, falas muito, mas… E então aproximou-se de mim um arrumador… da moeda. Começou ali vai para 7 anos, mais ou menos. Quando chegou ao sítio tinha “um aspecto normal”. Agora é um esqueleto andante. Pernas, cara, tronco, olhos… tudo a chegar ao fundo. Tudo a ir-se. Impressiona. Não haverá moedas que o salvem. Nem aos que com ele disputam cada moeda. Nem os montes de bjecas que, todos os dias, eles consomem – amontoam as garrafas nas traseiras. Não é esse o caminho da salvação para eles. Eu já sabia. Mas uma amiga, que trabalha numa organização de apoio e recuperação de toxidependentes, confirmou-me. Quando lhes damos moedas não estamos a ajudá-los. Pensamos que sim, mas infelizmente, não. No que os/as levou até ali é que está a origem “da coisa”. E na incapacidade para gerir as situações, utilizando outras vias, e não a droga. E o que os/as levou até ali será/terá sido muita coisa. Para dali sair o que é determinante é o querer. Deles. O início da saída depende disso. Não só, mas fundamentalmente. Quantos, neste Natal, conseguirão iniciar esse movimento de retorno à vida?

Natal… e coisas de todos os dias. É isto a nossa vida.

Manuel

Autor: 60emais

Português.

4 opiniões sobre “NATAL EM FAMÍLIA… E ALGO MAIS”

  1. Ao ler este seu texto e observado a figura, lembrei-me do ritual das filhós nos tempos da minha infância. Pois bem, a minha mãe, que não tinha tempo para acudir a tudo, visto que não era como agora, que dispomos de máquina de lavar roupa, de secar e de toda uma parafernália de electrodomésticos que visam libertar as pessoas do trabalho doméstico, costumava comprar na panificadora um quilo de massa de pão para preparar umas filhós. Depois de colocar a massa de pão num alguidar, fazia-lhe no centro uma cova para onde partia uns ovos, despejava para a concavidade um diminuto cálice de aguardente, um tanto de açúcar, raspa de laranja, mais um pouco de farinha. Envolvia todos aqueles ingredientes e num instante tinha uma massa pronta e elástica para fritar à guisa de filhós. Pegava num pouco de massa, esticava-a para os lados com as mãos e vá de fritar. A minha tarefa era polvilhar as filhós com a mistura composta de açúcar e canela, ao mesmo tempo que ia debicando uma delas. Depois das filhós prontas, toca de tratar de comer uma ou duas, acompanhadas com uma canecada de café de saco, que mais não era do que uma pobre água chilra. Sabia-me bem, mas nunca deixei de cobiçar os coscorões da vizinha, no fundo eu mais não fazia do que obedecer ao provérbio tão difundido que nos diz que “a galinha da vizinha é sempre melhor do que a minha”. E tudo isto porquê? Porque a minha vizinha tinha um rancho de pessoas a ajudar nos preparativos para a noite de natal, logo tinha tempo para caprichar e dedicava-se com esmero à feitura dos coscorões, que estendia em massa fina sobre uma mesa, recortando-a cuidadosamente com a cartilha. Depois de fritos, aqueles coscorões quase se desfaziam nas mãos de tão delicados, fazendo um extremo contraste com as da minha mãe, que me pareciam pesadonas e rombas, uma coisa grosseira, sem graça. Ah, como eu estava enganada, que pena eu tenho de não lhe ter sabido dar valor! Com quanto sacrifício, depois de tanto trabalhar, ela as havia feito. Somos tão ingratos!

  2. Milu

    Obrigado pelo seu comentário. Que mais uma vez vem ajudar, na nossa aprendizagem comum. Aprender até ao fim, não é verdade?

    Eu conheço uma região onde os coscorões são assim. Não lhes chamam coscorões, mas filhós. Essa região é a Beira Alta. Pelo menos, em algumas zonas da Beira Alta, os filhós apresentam-se assim. São mais pesadões. Massudos. Os que na minha terra se chamam filhós, na Beira Alta chamam-se sonhos de abóbora. São redondos.

    Será que a sua mãe é daquela região?

    No Ribatejo, de onde veio o que mostro na foto, são do tipo daqueles que a Milu refere: massa leve, fina, estaladiça. E fazem-se com os ingredientes que indica. É destes que eu mais gosto. A minha mãe e, antes dela a minha avó (melhor ainda) faziam-nos com grande qualidade. Agora… a minha mãe já não pode. Que é coisa que, para além do saber, precisa de força. E isso ela já não tem, há muito…

    Continuação de Feliz Natal

    Manuel

  3. A nossa família é toda ela oriunda da região de Leiria, com proximidade a Fátima, mas aquelas filhós não eram confeccionadas tendo em conta a tradição, era feitas um pouco às três pancadas, pegando um punhado de massa e puxando-a para os lados no intuito de ganhar tempo. Havia sempre mais coisas para fazer, logo qual rolo da massa, qual cartilha, qual quê, toca mas é a despachar. Por acaso ainda há dias li por aí que a tradição é encostar a massa aos joelhos para lá formar uma cova, claro, com um pano a separar o joelho da massa. Assim também dá algum trabalho e suja-se mais um pano, afinal quem tinha razão era a minha mãe! 😀

  4. Fátima. Então não fica muito longe do Ribatejo… As mães acabam por ter sempre razão. É o que podem fazer, na altura. E decerto a sua mãe fazia o melhor. Depois de tanto sacrifício. Depois de tanto trabalhar…

    Manuel

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