NATAL NA GUERRA COLONIAL – 1969.

À esquerda, o então Cabo Pinto e … (?) ambos cozinheiros. À direita, o então Furriel Pinto, de Sargento de Dia.
O refeitório, preparado para o Natal.

 

Songo. Angola. Foi ali que fomos parar. Depois de nos juntarem em Évora, onde nos preparámos para a guerra. No mínimo, onde nos preparámos para não nos deixarmos matar. Isso mesmo. Não vale a pena dizer isto por outras palavras. Era isso mesmo. Continua a ser isso mesmo. Em qualquer guerra, em qualquer lugar da terra. Com armas. Embora a guerra nunca comece nas armas. É nas cabeças dos homens, que começa. A guerra.

Chegámos lá em Setembro. 1969. Um mundo diferente. Apesar da preparação e da “psico”, um mundo muito diferente. 19, 20, 21, 22, 23 anos, era o que tínhamos. Só. O capitão, o comandante, 25 anos. Só.

Éramos uma companhia. De artilharia. Ser de artilharia não queria dizer nada. As nossas armas, as G3, eram de infantaria. Ou seja, andávamos a pé. Atacávamos a pé. Defendiamos a pé. Por vezes, íamos de viatura. De onde podíamos atacar. De onde nos podíamos defender. Tudo isso para defender o “território nacional”. O Portugal “multirracial”. Isto, era o que se dizia. Isto e outras coisas.

E nós, lá. Jovens. Umas crianças, para estarmos naquilo. Ingénuos, Desprevenidos. Alguns, enganados. Inconscientes, muitos. Longe. A 11 dias de viagem por mar. No Vera Cruz. Longe, mas perto. Muito perto das nossas terras. Das famílias. Das namoradas. Dos amigos. Da nossa vida. Do nosso mundo. De um futuro. Com um interregno por viver. À espera de sobreviver.

As datas. As festas. De anos. De Natal. Outras. Uns, na mata. No cimo da serra do Uíge. Onde lhes levávamos comida e água, uma vez por semana. Se as chuvas não deixassem, a picada ficava intransitável. Se deixassem, bacalhau todos os dias. Com batatas. Se ainda houvesse bacalhau. Se ainda houvesse batatas. Se nada houvesse, talvez uma presa por perto. Se não houvesse, ração de combate. Hoje, amanhã… Se não houvesse, talvez os unimogs pudessem chegar lá acima, ao destacamento. Ou talvez os unimogs voltassem a patinar, a escorregar, escorregar, encosta abaixo. E talvez voltássemos a desistir, para tentar, de novo, no dia seguinte.

As datas. As festas. De anos. De Natal. Outras. No quartel, outros militares, a maioria da companhia. À espera. Ou então, a sair. De G3 na mão. De um momento para o outro, se fosse preciso. Quase todos, sem saber para onde. Para cumprir a missão. A missão. Ao encontro do inimigo. O inimigo. Ir com a arma, as granadas, as metralhadoras. E com o silêncio, dentro de nós. E o nervoso. E o medo. E o outro ao lado, o companheiro. E a cabeça longe. E para afastar tudo isso, o cigarro, a cerveja. Ou a conversa. Ou nada. O vazio.

As datas. A força da época do Natal. O primeiro Natal na guerra.  Um aperto no coração. A lembrança dos Natais antes da guerra. Paz. Festa. Comunhão na família, na aldeia. Que fazer? Eu a dar voltas à cabeça. Eu a lembrar-me de como era na minha terra… as fontes engalanadas, folhas de hera, palmeiras, ramos de laranjeira, e de súbito… a ideia.

É preciso fazer qualquer coisa. Enfeitar qualquer coisa… o refeitório, isso, o refeitório, pois, o nosso pobre refeitório. E o pessoal todo lá dentro. A guerra vai parar… sim, a guerra vai dar tréguas. Eles, a quem chamamos inimigo, também têm Natal, hão-de ter, vão respeitar isso, não, não pode ser… não há-de haver assaltos, ataques, minas, emboscadas, nada disso… não há-de haver tiros, não vai ser preciso sair, não vai ser preciso…

O pessoal no refeitório. No pequeno-almoço, no almoço, no jantar. O refeitório com enfeites de Natal. Engalanado com as verduras da natureza em volta. Com luz. Com rancho melhorado. Se calhar, mais vinho. E um doce. Isso, um doce. E fritos?!… ah, fritos! Ou arroz-doce… ou  leite-creme… qualquer coisa diferente. Vá, homens do rancho, toca a trabalhar!…

Era Natal. O pessoal com a cabeça no que dizia a carta acabada de chegar. Ou na que, afinal, não veio. Talvez amanhã. O pessoal com o coração lá longe. O pessoal a reler as cartas anteriores. A ver as fotos que vieram. Ou a pôr ao peito a santinha que deu a mãe, a namorada. Para proteger. Ou, simplesmente, à espera. Apesar de ser Natal. Mais um dia. Igual a menos um dia. Mais um risco no calendário. Tudo isso. E muito mais. Em 1969.

O refeitório estava pronto, engalanado. Com a natureza em volta e o sentimento da paz. A paz que, sim, houve. Felizmente, em muitos dias. E naquele Natal. O primeiro Natal dos dias da guerra. Inesquecível.

Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

2 opiniões sobre “NATAL NA GUERRA COLONIAL – 1969.”

  1. Tanto sofrimento naquela maldita guerra e para quê? Ainda se em Portugal se vivesse bem naqueles tempos, mas, em vez disso, grassava a pobreza e a profunda ignorância!

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