UM AVIÃOZINHO NA FIGUEIRA – CONTO DE NATAL

O dia de Natal estava quase a chegar. António estava a brincar, ao pé da porta da sua casa, quando ouviu o pai dizer:

– Mulher, temos de ir à vila. Vamos comprar umas botas ao nosso António.

– Pois, disse a mãe. Ele tem o pé a crescer depressa. Precisa mesmo, precisa…

O António ouviu, mas não disse nada. Brincou muito todo o dia. À noite estava um bocadinho cansado e, logo a seguir ao jantar, começou a ficar com sono. A mãe levou-o ao colo para a cama e foi-lhe dizendo:

– Filho, amanhã vamos à vila. Comprar umas …

A mãe disse botas, mas o António já não ouviu. Tinha adormecido. A mãe deitou-o muito devagarinho, para ele não acordar. Tapou-o cuidadosamente, por causa do frio, e saiu do quarto.

Pela noite dentro, o António teve sonhos. Primeiro, viu um pássaro branco que trazia, presas nas patas, umas botas de menino. No sonho, António estava contente. Sorria para o pássaro branco. Já de madrugada, António teve outro sonho. As botas novas eram levadas pela ventania forte que assobiava, na chaminé. António esticava os braços, esticava, esticava, mas não conseguia chegar às botas. O céu estava muito escuro e lá ao fundo, mesmo ao fundinho, estava uma figura horrível. Era uma carantonha horrível, medonha, com teias de aranha amarelas em volta, que dava grandes gargalhadas. O António estava mesmo muito atrapalhado, com medo. A carantonha, que era mesmo muito feia, estava a rir, rir. Ria cada vez mais alto, com a boca muito aberta, mostrando dentes negros. E o menino via as botas a voar, em volta, e não as conseguia agarrar. Elas voavam rapidamente, em círculos, sempre fora do alcance das suas mãos.

Estava ainda o António no sonho, quando a mãe, de manhãzinha, chegou junto à cama e lhe segredou:

– António, Toninho… filho, filhinho… acorda filho… olha, então hoje vamos à vila… é preciso que te levantes, meu filho.

O menino foi acordando aos poucos. Abriu os olhos, mas, um pouco atordoado, parecia que ainda estava no sonho. Depois, pôs-se à escuta. O vento do sonho já não se ouvia. Abriu ainda mais os olhos. Não via a carantonha feia, nem as teias de aranha. Nem ouvia gargalhadas. Ficou mais sossegado.

A mãe tinha voltado à cozinha.

– Mãe, que vamos lá fazer… à vila? – perguntou. Não se lembrava da conversa entre entre os pais, no dia anterior.

A mãe não respondeu logo. Veio até junto dele e disse, em voz baixa, sorridente:

–  Vamos comprar umas botas… para ti… Anda, tens de te preparar.

Foram então os três na camioneta de passageiros: o pai, que se chamava Xavier, mais a mãe Felismina e o António. A viagem foi rápida, porque a vila ficava pertinho. O pai do António gostava de ir à Sapataria Brilhante. Era lá que os avós do António levavam o pai, quando ele precisava de botas.

Ao chegarem à sapataria, os pais de António disseram: Bom dia! E o António disse também a seguir: Bom dia! Na sapataria trabalhava o senhor Macedo, que o pai do António conhecia há muitos anos. O senhor Macedo disse logo bom dia, com ar muito bem-disposto, quando viu entrar os três. O senhor Xavier disse então que queriam saber se havia botas para o filho, ao que o senhor Macedo respondeu logo que sim, e foi buscar alguns pares, para mostrar. 

–  Gostava mais de umas castanhas – disse o António, enquanto o senhor Macedo abria as caixas e só mostrava botas pretas.

–  Castanhas?!…Hummm!… Vou ver se tenho o teu número. És pequenino, mas já sabes o que queres. Assim é que é!… Vou ver, vou ver…

O senhor Macedo mostrou dois pares de botas castanhas. As escolhidas pelo António foram aquelas que ele mais mirou e remirou. Tinham uma dobra na parte superior do cano, com enfeites de buraquinhos e rendilhados. A mãe disse:

– Estas são muito bonitas – e o António sorriu.

O senhor Macedo disse que fazia um desconto, porque já conhecia o pai há muitos anos. Depois de o pai pagar, despediram-se do senhor Macedo, que disse:

–  Então muito bom dia. Tenham uma boa viagem!

Saíram. Foram para o autocarro de passageiros, para regressarem a casa. António ia muito contente, porque tinha umas botas novas, para estrear no Natal. No caminho, parou para admirar uma montra toda enfeitada. Lá dentro, estava um pinheirinho, muito redondinho. Até parecia que o pinheirinho tinha nascido ali mesmo, na montra. Tinha à volta um montinho de musgo muito, muito verde. E em cima, pedacinhos de algodão, que pareciam mesmo flocos de neve, a caírem pelos ramos. E dentro do pinheirinho havia luzes de muitas cores, que iluminavam tudo. Por debaixo do pinheiro, e também nos seus ramos, havia brinquedos, muito reluzentes. Até parecia que estavam a mexer-se, que tinham vida. Eram bonecas, camionetas, motos de corrida, bolas às cores, loiça de brincar e oh!… um avião de quatro hélices. Era um espanto. Parecia mesmo verdadeiro.

– Anda filho, temos de ir… a camionete é daqui a pouco – disse a mãe, pegando-lhe mais na mão para o apressar. O António, de nariz encostado ao vidro da montra, resistiu um pouco. Depois disse, apontando para o avião:

– É tão bonito… gostava tanto de o levar, mãe!…

A mãe ficou um bocadinho a olhar o avião, depois olhou para o pai, e disse:

– Agora não pode ser. Hoje já comprámos as botas… temos de ir… Vamos!…

No regresso a casa, o António não disse mais nada. Nos dias seguintes, só uma vez falou de ir estrear as botas novas no dia de Natal. Mas, de vez em quando, lembrava-se do pinheirinho de Natal e dos brinquedos. O que mais lembrava era o avião de quatro hélices. Por isso, aproximou-se da mãe e perguntou:

– Mãe, lembras-te do aviãozinho? Tu também achaste bonito, não foi?

A mãe foi respondendo que sim, que era bonito. Mas depois desviava a conversa para outros assuntos que pudessem interessar ao António.

Chegou o dia de Natal. A manhã estava muita fria, mas com muito sol. Em casa, cheirava aos filhoses que a mãe sempre fazia, durante aquela noite.

– Bom Natal, meu filho – disse a mãe, quando o sentiu acordar.

O pai aproximou-se e também disse:

– Bom Natal, meu filho.

António respondeu:

–  Bom Natal mamã, bom Natal papá!

O pai começou então a contar o seguinte:

– Ontem disseram-me que na aldeia andaram uns aviõezinhos a voar. Houve meninos que apanharam alguns… eu ainda fui até lá, mas já não os vi.

António deu um salto na cama e dirigiu-se logo para perto do pai.

– É verdade, pai? É verdade? E não apanhaste nenhum? É verdade?…

O pai respondeu como se falasse com o ar mais natural do mundo:

– Não, não consegui. Já cheguei tarde. Disseram-me que alguns aviõezinhos ficaram muito cansados e até pousaram nas árvores. Houve meninos que foram lá buscá-los, às árvores…

António ficou muito excitado e perguntou:

– De certeza que não viste nenhum… na nossa oliveira grande?… já foste lá ver, pai?

O menino esperava ansiosamente.

– Não filho, não vi. Mas anda, levanta-te! Vamos ver se ainda encontramos algum aviãozinho por aí. É melhor sermos dois a procurar.

A mãe ajudou António a vestir-se. Não havia tempo a perder. Foram à oliveira grande. Nada. Depois, andaram por debaixo das outras oliveiras e também não viram lá qualquer aviãozinho. Por fim, dirigiram-se para a figueira grande, nas traseiras da casa. O menino olhava, olhava a figueira. Queria ver todos os ramos. Sentia que a qualquer momento poderia avistar um aviãozinho lá escondido. Olhava, olhava em volta, mas já estava a ficar triste… não encontrava nada.

– E se virmos de baixo para cima… por aqui pai? – perguntou, dirigindo-se para debaixo da figueira.

Fez-se silêncio. O pai e a mãe, que tinha chegado ao pé deles,  aguardavam.

– Ah! Ah!… Olha aqui, olha aqui… um aviãozinho!… Ficou aqui pai, ficou aqui!… – e pôs-se a cantar – ficou aqui!… ficou  aqui… ficou aqui!…

Com um olhar de espanto, o António conseguiu chegar ao aviãozinho, que estava ali mesmo, nos ramos mais próximos. António sorria, sorria, trazendo nas mãos pequeninas o bonito presente que o pai, logo pela manhã, fora pôr ali, como se, cansado de tanto voar, o aviãozinho tivesse pousado, suavemente, naquele simples ramo de figueira. Na véspera de Natal.

(Escrito para os meus netos e todos os outros meninos da nossa grande família. E também para todos os meninos do mundo. No Natal de 2009)

Manuel Sá.

Autor: 60emais

Português.

2 opiniões sobre “UM AVIÃOZINHO NA FIGUEIRA – CONTO DE NATAL”

  1. Lindo e muito agradável de ler, foi com bastante expectativa que o fui lendo, curiosa por saber se o António teria como prenda o tão desejado aviãozinho.

    Esta história fez-me recuar no tempo e recordei-me de um Natal em que o meu pai me deu uma boneca. Mas não foi fácil! Na localidade, onde então vivia, o Natal eram festejado com uma festa que tinha início dois ou três dias antes do dia 25 e terminava na segunda-feira do novo ano. A festa realizava-se no adro da igreja e todas as ruas próximas eram engalanadas por artísticas e coloridas iluminações eléctricas, incluindo a igreja. Por isso a noite era tão desejada, para podermos passear alegremente por entre toda aquela luz que parecia anunciar um acontecimento especial – o nascimento de Jesus. Ora, havendo festa de Natal há negócio, por isso na zona circundante da igreja havia umas barracas que vendiam brinquedos e outras quinquilharias.Também havia quermesse e um grupo de senhoras que vendiam pevides, tremoços e pinhões. Estes últimos eram vendidos quantificados por umas pequenas medidas de madeira, ou por umas fiadas que pareciam um colar. O meu pai todos os anos nos comprava um destas fiadas, a mim e aos meus dois irmãos, que nos enfiava pelo pesco, e nós, lá os íamos comendo um a um. Um dia, o meu pai disse-nos que aquelas fiadas eram feitas por mulheres que ligavam os pinhões uns aos outros através de uma agulha com uma linha enfiada, que elas passavam pela língua para a amolecer e deste modo evitar que o pinhão se partisse, quando a linha deslizasse no seu interior. Pronto! Com isto arranjou maneira de nunca mais querermos as fiadas de pinhões porque ganhamos nojo!

    Mas um Natal houve em que o meu pai me deu uma boneca! Eu vi-a dentro de um saco de plástico pendurada num gancho num daqueles ferros que armava a barraca. Era grandita, mas toda ela de plástico incluindo o cabelo. De imediato me imaginei a fazer-lhe roupinhas. Tinha jeito para os alinhavos, até porque algumas vezes observei como fazia a costureira que a minha mãe chegou a contratar ao dia, dantes isto era possível. Pedi ao meu pai que me comprasse a boneca, mas ele não estava pelos ajustes, achava que eu passava muito bem sem aquilo. Para ele o mais importante da vida era ter o que comer, tudo o resto era dispensável. Pois bem, não lhe dei descanso, as mulheres são muito perseverantes quando metem uma ideia na cabeça e eu já assim era, mais do que agora, diga-se, que já me começa a faltar a paciência. Durante uma parte da tarde deambulei pela festa atrás dele e empenhada num insidioso pranto, com o qual pretendia cansá-lo até conseguir que me desse a tão desejada boneca. Por fim lá consegui os meus intentos. Deixei logo de chorar! À noite ouvi-o contar à minha mãe o quanto eu tinha sido insistente e que até tinha ficado impressionado com a facilidade com que deixei de chorar, assim mal apanhei a boneca nas mãos, e nem vestígios de lágrimas me sobraram no rosto, apesar de me ter fartado de chorar durante um tempo que a mim me pareceu infinito. Comparado comigo o António da sua história foi um menino feliz, por isso a história ficou bonita. Porque a realidade, as histórias verdadeiras nem sempre têm tanta beleza.

    Para si um Natal muito Feliz.

    1. Milu
      Cada terra com seu uso… porém o Natal, e as histórias que nele vivemos na infância, como memórias, para sempre.
      Curioso como há tantos pequenos detalhes diferentes. Porém, a perseverança das crianças, para conseguirem obter os presentes, continua. Dantes, um presente era uma coisa… fantástica! Agora, sabemos que é a quantidade que marca o ritual. Além disso, as lágrimas dos meninos ainda conseguem cansar os pais… E as das meninas, ainda mais!
      Manuel

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